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Pesquisa pode ajudar a prevenir lesão em atletas de alto rendimento

Publicado em 06 janeiro 2014

A dor, seja causada por treinamento intensivo, lesão, afastamento da família ou eliminação de uma prova importante – é algo com que atletas de alto rendimento têm de lidar no dia a dia da carreira.

Uma pesquisa feita na Escola de Educação Física e Esporte da Universidade de São Paulo (EEFE-USP) mostrou que o perfil de personalidade do esportista influencia não apenas sua percepção da dor como também a forma com que ele a enfrenta – e isso pode ser tão importante quanto a habilidade física na trajetória para o sucesso.

"Diante da dificuldade de discriminar o limite de suas habilidades e as diferentes formas de dor, o atleta se depara com a possibilidade de lesões. Essa pesquisa tem um caráter preventivo importante. Adaptamos uma metodologia que poderá oferecer indicadores para que a equipe técnica e os profissionais de saúde consigam compreender melhor a queixa do atleta no sentido de identificar quando ele chegou ao seu limite antes que se lesione", disse a professora Katia Rubio, coordenadora do estudo apoiado pela FAPESP.

O trabalho é fruto de um projeto anterior, intitulado "Memórias olímpicas por atletas olímpicos" e também coordenado por Rubio. O objetivo inicial do estudo com atletas olímpicos, que ainda está em andamento, era relatar as histórias de vida de todos os brasileiros que já participaram do principal evento esportivo do mundo.

"A questão da dor aparecia com muita frequência na fala dos atletas, mesmo quandnão perguntávamos sobre o tema. Já quando questionados sobre a dor em suas vidas, a maioria dizia não haver carreira esportiva sem dor. Para alguns, sentir dor no fim de uma sessão de treinamento era a indicação de um bom dia de trabalho", contou Rubio.

As entrevistas realizadas durante o projeto deram origem ao livro Atletas do Brasil Olímpico (Editora Kazuá), recém-lançado. A obra traz um capítulo dedicado exclusivamente à questão da dor, que conta histórias como a da ginasta Soraya Carvalho, impedida no último momento de participar dos Jogos Olímpicos de Atlanta, em 1996, por uma fratura provocada pelo treinamento excessivo.

"Eu dizia que estava sentindo dores, mas achavam que eu estava reclamando para ganhar descanso, uma vez que o ritmo de treinamentos estava muito intenso. Minha queixa não foi levada a sério [pela equipe técnica] e isso me custou os Jogos Olímpicos", disse Carvalho no livro.

Há ainda exemplos de atletas com tendência a ignorar os sinais de alerta da dor e a desafiar os limites do organismo em nome do objetivo esportivo, como é o caso do corredor Joaquim Cruz. O atleta sofreu diversas lesões em decorrência do treinamento feito durante anos com tênis e pista inadequados. Na entrevista concedida a Rubio, Cruz relembra as estratégias mentais que desenvolveu para enfrentar a dor e que lhe permitiram ganhar duas medalhas olímpicas – ouro nos jogos de Los Angeles, em 1984, e prata nos de Seul, em 1988.

"Antes dos Jogos Olímpicos de Seul eu tinha passado por uma cirurgia e coloquei na minha mente que tudo ia dar certo e deu certo. Muitas pessoas me falaram que, uma vez operado, você nunca é o mesmo. Isso não me tocava e, para sair daquele clima, eu pensava ‘se isso que estão me dizendo é verdade, não será no meu caso. Eu sou diferente e vou superar’", contou Cruz.

Para entender mais profundamente as dimensões da dor na vida de atletas profissionais, o grupo de Rubio avaliou 216 competidores brasileiros de nível olímpico atuantes em sete modalidades: atletismo, basquete, futebol, handebol, rugby, tênis de mesa e voleibol.

Agência Fapesp