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Pesquisa livra MS do risco de surto 'explosivo' de chikungunya

Publicado em 18 agosto 2016

Por Danielle Valentim

Com toda a atenção do país voltava ao vírus zika e sua ação devastadora sobre o cérebro dos bebês, a chikungunya, enfermidade bem mais dolorosa e debilitante se alastastrou de maneira discreta, desde sua chegada ao Brasil em 2014. Um surto 'explosivo' pode ocorrer no país, e para a tranquilidade dos sul-mato-grossenses, o Estado está fora da rota da doença, conforme pesquisa divulgada pela Fapesp (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo), nesta semana.

Segundo o documento, em meados de 2014, duas variedades do vírus chikungunya alcançaram quase ao mesmo tempo duas regiões brasileiras: uma linhagem originária da África chegou no final de maio a Feira de Santana, na Bahia, e outra, proveniente da Ásia e associada à epidemia de chikungunya nas Américas, aportou no município de Oiapoque, no Amapá. Era o início de uma invasão lenta e gradual, que se acelerou muito neste ano.

O primeiro surto confirmado dessa febre ocorreu na Tanzânia em 1952, embora exista a suspeita de que o vírus, que integra a família Togaviridae e o gênero Alphavirus, já circulasse pela África dois séculos antes.

CHEGADA AO BRASIL

Em maio de 2014, um brasileiro que veio de Angola para visitar a família na Bahia pode ter sido o responsável por introduzir no país a variedade do vírus que circula no leste da África e já se espalhou por boa parte do Brasil. Ele esteve em Feira de Santana, a segunda maior cidade do estado, e em 28 de maio procurou um pronto-socorro com febre alta e dores nas articulações.

A suspeita inicial de dengue foi descartada por exames laboratoriais. Mais tarde análises genéticas feitas pela equipe do virologista Pedro Vasconcelos, do Instituto Evandro Chagas, no Pará, confirmaram que o problema havia sido causado pela variedade africana de chikungunya, distinta da que circulava no Amapá.

Nas semanas seguintes à visita, vários familiares do homem, picados por mosquitos infectados, apresentaram sinais de chikungunya, que se espalhou pela cidade.

Desde o início do surto na Bahia, o infectologista Rivaldo Venâncio da Cunha, da Fiocruz em Mato Grosso do Sul, vai a Feira de Santana e Riachão do Jacuípe, outra cidade baiana muito afetada, para analisar os casos. “Após um surto ou epidemia de dengue, a rede assistencial desafoga aos poucos”, explica. Com a chikungunya, não. “Por causa das dores e da inflamação as pessoas voltam para consultas quase toda semana, por meses. Estamos acompanhando dezenas de pessoas que ainda têm dores nas articulações de quatro a seis meses depois de terem adoecido”, explicou.

Estudos internacionais indicam que as dores nas articulações são mais intensas no início da infecção e costumam se tornar crônicas nas pessoas com mais de 45 anos. Em uma proporção variável delas, o problema pode persistir por um ano ou mais.

A CHICUNGUNYA

A pesquisa ressalta que a infecção por chikungunya lembra a causada pelo vírus da febre zika e pelo da dengue, razão pela qual o diagnóstico correto só é possível por meio de testes moleculares (PCR) e imunológicos, que já existem, mas não estão disponíveis no sistema público de saúde. Transmitidas pela picada de mosquitos do gênero Aedes – em especial, o A. aegypti, abundante em todo o país –, as três enfermidades costumam causar febre, manchas vermelhas pelo corpo e dores de cabeça, além das musculares e articulares.

Chikungunya, é uma palavra da língua makonde, falada por grupos da Tanzânia e de Moçambique, que significa “aqueles que se dobram”. É uma referência ao modo como as pessoas infectadas pelo vírus passam a caminhar: com o corpo encolhido e curvado para a frente, na tentativa de reduzir o desconforto da intensidade das dores nas juntas.

PREOCUPAÇÃO

Vários especialistas se mostraram preocupados com o risco de a chikungunya se tornar o problema do próximo verão. Há razões para a suspeita. O vírus já está em um terço dos municípios brasileiros – inclusive em São Paulo e no Rio de Janeiro, os mais populosos.

Outra característica do surto brasileiro reforça o receio de que a situação possa se agravar. Apesar da aceleração observada neste ano, o vírus ainda se espalha mais lentamente do que em outros países. “Os surtos de chikungunya costumam ser explosivos”, conta o infectologista Benedito Lopes da Fonseca, da USP em Ribeirão Preto.

Ainda não há vacina contra o vírus e o tratamento é paliativo, à base de analgésicos e outras medicações. Para os especialistas, é preciso treinar os médicos para fazerem o diagnóstico correto, em especial dos casos graves.

“No Nordeste temos visto muitos casos de miocardite e uma taxa de óbitos exageradamente alta”, afirma o infectologista Kleber Luz, da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN).

Luz é consultor do Ministério da Saúde para a assistência a doentes e, em 2013, acompanhou na Martinica um surto de chikungunya que lhe pareceu uma versão mais branda da doença que circula no país. Ele suspeita de que parte das mortes decorrem do manejo inadequado dos pacientes e do uso de anti-inflamatórios, que devem ser evitados na fase aguda. “É preciso investigar o que está acontecendo”, afirma.