Notícia

Jornal da USP

Pesquisa nacional cresce, apesar do dólar alto

Publicado em 23 setembro 2002

A pesquisa brasileira está em declínio? Uma pesquisadora da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). Helena Nader, fundando-sc em relatórios do Ministério da Ciência e Tecnologia e em informações do banco internacional de dados Web of Science, do lnstitute Scientific Information (ISI), concluiu que a participação do Brasil na produção científica mundial caiu, passando de 1.08% em 2000 para 0.95% em 2001. Uma queda de 12%. Contudo, essa conclusão não é aceita pacificamente por toda a comunidade científica e divide professores da USP. O pró-reitor de Pesquisa da USP, professor Luiz Nunes, que considera pouco confiáveis os números divulgados por Helena Nader, diz que, pelos seus cálculos, a pesquisa brasileira cresceu proporcionalmente mais que a mundial nos dois últimos anos: em 2000, o Brasil leve 1.09% do total mundial e em 2001, 1.11%. Também os professores Rogério Meneghini, do Instituto de Química da USP, coordenador do Centro de Biologia Estrutural do Laboratório Nacional Síncrotron, em Campinas, e adjunto da Diretoria Científica da Fapesp (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado e São Paulo), e Gil da Costa Marques, diretor do Instituto de Física, entendem que é preciso observar certas particularidades na tendência da pesquisa mundial que o trabalho da professora e pró-reitora de Graduação da Unifesp não considerou, Meneghini, diferentemente de Luiz Nunes, entende que a produção mundial cresceu proporcionalmente mais do que a do Brasil, invertendo tendência de anos anteriores. Na opinião do professor Roberto Mendonça Faria, do Instituto de Física de São Carlos e coordenador do Instituto do Milênio de Materiais Polimérieos, do Ministério da Ciência e Tecnologia, os números devem ser analisados com muito critério e cuidado, porque outros estudos, como o do professor Carlos Henrique Brito da Cruz, reitor da Unicamp, trazem conclusões diferentes dos da pesquisadora da Unifesp. Na Faculdade de Medicina da USP em Ribeirão Preto, o professor Célio Lopes Silva, responsável pelo desenvolvimento de uma vacina contra a tuberculose humana e bovina, confirma atraso nos trabalhos por conta da suspensão de recursos. E, em São Paulo, o geneticista Crodovaldo Pavan, também coordenador do Núcleo José Reis de Divulgação Científica, faz crítica contundente à política nacional para o desenvolvimento da ciência e tecnologia, condenando especialmente a "entrega privilegiada" de recursos a grupos de alta pesquisa com prejuízo, segundo ele, para os da base. O pró-reiltor de Pesquisa diz que também na USP a pesquisa vem crescendo, embora sua participação nas publicações brasileiras se mantenha em 25%, apesar de as condições de financiamento em São Paulo serem melhores do que nos outros Estados. "A Universidade cresce no ritmo de Brasil." Luiz Nunes tem os seguintes dados sobre a USP, o Brasil e o mundo. Em 2000 USP com 3.138 artigos Brasil, 12.668 munido, 1.164.714. Em 2001: USP com 3.253 artigos Brasil, 13.380, mundo, 1.201.560. Os números desse tipo de levantamento variam muito, dependendo da época em que são leitos e de outras circunstâncias. O professor Meneghini, que há muitos anos vem trabalhando no levantamento de informações do ISI e também coordena o programa Scielo - biblioteca de revistas científicas disponível na Internet, da Fapesp - observa que a pesquisa nacional teve um crescimento de 4% entre 2000 e 2001, passando de 12.680 artigos publicados para 13.191. Um crescimento bem superior ao da economia brasileira. Apesar disso, segundo ele, a pesquisa mundial "cresceu mais significativamente que a nacional no mesmo período, passando de 1.164 mil para 1.375 mil publicações, acréscimo de 18%. Assim se explicaria a conclusão, verdadeira mas incompleta, da professora da Unifesp, Meneghini admite haver problemas de financiamento na área federal e até na Fapesp, mas o efeito disso não poderia ser sentido nos resultados dos anos passados. É de se esperar que surjam, de fato, conseqüências negativas daqui para a frente. O Ministério da Ciência e Tecnologia enfrentou corte significativo de recursos, o que começa a afetar todos os grupos de pesquisa financiados pelo CNPq e outras agências. Em São Paulo uma espécie de "moratória" em razão dos problemas de câmbio. O centro que Meneghini dirige em Campinas teve sorte, segundo o próprio coordenador, porque boa parte dos equipamentos necessários pode ser encontrada no mercado interno, em real. "NUNCA OUVI FALAR NISSO" De acordo com o diretor do Instituto de Física, não há queda na produção científica do País e o levantamento feito pela professora Helena Nader deve ter sido pouco preciso e é bom que ela o reveja. Pelo menos no caso da Física da USP. "não há como a pesquisa cair de um ano para outro. Não existem razões objetivas". Os financiamentos, acrescenta Gil da Costa Marques, continuam e mesmo que houvesse interrupção os impactos