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Pesquisa nacional relaciona a gordura com o agravamento da Covid-19

Publicado em 03 novembro 2020

Por Karina Toledo | Agência FAPESP

Pesquisadores da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FM-USP) analisaram o papel do tecido adiposo no agravamento da Covid-19. A equipe, coordenada pela professora do Departamento de Cirurgia, Marilia Cerqueira Leite Seelaender, descobriu que as células de gordura servem como reservatório para o Sars-Cov-2, contribuindo para aumentar a carga viral de indivíduos obesos ou com sobrepeso.

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As descobertas dos cientistas brasileiros estão relatadas em um artigo publicado na revista científica Advances in Nutrition. No estudo, os pesquisadores apresentam a hipótese de que, durante a infecção, as células de gordura liberam na corrente sanguínea substâncias que amplificam a reação inflamatória desencadeada pelo vírus no organismo.

"Já foi demonstrado que no organismo de pacientes com Covid-19 ocorre uma tempestade de citocinas que resulta em inflamação sistêmica similar à sepse. Nós acreditamos que esses fatores inflamatórios estão vindo do tecido adiposo. Já foi demonstrado que os adipócitos quando se expandem demasiadamente tornam-se capazes de promover inflamação no corpo todo, até mesmo no cérebro", afirmou Seelaender à Agência Fapesp.

O estudo, que contou com a colaboração do professor da Universidade de Oxford, Peter Ratcliffe - um dos premiados com o Nobel de Medicina em 2019 - analisou amostras de tecido adiposo de pessoas que morreram de Covid-19. Os pesquisadores também coletaram células de gordura de pacientes infectados com o novo coronavírus que precisaram ser submetidos a cirurgias de emergência, mas sem relação com a infecção.

A membrana externa da célula adiposa é rica em enzimas conversoras de angiotensina 2, a principal "porta" usada pelo Sars-Cov-2. Imagem:

"Uma coisa interessante de ressaltar é que o adipócito visceral [que compõe a gordura que se acumula entre os órgãos] tem muito mais ACE2 [enzima que o Sars-Cov-2 usa para invadir as células] que o do tecido adiposo subcutâneo. Além disso, é muito mais inflamatório. Portanto, a obesidade visceral tende a ser ainda mais prejudicial no que diz respeito à Covid-19", explica a pesquisadora.

Os pesquisadores ainda debatem como o estado nutricional do paciente pode influenciar a resposta à doença. Tanto a obesidade quanto a desnutrição podem comprometer a resposta imunológica e dificultar o combate a infecções virais.

"As células imunes têm a demanda de energia aumentada durante processos infecciosos, principalmente aqueles que demoram a ser debelados. Ocorre uma mudança no metabolismo dessas células para que consigam se multiplicar rapidamente, mas no organismo desnutrido isso não é possível. Durante uma infecção, o número de linfócitos T de um indivíduo desnutrido é bem menor que o de uma pessoa bem nutrida", explica Seelaender.

Via: Agência Fapesp

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