Notícia

Jornal do Comércio (RS)

Pesquisa mostra que orientadores são essenciais na produção acadêmica

Publicado em 16 outubro 2012

O papel do orientador é essencial para que o aluno de pós-graduação possa realizar um trabalho consistente, eficiente e que fuja ao senso comum. Diferentes intervenções do orientador refletem diferentes respostas do estudante. Um estudo de caso realizado na Faculdade de Educação (FE) pela pesquisadora e professora Suelen Igreja mostra como aos poucos a orientação permitiu a uma aluna de mestrado o amadurecimento na forma de expor teorias, ideias e dados de suas pesquisas. A professora revela que três passagens são fundamentais no processo de escrita: da transferência à transferência de trabalho, da vergonha narcísica à vergonha psicanalítica e da culpa à responsabilidade sexual.

Dados da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) mostram que cerca de 70% dos alunos de pós-graduação não a concluem. “Minha intenção, no entanto, não foi buscar o porquê das desistências, mas a forma como um trabalho é conduzido pelo orientador de forma que venha a ser frnalizado”.

Para o estudo de caso, foram analisados 355 versões de textos produzidos por Louise, aluna de mestrado em Ciências Humanas de uma Universidade Pública e por sua orientadora Jacqueline (os nomes são fictícios para preservar a identidade da estudante e da orientadora). Os textos foram extraídos de um banco de dados chamado Movimentos do escrito, organizado pelo Grupo de Pesquisas e Produção Escrita e Psicanálise (Geppep) da FE. O banco reúne textos de alunos de pós-graduação e de ensino médio e visa a ser uma fonte de estudo que possibilite verificar mudanças que ocorrem durante o processo de escrita da pessoa.

No caso de Louise, “contei com versões digitadas, anotações e intervenções da orientadora e até mesmo com textos escritos manualmente. Em alguns, a orientadora dizia não se preocupe com a minha reação, se eu estou triste ou feliz com o que você escreve”. Isto parece paradoxal, mas é bem comum que a preocupação inicial do pós-graduando seja “se vai ou não agradar ao orientador” diz a pesquisadora. Ela explica que a relação que se estabelece entre o orientador e o aluno é o que se denomina transferência. Mas enquanto o próprio aluno não percebe que o objetivo principal não é contentar o professor, mas assumir a responsabilidade diante do trabalho que se propôs a fazer.

Um exemplo disso, no caso de Louise, ocorreu durante a análise de dados. Segundo a pesquisadora, as intervenções da orientadora muitas vezes se caracterizavam pelo corte de expressões de culpa ou de descontentamento da aluna diante do trabalho que não conseguia fazer. Voltava-se sempre para o trabalho, para estratégias que poderiam ser usadas para refinar as analises feitas, a fim de que sua aluna aprendesse a lidar com os dados de forma mais objetiva, trazendo “um novo texto, com conclusões mais amadurecidas e refletidas”, reflete a pesquisadora.

(Agência USP)