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Pesquisa identifica onde 'moram' mais de 200 espécies de borboletas da Mata Atlântica

Publicado em 16 junho 2020

Por Janaína Simões | Agência FAPESP

Descubra quais são os pontos com maior diversidade no bioma e as principais ameaças a elas.

A beleza e o colorido das borboletas são tema de músicas, poesias e inspiração por si só. Mas admirar esses insetos depende de vários fatores que excedem a pura vontade. Foi em busca de respostas sobre quais são as principais áreas de concentração das borboletas na Mata Atlântica e quais são as principais ameaças a elas que um grupo de pesquisadores das universidades Estadual de Campinas (Unicamp), Estadual Paulista (Unesp) e Federal do Mato Grosso (UFMT) conseguiu definir as regiões prioritárias para a conservação.

Os mapas de distribuição foram feitos cruzando dados de ocorrência de borboletas que se alimentam de frutas com informações do clima e vegetação da Mata Atlântica. O estudo foi publicado recentemente e contou com o apoio da Fapesp. Apesar da atualidade nas descobertas, o resultado leva em consideração registros históricos, alguns deles com informações de borboletas que remetem aos anos 60. “A gente teve que fazer um trabalho intenso de revisão do nome das espécies e idas ao museu para verificar indivíduos coletados e certificar que eram as mesmas espécies descritas em listas”, explica Jessie Pereira dos Santos, pesquisador do Departamento de Biologia Animal da Unicamp e autor da pesquisa.

Analisando dados antigos, trabalhos complementares e as observações de campo, os pesquisadores puderam afirmar que a Serra Do Mar, Serra da Mantiqueira e alguns pontos nos estados de Espírito Santo, Minas Gerais, Bahia e Pernambuco se destacam pela maior concentração destas borboletas no bioma. Estima-se que nessas áreas possam ser encontradas mais de 160 espécies diferentes delas. “Esses ambientes são ameaçadíssimos e tudo que é exclusivo deles está extremamente ameaçado também”, afirma André Victor Lucci Freitas, também professor da Unicamp e coautor do estudo.

No outro polo, porém, a menor diversidade foi registrada na região da bacia do Rio São Francisco, onde algumas regiões apresentaram menos de 50 espécies. “A gente estudou um grupo de borboletas que tem populações mais diversas em ambientes florestais. Um alto valor de diversidade desse grupo é um indicativo de que as florestas são muito ricas, tanto em recursos quanto em diversidade de outros grupos. É um indicativo de uma paisagem que ainda se mantém em bom estado”, explica Jessie.

Presença de um clima adequado, de uma planta para a lagarta ser criada, condições de se proteger contra predadores e até baixos índices de poluição são fatores determinantes para a existência de borboletas em uma área

Presença de um clima adequado, de uma planta para a lagarta ser criada, condições de se proteger contra predadores e até baixos índices de poluição são fatores determinantes para a existência de borboletas em uma área

Um mapeamento como esse carrega um grande volume de informações. Remanescentes naturais que se apresentaram como hotspots de borboletas (neste caso, áreas que abrigam uma grande concentração de espécies) manifestaram fatores em comum: são áreas íngremes, montanhosas e cobertas por florestas. “Trazendo isso para um contexto histórico é onde o homem pouco conseguiu avançar ou onde as unidades de conservação tiveram sucesso em barrar a exploração de recursos naturais. É o que ‘sobrou’ de Mata Atlântica original conservada”, esclarece Jessie.

Antes da chegada dos europeus nas Américas, a vegetação era contínua e, ainda assim, existiam áreas com menos espécies. Não adianta encher de florestas em tudo. Ter muitas espécies de borboletas só é bom em lugares que originalmente já teriam alta riqueza. Por outro lado, degradar toda a região é perder espécies em todas as áreas

Se o uso da terra e a destruição da paisagem natural são as principais ameaças às borboletas, os pesquisadores apontam soluções: fortalecer a conservação onde estes insetos já ocorrem em grande diversidade, implementar técnicas de restauração em algumas paisagens em que seja possível investir na recuperação da floresta e, em áreas com baixa riqueza dessas borboletas, priorizar a manutenção do que é indispensável para o bem estar humano e é fornecido pela natureza, como a regulação do clima, fluxo de água, controle da erosão e fertilidade do solo.

Descobridores de borboletas

Embora não fosse o intuito principal da pesquisa, as investigações das notas feitas por estudiosos, as observações e idas a campo e as comparações com indivíduos capturados renderam grandes descobertas. “Havia um gênero de borboletas que apresentava somente duas espécies e a gente descreveu mais quatro. Um outro tinha quatro espécies e hoje são 12. Descobrimos novas espécies e descobrimos populações novas de espécies ameaçadas. Uma delas era conhecida em dois locais e agora conhecemos sete lugares onde ela ocorre, o que é até um respiro para pensar em alternativas para a conservação”, afirma André Victor.

Ao final, o estudo somou mais de 270 espécies de borboletas no bioma analisado pelos pesquisadores. E se você já ousou pensar “que diferença faz uma borboleta?”, além da beleza que traz ao mundo, esse inseto colorido pode se tornar um índice essencial da qualidade do ambiente. “Muitos trabalhos mostram que a diversidade biológica está associada com o bem estar humano. Esse mapeamento não deixa de ser, em última instância, um mapeamento de bem estar humano de uma Mata Atlântica já quase totalmente degradada”, reforça André.