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Pesquisa inédita no Brasil mostra as principais dores dos índios e como elas são tratadas

Publicado em 06 julho 2018

“Nunca um profissional da saúde visitou nossa aldeia e perguntou se sentíamos dor e como tratávamos dela”, afirma Pixi Kata Matis. Com apenas 23 anos ele é atualmente a principal liderança da tribo Matis, localizada na Terra Indígena Vale do Javari. Na divisa do Brasil com Peru e Colômbia e 1.138 quilômetros distante de Manaus, no Amazonas, a aldeia com pouco mais de 500 índios tem idioma próprio e somente há cerca de 40 anos teve o primeiro contato com o branco. A localização – no meio da floresta –, as diferenças culturais e linguísticas são, para o jovem líder, as principais dificuldades para o acesso a serviços básico como saúde. Em junho de 2017, pela primeira vez esse e outros dois povos indígenas do Vale do Javari ouviram perguntas como: “você sente dor?”, “a dor é forte, moderada ou fraca?”, “onde dói?”. Os resultados fazem parte de um estudo inédito sobre as dores dos índios no Brasil feito pela mestranda Elaine Barbosa de Moraes com orientação da professora e pesquisadora da Sociedade Beneficente Israelita Brasileira Albert Einstein, Eliseth Leão.

Com apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP), durante um mês as pesquisadoras visitaram as tribos Matis, Kanamary e Marubo para conhecer as principais queixas álgicas (relativas à dor) dos indígenas e as terapias usadas para o tratamento delas. O trabalho também se propôs a entender como os agentes de saúde atuam no atendimento para a dor dessas populações. A pesquisa contou com entrevistas com 45 indígenas das três etnias. Para entender melhor a relação dessas populações com a dor, foi levado em consideração o dia a dia dessas pessoas.

“Para estudar a dor é preciso ter em vista fatores culturais, sociais e econômicos”, explica Eliseth. Nas três tribos a dor está relacionada com o trabalho rural, uma vez que todos os indígenas realizam diariamente tarefas rurais pesadas, que incluem carregar cargas por longas distâncias. A pesquisa mostra que 73,2% dos entrevistados afirmaram ter dor no corpo e as áreas mais mencionadas foram os membros inferiores (46,6%), seguidos pela coluna (37,9%), articulações (35,5%), membros superiores (33,3%) e, por último, abdome (24,4%).