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Pesquisa mostra agravamento de transtornos mentais na pandemia

Publicado em 30 outubro 2020

Por José Tadeu Arantes, da Agência FAPESP

Mais cigarro e bebida alcoólica, mais comida ultraprocessada, mais tempo de televisão e de internet, menos exercício físico, menos horas de sono, menos alimentação saudável: este tem sido, em termos de comportamento, o resultado da pandemia para um número significativo de pessoas. Este quadro foi descrito por Marilisa Barros, professora titular de Epidemiologia da Faculdade de Ciências Médicas da Universidade Estadual de Campinas (FCM-Unicamp), no evento “Depressão, saúde mental e pandemia”, do Ciclo ILP-FAPESP de Ciência e Inovação.

Promovido pelo Instituto do Legislativo Paulista da Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo (ILP-Alesp) e pela FAPESP (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo), o evento foi realizado virtualmente no dia 26 de outubro e transmitido ao vivo pelo canal da Alesp no YouTube.

Os números atestam esse cenário desfavorável: 34% dos fumantes aumentaram o número de cigarros consumidos por dia e 17,6% das pessoas aumentaram o consumo de álcool. E, enquanto o percentual dos que realizavam atividades físicas semanais caiu de 30,4% para 12,6%, houve um aumento médio diário de 1 hora e 45 minutos de consumo de TV e 1 hora e 30 minutos de consumo de computador e tablet durante a pandemia.

E tais indicadores correlacionam-se com sentimentos associados ao quadro depressivo. “Das pessoas entrevistadas, 40,4% disseram ter sentimentos de tristeza ou depressão, e 52,6% afirmaram experimentar sentimentos de nervosismo ou ansiedade, muitas vezes ou sempre. O maior impacto na saúde mental ocorreu nos adultos jovens, nas mulheres e nas pessoas com antecedente de depressão”, informa Barros.

Os dados apresentados foram extraídos da pesquisa “ConVid Comportamentos”, realizada em parceria pela Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), a Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e a Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), e coordenada por Barros na Unicamp. A pesquisa foi realizada via web, entre 24 de abril e 24 de maio deste ano, e alcançou 45.161 brasileiros, de todas as unidades da Federação, 11.863 deles do Estado de São Paulo. “Verificamos que 62,1% das pessoas tiveram sua renda diminuída ou ficaram sem renda”, diz a pesquisadora.

Também no evento do Ciclo ILP-FAPESP, Laura Helena Guerra de Andrade, coordenadora do Núcleo de Epidemiologia Psiquiátrica do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (HC-FMUSP), enfocou o tema da depressão e saúde mental nos centros urbanos. “Atualmente, 80% dos brasileiros vivem em centros urbanos, e 10% na Região Metropolitana de São Paulo (RMSP)”, diz.

Guerra de Andrade foi também coordenadora do projeto temático “São Paulo Megacity  – Estudo epidemiológico dos transtornos psiquiátricos na Região Metropolitana de São Paulo: prevalências, fatores de risco e sobrecarga social e econômica”, estudo epidemiológico brasileiro, apoiado pela FAPESP, integrante do “Consortium World Mental Health Initiative”, da Organização Mundial da Saúde. Segundo ela, houve uma expansão explosiva da mancha urbana da RMSP nos últimos 30 anos. E as evidências mostram que viver na grande cidade está provocando alterações cerebrais nos moradores.

“Colhemos informações de 5.037 residentes de diferentes áreas da RMSP, e verificamos que 30% deles apresentaram algum tipo de transtorno no ano anterior à entrevista: 20% com sintomas de ansiedade (ansiedade generalizada, fobias etc.), 11% com distúrbios de humor (depressão maior, distimia, bipolaridade) e 3,6% por consumo de álcool e outras drogas. Aproximadamente 30% dos casos de transtorno eram graves”, afirma.

Um dado impactante revelado pelo estudo foi que 54,6% das pessoas da amostra vivenciaram, como vítimas ou testemunhas, ao menos um evento traumático relacionado a crimes. Esse percentual é maior do que o registrado no Líbano, país que passou por uma devastadora guerra civil.

“Em relação especificamente à depressão, o estudo mostrou que a mulher tem duas vezes mais chances de apresentar o transtorno do que o homem; que, em 50% dos casos, o primeiro episódio de depressão ocorre antes dos 24 anos; e que mais da metade das pessoas afetadas apresenta comorbidades, principalmente ansiedade e dor crônica”, relata Guerra de Andrade.

Entre as muitas informações providas pelo estudo, uma, especialmente relevante para a definição de políticas públicas, foi que menos de 40% das pessoas com depressão receberam tratamento no ano anterior. E somente 15,4% receberam o tratamento adequado. A renda é o único fator determinante para o acesso ao tratamento: quanto maior a renda, maior o acesso.

O terceiro participante do evento, Guilherme Polanczyk, professor de Psiquiatria da Infância e Adolescência da FM-USP, desenvolveu o tema da saúde mental de crianças e adolescentes na pandemia de COVID-19. “A pobreza é o fator de risco mais consistente para transtornos mentais. E o Brasil tem 20 milhões de crianças, entre 0 e 14 anos, vivendo na pobreza”, revela o pesquisador.

Em um contexto global no qual a depressão constitui um dos principais fatores de incapacidade entre adolescentes, e que o suicídio é a terceira causa de morte na faixa etária dos 15 aos 19 anos, o Brasil apresenta um número estimado de 10,3 milhões de pessoas com depressão menores de 19 anos.

Polanczyk é o coordenador da plataforma “Jovens na Pandemia”, um survey nacional on-line que já levantou dados de 6.535 crianças e adolescentes, com média etária de 10,7 anos, de todas as regiões do país. Na amostra, 18,3% apresentaram uma condição de doença crônica e 12,8% de transtorno mental.

Entre os fatores decorrentes da pandemia e predisponentes à depressão e outros transtornos mentais, Polanczyk destaca: confinamento; exposição ao estresse vivido pelos pais; conflitos familiares e violência; insegurança alimentar e em relação à moradia; medo da infecção e preocupação com familiares; afastamento da rede de amigos e apoio social; sentimento de solidão, incerteza e insegurança; afastamento da escola e interrupção do aprendizado; falta de acesso a serviços de saúde e sociais; inatividade física; alterações de hábito de sono e alimentação; exposição sem monitoramento à internet; escassez de atividades de lazer.

Um próximo passo previsto pelo pesquisador é o atendimento psicoterápico de crianças e adolescentes com sintomas ansiosos e depressivos no contexto da pandemia, realizado por meio de videoconferência ou telefone e com a participação dos pais.

O evento “Depressão, saúde mental e pandemia”, do Ciclo ILP-FAPESP de Ciência e Inovação, teve a moderação do professor Carlos Américo Pacheco, diretor-presidente da FAPESP. E pode ser assistido em www.youtube.com/watch?v=pXqcnhnddH8.