Estudo Titan Trial testa combinação de neuromodulação e fisioterapia para tratar negligência espacial pós-AVC.Pesquisa envolve 51 pacientes com AVC isquêmico no hemisfério direito, em instituições brasileiras e parceiras internacionais.Intervenções incluem 15 sessões e avaliação de funcionalidade, autonomia e qualidade de vida dos pacientes após o tratamento.
Um estudo clínico multicêntrico vai avaliar uma estratégia inovadora para o tratamento de uma das sequelas mais incapacitantes do acidente vascular cerebral (AVC): a negligência espacial unilateral (NEU). A condição compromete a percepção de um dos lados do espaço e dificulta a reabilitação funcional dos pacientes. Batizado de Titan Trial, o projeto testa a combinação de duas técnicas de neuromodulação não invasiva, a estimulação elétrica transcraniana por corrente contínua (ETCC) e a estimulação magnética transcraniana do tipo theta burst (TB), associadas a sessões de fisioterapia orientadas por tarefas.
A NEU faz com que o indivíduo ignore ou não perceba um lado do próprio corpo ou do ambiente ao redor. Entre os exemplos mais comuns estão comer apenas a comida de um lado do prato, esbarrar em objetos ou pessoas sempre do mesmo lado, cuidar apenas de metade do rosto ao se barbear ou maquiar, ou não responder quando alguém se dirige a ele pelo lado negligenciado. Trata-se de um distúrbio perceptivo, e não motor ou visual, que pode persistir mesmo após a recuperação da força e dos movimentos.
Segundo o neurologista Rodrigo Bazan, professor da Faculdade de Medicina de Botucatu da Universidade Estadual Paulista (FMB-Unesp) e coordenador do estudo, o Titan Trial é um desdobramento de uma linha de pesquisa em neurorreabilitação pós-AVC apoiada pela FAPESP. A iniciativa dá sequência a trabalhos anteriores do grupo que já demonstraram resultados positivos.
Em um estudo prévio, conhecido como Eletron Trial, os pesquisadores avaliaram os efeitos da ETCC anódica em pacientes com lesões no hemisfério cerebral direito, especialmente na região parietal, responsável pela percepção do espaço à esquerda. “Mostramos que a estimulação elétrica anódica aplicada na região parietal direita favorece a plasticidade cerebral e reduz a negligência espacial”, afirma Bazan. O trabalho resultou na publicação de seis artigos científicos, incluindo um no Annals of Neurology, periódico de referência na área de neurociências.
A partir desses achados, a equipe avançou para uma abordagem mais ampla. No Titan Trial, além da estimulação elétrica do hemisfério lesionado, os participantes recebem estimulação magnética transcraniana contínua do tipo theta burst, com efeito inibitório, no hemisfério contralateral. “A lógica é esta: estimular o lado que sofreu a lesão e inibir o outro lado, que, por má compensação, pode estar dificultando a recuperação”, explica o neurologista.
Após um AVC, é comum ocorrer um desequilíbrio entre os hemisférios cerebrais: o lado lesionado tende a ficar hipoativo, enquanto o outro se torna hiperativo. A combinação das duas técnicas busca restabelecer esse equilíbrio e potencializar os ganhos obtidos com a fisioterapia.
As técnicas utilizadas são consideradas seguras e já vêm sendo aplicadas no tratamento de condições como depressão, ansiedade, dor crônica e sequelas motoras do AVC. As estimulações não causam dor, podendo provocar apenas sensações leves e passageiras, como formigamento ou pressão na cabeça.
De acordo com a fisioterapeuta Luana Aparecida Miranda Bonome, doutoranda da FMB-Unesp e responsável pelo projeto, o diferencial do Titan Trial está na associação das duas formas de neuromodulação com a fisioterapia baseada em tarefas. “Estamos usando o melhor das duas técnicas: a ETCC anódica [estimulatória], que já mostrou bons resultados no nosso estudo anterior, e a TB [inibitória], que permite sessões mais rápidas e concentradas, com grande potencial de impacto na reorganização cortical”, afirma.
Bonome destaca que todos os participantes realizam fisioterapia focada em atividades funcionais. “Não adianta abrir a janela da plasticidade cerebral e não aproveitá-la com uma intervenção funcional”, diz.
O estudo envolve instituições de diversas regiões do país, além da Unesp de Botucatu, como a Universidade Federal do Triângulo Mineiro (UFTM), Universidade de São Paulo (USP), Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e centros especializados em Salvador (BA), Campo Grande (MS) e Joinville (SC). Há também colaboração internacional, com a Universidade de Toronto, no Canadá, responsável pela análise dos desfechos clínicos, e pesquisadores da Austrália com experiência em ensaios clínicos e neuromodulação.
Ao menos 51 pacientes deverão ser incluídos no estudo, distribuídos em três grupos: estimulação combinada ativa, estimulação elétrica isolada e grupo placebo. Todos receberão fisioterapia orientada a tarefas. A seleção dos participantes será rigorosa, incluindo apenas pacientes com AVC isquêmico no hemisfério direito e diagnóstico confirmado de negligência espacial, excluindo casos com lesões bilaterais, déficits cognitivos graves ou outras condições que dificultem a adesão ao tratamento.
As intervenções ocorrerão ao longo de 15 sessões, com avaliações intermediárias e acompanhamento após três, seis e 12 meses, todas realizadas na Unidade de Pesquisa Clínica (Upeclin). Entre os principais desfechos avaliados estão a redução da NEU, além de melhorias na funcionalidade, autonomia, qualidade de vida e autoeficácia.
Para os pesquisadores, os resultados podem fortalecer a adoção da neuromodulação combinada na prática clínica, inclusive no contexto do Sistema Único de Saúde (SUS). “Esse será um passo importante para transformar tecnologia avançada em prática assistencial cotidiana”, conclui Bazan.