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Jornal da Cidade (Bauru, SP) online

Pesquisa muda defeso do camarão

Publicado em 26 janeiro 2009

A escassez de informações sobre a biodiversidade do litoral paulista tem prejudicado a proteção a muitas espécies em risco de extinção. Animais de importância comercial, entre eles o caranguejo-uçá, o camarão-rosa, o camarão-sete-barbas e algumas variedades de tubarão, são pescados em abundância. Porém, pesquisas da Universidade Estadual paulista (Unesp) sobre fauna marinha, além de fornecerem conhecimento sobre diversos organismos, auxiliam na adoção de normas de exploração sustentável e conservação. A mais recente foi a mudança do período de defeso-proibição de pesca - de camarões no litoral norte do Estado.

Em parceria com a equipe do professor Adilson Fransozo, do Instituto de Biociências (IB), campus de Botucatu, um estudo feito pelo professor Rogério Caetano da Costa, da Faculdade de Ciências (FC), do campus de Bauru, levou à modificação das normas sobre o período de proibição de pesca de camarões do litoral norte. Em 2006, uma norma do Centro de Pesquisa e Gestão de Recursos Pesqueiros do Litoral Sudeste e Sul estabeleceu os meses de março a maio para o defeso dos camarões-rosa e o período de outubro a dezembro para as demais espécies do crustáceo, como o camarão-branco e o camarão-sete-barbas.

Após dois anos de coletas, Costa, o pós-doutorando Antonio Castilho e outros pesquisadores da FC concluíram que essa separação de defesos prejudica o desenvolvimento dos animais. Eles verificaram que, no litoral norte, os camarões das espécies rosa e branco terminam sua fase juvenil de forma diferente de outras regiões, como o litoral sul paulista e a costa de Santa Catarina. Nesses outros locais, as duas espécies atingem a fase adulta em áreas de estuários (braço de mar formado na desembocadura de um rio). No litoral norte, o fim da fase juvenil de camarões das espécies rosa e branco ocorre em baías e enseadas, onde o camarão-sete-barbas é intensamente explorado - sendo também capturados.

A partir dessas constatações, Costa e seu grupo propuseram a unificação do defeso no litoral norte para o período de março a maio. A sugestão foi aceita pelo Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) e virou norma em 2008. Anteriormente, entre 2001 e 2003, o professor Fransozo coordenou um estudo de descrição, identificação e classificação de crustáceos na costa de São Sebastião, Caraguatatuba e Ubatuba, no litoral norte do Estado de São Paulo.

Como parte do Projeto Biota, o estudo foi financiado pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp). "O litoral norte é uma região rica em ilhas e enseadas, que promovem ambientes propícios ao desenvolvimento das espécies", disse o professor. Na época, uma equipe de cerca de 20 pesquisadores vasculhou pontos determinados por satélite, coletando amostras de crustáceos - siris, caranguejos, lagostas e camarões-, numa profundidade de até 45 m.

Os resultados do empreendimento integram o manual de identificação dos invertebrados marinhos das Regiões Sul e Sudeste do Brasil, no qual o professor foi responsável pela descrição, identificação e classificação de crustáceos no litoral paulista.

Caranguejo-uçá

Várias medidas em defesa do caranguejo-uçá (Ucides cordatus) também foram adotadas a partir de investigações lideradas por Marcelo Antonio Amaro Pinheiro, coordenador-executivo do campus do Litoral Paulista, em São Vicente. Desde 1996, nos manguezais de Iguapé, no litoral sul, Pinheiro pesquisa o ciclo reprodutivo dessa espécie, que consta da lista do Ibama de invertebrados aquáticos super explorados.

"A elevada extração comercial, reduzida taxa de crescimento e degradação dos manguezais, único ambiente do uçá, deixam esse animal vulnerável", afirma.

Coordenador do Grupo de Pesquisa em Biologia de Crustáceos (Crusta), Pinheiro constatou que o uçá leva em média nove anos para se tornar adulto, quando a carapaça pode medir até 9 cm de largura. Com base nesses dados, foram baixadas normas para que o caranguejo só seja capturado ao chegar à maturidade sexual e a casca atingir ao menos 6 centímetros.

Antes, o tamanho mínimo da casca permitido era de 5 centímetros. Além disso, foi estabelecido o período de defeso de outubro a dezembro. Segundo Pinheiro, em outubro os adultos trocam de casca e em novembro, já maiores e com a carapaça renovada, os animais se acasalam. Após essa etapa, os machos podem ser capturados de dezembro a março, e as fêmeas, após a desova, a partir de março.