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Pesquisa indica que Covid mata as células de defesa

Publicado em 17 setembro 2020

Pesquisadores da USP identificaram que o coronavírus é capaz de infectar e levar à morte diferentes tipos de linfócitos, células-chave na defesa do organismo contra patógenos

Cientistas da USP (Universidade de São Paulo) de Ribeirão Preto identificaram que o novo coronavírus é capaz de infectar e levar à morte diferentes tipos de linfócitos, que são células-chave na defesa do organismo contra patógenos, que provocam doenças.

Segundo a pesquisa, divulgada pela Agência Fapesp (Fundação de Apoio à Pesquisa de São Paulo), ainda há dúvidas sobre o grau de queda na imunidade decorrente desse ataque e qual seria a sua duração, mas os pesquisadores não descartam a possibilidade de a infecção deixar algum tipo de sequela no sistema de defesa.

"Logo no início da pandemia percebeu-se que a linfopenia [queda acentuada na contagem de linfócitos do sangue] era uma alteração hematológica frequente em pacientes com Covid-19 hospitalizados e que esse quadro estava associado a um prognóstico ruim, ou seja, maior risco de intubação e morte. Mas até agora não estava claro qual era a causa do problema", disse o virologista Eurico Arruda, professor da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto e coordenador da investigação.

Ele explicou que, durante uma infecção viral, é esperado que parte das células de defesa saia da circulação e migre para o tecido afetado para ajudar no combate aos invasores.

Contudo, autópsias de pacientes que morreram em decorrência da síndrome respiratória aguda grave associada à Covid-19 mostraram que a quantidade de linfócitos presente nos tecidos infectados não era suficiente para explicar o quadro de linfopenia detectado quando essas pessoas ainda estavam internadas.

"Certamente deveria haver outro mecanismo envolvido. Decidimos então investigar se as células de defesa de pacientes com Covid-19 tinham o vírus em seu interior. Alguns grupos tinham descrito que a carga viral era praticamente indetectável no sangue, mas eles tinham olhado para o fluido como um todo. Nós isolamos apenas as células mononucleares [grupo que inclui monócitos e linfócitos] e fizemos uma espécie de concentrado de linfócitos", disse Arruda Neto.

Para entender a dinâmica do vírus, os cientistas fizeram experimentos com amostras sanguíneas de cinco voluntários saudáveis para testar a hipótese de que o coronavírus seria capaz de infectar e matar linfócitos.

O concentrado de células foi então incubado com o vírus durante dois dias. Com um anticorpo capaz de reconhecer antígenos do vírus no interior das células, os pesquisadores comprovaram que o processo de infecção tinha ocorrido.

A carga viral foi medida por testes e observou-se um aumento consistente da quantidade de vírus, que chegou a ser 100 vezes maior na última análise. Tal resultado indicava que o microrganismo não apenas tinha entrado nas células mononucleares de voluntários como também estava se replicando em seu interior.

"Quando tratamos a cultura com um composto capaz de inibir a protease usada pelo SARS-CoV-2 [novo coronavírus] para se replicar, observamos uma redução importante da carga viral. Esse é mais um indício de que o vírus estava se replicando nessas células, mas ainda não sabemos em quais delas exatamente."

Após outros experimentos, os cientistas chegaram à conclusão de que a Covid-19 é mais complexa do que se pensava no início.

"O conjunto de dados sugere, portanto, que o novo coronavírus pode infectar e se replicar nos linfócitos. Isso é um potencial complicador, pois pode deixar o paciente suscetível a infecções oportunistas e os hospitais estão repletos de bactérias resistentes", afirmou Arruda Neto.

"Os médicos precisam estar atentos a esse fato. Além disso, ainda não sabemos que tipo de efeito tardio isso pode ter no sistema imune, só descobriremos mediante investigações a serem feitas no seguimento dos pacientes convalescentes", completou..