Notícia

Jornal da Cidade (Bauru, SP) online

Pesquisa, inovação e desenvolvimento

Publicado em 03 agosto 2011

Paulo César Razuk

A revista Pesquisa Fapesp, de julho (nº 185), traz interessante artigo intitulado "Avanços e Desafios". Uma síntese da obra "Indicadores de Ciência, Tecnologia e Inovação em São Paulo" (2010), com 900 páginas e 12 capítulos, que faz uma radiografia detalhada do avanço da pesquisa e desenvolvimento (P & D) no Estado. Os autores mostram que o dispêndio total em P & D em São Paulo atingiu, em 2008, o equivalente a 1,52% do PIB estadual, um percentual superior ao de países como Espanha, Portugal, Itália, China, Índia e de todos os países da América Latina, mas inferior ao do Canadá, Reino Unido, França, Taiwan e à média dos países da Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), que é de 2,3% do PIB regional. A maior parte (63%) dos investimentos no Estado de São Paulo foi realizado pelo setor privado. Apenas 13% desses dispêndios têm origem federal, enquanto nos demais Estados essa parcela chega a 53%.

Este estudo constatou que as indústrias estão ampliando seus contingentes de pesquisadores, um indicador de importante mudança no comportamento empresarial que começa a considerar a inovação tecnológica como elemento vital de suas estratégias de concorrência e crescimento. As instituições de ensino superior ainda abrigam grande parte (42%) desse contingente de mestres e doutores, mas, a participação dos pós-graduados empregados em empresas cresceu muito (96%) no período investigado (1995 - 2010). Em 2007, nosso País formou 9.919 doutores, 75% dos quais em quinze universidades encabeçadas pela USP, Unicamp e Unesp. Depois, em ordem decrescente de doutorandos aparecem UFRJ, UFMG, UFRGS, PUC-SP, UFSC, Unifesp, UNB, UFPE, UFPR, UERJ, UFBA e Ufscar. Até por conta disto, o Estado de São Paulo foi responsável por 51% de toda produção brasileira indexada entre 2002 e 2006. A USP ficou com 25,5% dos artigos científicos publicados no período, seguida da Unicamp com 10,1%, da UFRJ com 8,7% e Unesp com 7,3%.

Considerando o número de pesquisadores por milhão de habitantes, a situação de São Paulo é ligeiramente superior à da China, Argentina e México, mas, inferior à da Espanha, Rússia e Coreia do Sul. Em 2006, 28% dos brasileiros com o mais elevado nível de qualificação residiam em São Paulo.

No capítulo sobre o ensino superior se constata que o número de vagas em universidades públicas e privadas é, hoje, maior que o número de pessoas concluindo o ensino médio. Existe, entretanto, um paradoxo já que a taxa bruta de matrículas no ensino superior é, ainda, inferior à do conjunto dos países da América Latina. Essa taxa que expressa a relação entre o número total de matrículas e a população entre 18 e 24 anos, era em 2006, de 19,3% no Brasil e de 24,4% em São Paulo. Segundo a UNESCO, no mesmo ano, essa taxa era de 92,6% na Coreia do Sul, 67,4% na Espanha, 63,8% na Argentina e 46,6% no Chile.

O restrito apoio do Governo Federal ao ensino superior no Estado de São Paulo é destacado no estudo feito pela FAPESP. Enquanto no Acre um jovem que concluiu o ensino médio tem 70% de chance de ser matriculado em uma instituição federal, alguém com a mesma escolaridade, morando em São Paulo, tem apenas 1% de chance de frequentar uma instituição federal de ensino superior. Em São Paulo estas instituições respondem por apenas 0,7% do total de matrículas no ensino superior, enquanto o Estado responde por 7,8%, quase doze vezes mais que a União. Considerando a parcela de impostos recolhida em São Paulo pelo Governo Federal, o estudo conclui que "a União deve adotar políticas que visem a redução destas desigualdades regionais".

Ficou clara, também, a fragilidade estrutural da indústria essencialmente brasileira quando os dados mostram que as multinacionais eram responsáveis, em 2005, por mais de 44% da P & D industrial brasileira. Isto porque "poucas empresas nacionais estabelecem vínculos de cooperação com universidades e institutos de pesquisas". Quase metade da pesquisa industrial brasileira se concentra em três setores: veículos; coque, petróleo e álcool e aeronaves e apenas cinco empresas aparecem no ranking daquelas que mais investem em P & D, feito pelo Departamento de Inovação, Universidades e Habilidades do Reino Unido: Petrobrás, Vale, Embratel, Braskem e Weg.

O autor, Paulo César Razuk, é professor titular do Departamento de Engenharia Mecânica da Faculdade de Engenharia da Unesp - câmpus de Bauru