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Pesquisa: pessoas fisicamente ativas respondem melhor à vacina contra Covid-19

Publicado em 11 agosto 2021

Um estudo realizado por pesquisadores da Universidade de São Paulo (USP) e colaboradores concluiu que manter um estilo de vida fisicamente ativo pode ser uma estratégia para turbinar a resposta imune induzida por vacinas contra a Covid-19. A pesquisa foi divulgada na plataforma Research Square , e ainda não passou por revisão por pares.

O estudo, que envolveu 1.095 voluntários imunizados com a vacina CoronaVac, indicou que o benefício proporcionado pela atividade física foi observado principalmente entre os participantes que se mantinham ativos ao menos 150 minutos por semana e não apresentavam comportamento sedentário, ou seja, não passavam mais de oito horas diárias sentados ou deitados.

Os pesquisadores levaram em consideração como “tempo ativo” tanto aquele dedicado aos exercícios e outras atividades de lazer – caminhada, corrida, dança, natação, passear com o cachorro etc., como também às atividades domésticas – limpar a casa, cuidar do jardim, lavar a roupa na mão, ao trabalho – carregar pesos, realizar consertos – e aos deslocamentos de rotina – andar a pé ou de bicicleta até o trabalho, o supermercado ou a escola, por exemplo.

Esses níveis de atividade física foram mensurados por meio de entrevistas telefônicas. Os voluntários que relataram ao menos 150 minutos de atividades semanais, somando os vários domínios analisados, foram considerados “ativos”.

“Uma pessoa que corre durante uma hora todos os dias e passa o resto do tempo sentada em frente a uma tela é considerada ativa e sedentária ao mesmo tempo. Nós combinamos esses dois conceitos diferentes em nossa análise. Quando olhamos para os dados, percebemos claramente que eles formam uma ‘escadinha’: no alto, com a melhor resposta vacinal, estão os ativos não sedentários. Na sequência, vêm os indivíduos ativos e sedentários. Por último, os inativos e também sedentários”, explica à Agência Fapesp Bruno Gualano, professor da Faculdade de Medicina (FM-USP) e primeiro autor do artigo.

O estudo

Todos os participantes foram imunizados com a vacina CoronaVac contra Covid-19 entre fevereiro e março de 2021. Amostras de sangue para análise foram coletadas logo após a aplicação da segunda dose do imunizante, bem como 28 e 69 dias depois. A qualidade da resposta vacinal foi avaliada através de testes laboratoriais, sendo os principais aqueles que medem a produção total de anticorpos contra o SARS-CoV-2 (IgG total) e a quantidade específica de anticorpos neutralizantes (NAb) – aqueles capazes de impedir a entrada do vírus na célula humana.

Os pesquisadores adotaram um critério em que atingiram a chamada “soroconversão” os participantes que no exame de IgG total apresentaram pelo menos 15 unidades arbitrárias (UA) de anticorpos por mililitro (mL) de sangue. Considerando os anticorpos neutralizantes, a resposta era positiva quando, no ensaio in vitro feito com o plasma sanguíneo, foi analisada ao menos 30% de inibição da ligação entre o novo coronavírus e o receptor da enzima conversora de angiotensina 2 (ACE2, na sigla em inglês) – proteína existente na superfície de algumas células humanas à qual o vírus se conecta para viabilizar a infecção.

As análises do estudo

De acordo com o pesquisador, o objetivo primordial do projeto de pesquisa, o qual seu artigo é fruto, era avaliar a segurança e a efetividade da CoronaVac em portadores de doenças reumáticas autoimunes, entre elas artrite reumatoide, lúpus eritematoso sistêmico, artrite psoriática, vasculite primária e esclerose sistêmica. Grande parte desses pacientes faz uso de medicações que reduzem a atividade do sistema imune e, portanto, uma resposta vacinal mais fraca era esperada.

Na análise final do estudo, foram incluídos 898 pacientes imunossuprimidos, sendo 494 classificados como ativos e 404 como inativos. Além disso, como uma espécie de grupo controle, participaram 197 voluntários sem doença autoimune – 128 ativos e 69 inativos.

Os pesquisadores utilizaram um modelo matemático para compensar possíveis distorções de variáveis como idade, sexo, índice de massa corporal (IMC) e uso de imunossupressores poderiam causar. Isso porque, sabidamente, o funcionamento do sistema imune é diminuído em indivíduos idosos e em usuários de corticoides e outros moduladores imunológicos, assim como possivelmente em obesos.

Na comparação ajustada, os pacientes imunossuprimidos fisicamente ativos apresentaram uma chance 1,4 vez maior de atingir a soroconversão. Isto é, “para cada dez pacientes inativos que soroconverteram após a segunda dose da vacina, há 14 pacientes fisicamente ativos que atingiram o mesmo resultado”, esclarece Gualano. O fato de ser fisicamente ativo também foi associado a um aumento de 32% na quantidade de anticorpos contra as regiões “S1” e “S2” da proteína spike (S) – usada pelo vírus para se conectar ao receptor ACE2 e penetrar na célula humana.

Por outro lado, entre os participantes sem doença autoimune, a chance de soroconversão foi 9,9 vezes maior entre os fisicamente ativos. Além disso, foi observado um aumento de 26% na quantidade de anticorpos contra a proteína spike. Considerando o número de voluntários menor nesse subgrupo, os dados referentes aos anticorpos neutralizantes também não apresentaram significância estatística.

“Os resultados nos permitem concluir que a atividade física potencializa a resposta vacinal contra a COVID-19 independentemente de fatores como idade, sexo e uso de imunossupressores. Realizar o mínimo de atividade física já produz uma resposta positiva, porém, observamos que quanto mais movimento, melhor. As respostas mais consistentes foram vistas entre os pacientes que realizavam 50 minutos ou mais de atividade física diariamente”, conta o pesquisador.

Embora o estudo só tenha sido avaliado com indivíduos imunizados com a CoronaVac, o pesquisador considera “plausível” que o mesmo efeito seja observado com todas as vacinas contra a Covid-19 e também contra outras doenças.

“A promoção da atividade física pelos gestores e formuladores de políticas públicas é algo fundamental. É uma intervenção barata, fácil de escalar para toda a população e pode fazer ainda mais diferença no caso de pessoas com sistema imune menos eficiente, como pacientes com doenças autoimunes e idosos”, considera Gualano.

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