só poderiam ser sentidos a longo prazo. "Nunca ouvi falar nisso e estou surpreso." O professor Pavan, que na quarta-feira participava em Águas de São Pedro de reunião anual da Sociedade Brasileira de Genética, disse que ficaria surpreso se não houvesse queda na produção de pesquisa no Brasil: Todos reclamam. Como se pode fazer iniciação científica sem financiamentos?". Ele atribui a crise aos economistas, "para quem só os bancos contam", e critica o governo federal que estaria destinando a maior parte dos recursos a grupos privilegiados, entre os quais o projeto Milênio. "Isso é fantasiar o topo e abandonar a base". Tais programas, segundo Pavan, deveriam receber verba especial, não do orçamento. A expectativa de Pavan para os próximos anos também é ruim: "Por maior boa vontade que tenha o próximo presidente da República, estamos fritos". O genecista faz exceção à Fapesp, "que vai bem", embora ainda discorde da forma da financiadora de distribuir os recursos. "Há regularmento e não é mais como era antigamente." Pavan diz que o Brasil não pode permitir atraso na pesquisa, que é fundamental para o desenvolvimento, especialmente numa fase em que o País mais precisa compelir internacionalmente. FONTES DE RECURSOS AMPLIADAS Sobre o estudo de Helena Nader, o professor Roberto Mendonça Faria observa: "Os índices são provenientes de fontes confiáveis, mas devo lembrar que o professor Carlos Henrique Brito da Cruz, reitor da Unicamp, apresenta dados que mostram justamente o oposto, também obtidos junto a fontes fidedignas". Os índices divulgados pelo reitor da Unicamp colhidos no National Science Indicators aumentam a produção brasileira de 1.33% em 2000 para 1.44% no ano passado. Mendonça Faria lembra que nos anos de 1992 e 1993 a situação foi mais complicada, quando as verbas destinadas às pesquisas sofreram um corte brusco. "Mesmo assim, não houve queda da participação do Brasil na produção científica mundial", citou o professor, lembrando que, naquela oportunidade, os recursos vinham apenas do governo federal e da Fapesp em São Paulo. "Hoje outros Estados brasileiros já possuem suas agências de financiamento à pesquisa. De maneira geral, já estamos acostumados com a falta de recursos para pesquisas. Contudo, acredito que, na média, a ciência brasileira vem crescendo", ressaltou. Ele lembra ainda que nas áreas de tecnologia também existe um crescimento, porém, não tão intenso. Considerando que a situação das verbas destinadas às pesquisas passa por um período difícil. Mendonça Faria mostra otimismo e acredita que o panorama ainda poderá melhorar. O Instituto do Milênio que ele coordena recebeu apenas R$ 40 mil dos R$ 360 mil previstos. "Recebemos a quantia em junho/julho deste ano e ainda aguardamos o restante. Estamos parados também quanto à questão dos equipamentos, pois nada ainda foi importado", lamentou. Segundo ele, toda a documentação necessária para a importação de materiais já foi devidamente concluída. As importações somam R$ 1,3 milhão. "Acredito que a alta do dólar também seja um complicador. O governo deve estar esperando a baixa para iniciar a importação." VACINA ESTÁ ATRASADA Quem não teve sorte com as compras no exterior foi o professor Célio Lopes Silva, que tenta a vacina antituberculose. O dólar subiu, falta comprar mais equipamentos (material para análises de laboratório, de separação, de fermentação, reagentes), alguns estão bloqueados e os recursos, tanto federais como da Fapesp, atrasados. Ele esperava receber do Ministério da Ciência e Tecnologia R$ 1 milhão nos últimos meses, mas chegaram apenas R$ 81 mil. Resultado: a vacina gênica está atrasada pelo menos seis meses. A fase pré-clínica está na parte final, falta ainda a parte clínica em escala piloto, o laboratório funcionando como pequena empresa. Os testes com humanos já foram liberados, mas aguardam melhores condições laboratoriais. Os ensaios clínicos começam pelos bois. Os animais, uns 30, são da Universidade Federal de Minas Gerais, parceira na pesquisa da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto. É também verdade que o professor Célio Silva começa a se animar com a promessa do governo de liberar parte das verbas contidas. "O brasileiro é criativo e trabalha até com poucos recursos, mas duplicaria a produção se houvesse maior interação entre universidade e empresas. Criaria novos produtos." Célio Silva cita o exemplo da Coréia do Sul que conseguiu aumentar a exportação e criar grande variedade de produtos graças à parceria com o setor privado e apoio institucional à pesquisa. O chefe da equipe da vacina antituberculose é também coordenador da Rede Brasileira de Pesquisa em Tuberculose, que tinha até pouco tempo 170 pesquisadores cadastrados e agora já são mais de 600. Semana passada, o professor da USP e esses pesquisadores reuniram-se no Rio de Janeiro, no I" Workshop do Milênio Rede-TB, para debater o problema do combate a tuberculose, a vacina e o desenvolvimento de novos produtos nessa área.