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Pesquisa inovadora do IB busca o controle biológico do bicudo

Publicado em 17 setembro 2020

Principal produto do agro paulista, a cana-de-açúcar também é objeto de estudos do Instituto Biológico (IB-APTA), da Secretaria de Agricultura e Abastecimento do Estado de São Paulo, que desenvolve pesquisas para controle biológico do bicudo da cana-de-açúcar (Sphenophorus levis), considerado a principal praga da cultura. O IB trabalha no desenvolvimento de um produto inovador para o seu controle, à base de nematoides entomopatogênicos que conseguem reduzir em 80% a ocorrência da praga no campo.

Segundo o pesquisador do IB, Luís Garrigós Leite, o produto em desenvolvimento pela pesquisa paulista é inédito como tecnologia nacional, tem aplicação facilitada no campo, além de eficiência comprovada por estudos científicos, publicados em teses, dissertações e revistas científicas, inclusive no renomado periódico americano Crop Protection. Os nematoides vêm sendo testados também contra diversas outras pragas em diversas outras culturas como batata, morango, cultivos protegidos, cupuaçu e cogumelos, proporcionando níveis de controle acima de 80%.

O pesquisador do IB explica que o nematoide Steinernema carpocapsae foi encontrado causando infecção natural na população do bicudo dentro da raiz da cana, demonstrando sua habilidade para a busca do inseto, mas não para evitar danos significativos da praga na cultura. “Procurando controlar a população do bicudo e impedir danos significativos na cultura da cana, com altos rendimentos na produção, o IB selecionou o nematoide Steinernema rarum que é a base do produto a ser lançado, causando mortalidade do inseto de quase 80% dentro da raiz da cana, significativamente maior que a mortalidade obtida com S. carpocasae, que é de 30%”, explica o pesquisador do IB.

Outra grande vantagem no uso de S. rarum é seu amplo espectro de ação para as pragas de solo da cana-de-açúcar, proporcionando de 50% a 80% de controle da lagarta Hyponeuma taltula, larvas de corós, broca gigante, cigarrinha-da-raiz e cochonilhas de raiz, dentre outros insetos. “Uma vez aplicados no solo, os NEPs podem persistir por vários meses no ambiente, sendo bastante favorecidos pela palhada da cana que preserva uma umidade favorável para a sua atuação. A vinhaça aplicada no solo também pode favorecer o nematoide, especialmente nos períodos de seca por aumentar a umidade do solo e prolongar as condições favoráveis. Além disso, NEPs são compatíveis a diversos produtos químicos usados na cana-de-açúcar, podendo ser aplicados até mesmo em misturas de calda”, afirma Leite.

O bicudo é considerado uma das principais pragas da cultura da cana em função dos danos e por ocorrer em uma área extensa, atingindo os Estados de São Paulo, Minas Gerais, Mato Grosso, Goiás e Paraná. “Essa praga reduz em até 30 toneladas a produção da cana por hectare e é difícil de ser controlada com o uso de defensivos químicos”, explica o pesquisador do IB.

Os estudos científicos conduzidos pelo Instituto mostram que a cada 1% de rizomas atacados pelo bicudo no canavial, o canavicultor tem perda de 1% na sua produtividade, além de 0,32% na redução no peso de colmos e 0,68% de queda no número de brotos gerados pelo rizoma após o corte da cana. “São valores altos, principalmente se considerarmos os elevados índices de infestação da praga e a extensão das áreas de cana atacadas”, afirma.

A dificuldade do controle pelo uso de produtos químicos é explicada porque o bicudo age na raiz da cana, o que impede a ação efetiva dos defensivos. Além disso, esse inseto deixa aberturas na raiz da planta, resultantes do desenvolvimento do inseto desde a sua oviposição até a saída na fase adulta, o que possibilita a entrada de nematoides entomopatogênicos (NEPs), que são organismos do solo, importantes inimigos naturais do bicudo.

“Os NEPs entram por essas aberturas e conseguem atacar a praga em suas diversas fases. Podemos dizer que os NEPs são bastante eficientes para o controle de pragas subterrâneas por se locomoverem no solo em busca dos insetos hospedeiros, atuando como mísseis rastreadores, capazes de localizar e atingir os seus alvos. Esse mesmo ambiente é considerado uma barreira para a atuação dos produtos químicos, reduzindo a sua eficiência”, afirma Leite.

As pesquisas do IB na área se iniciaram em 2000 e contam com parcerias das empresas Bio Controle e Rossam. Em 2018, a Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP), por meio do projeto Pesquisa Inovativa em Pequenas Empresas (PIPE-II), investiu recurso para desenvolvimento final do produto na parceria entre o IB e a Rossam, com a coordenação de Julie G. Chacon-Orosco.