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Correio Popular (Campinas, SP)

Pesquisa fornece dados inéditos da função do tecido adiposo marrom

Publicado em 24 março 2021

Estudo publicado na capa da revista britânica Embo Reports identificou uma proteína produzida pelo tecido adiposo marrom que pode não apenas ajudar na queima de gordura, por ter função termogênica, mas também abre a possibilidade de auxiliar no tratamento de doenças crônicas como a obesidade e o diabetes tipo 2. O trabalho, que contou com a participação do educador físico e docente do programa de pós-graduação em Biologia Funcional e Molecular do Instituto de Biologia (IB) da Unicamp, Carlos Henrique Grossi Sponton, representa um marco em torno do conhecimento científico sobre a gordura marrom e sua importância para a saúde.

Trabalho é resultado de parceria entre Brasil e EUA

A pesquisa, realizada por pesquisadores brasileiros e norte-americanos (Universidade da Califórnia), conta com apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp). O estudo faz parte do pós doutorado de Sponton, realizado no Centro de Pesquisa em Obesidade e Comorbidades (CPOC). Ele explica que, em 2009, o tecido adiposo marrom, que é responsável pela produção de calor corporal em recém-nascidos, foi também identificado em adultos. "Foi uma descoberta que atraiu o interesse da comunidade científica. Como ele é termogênico, isto é, gera calor, consome mais calorias ”, detalha o cientista.

O pressuposto usado pelos pesquisadores foi que, se tem a capacidade de ampliar o gasto de energia, o tecido marrom poderia facilitar a perda de peso. Mais recentemente, estudos mostraram que, assim como a gordura branca, que libera hormônios, o tecido adiposo marrom também libera moléculas com papel regulatório no organismo, para além da produção de calor.

A interferência é possível graças às batoquinas- fusão dos termos BAT (de Brown Adipose Tissue) e citocinas. "São moléculas secretadas pelo tecido adiposo marrom que têm uma ação semelhante à dos hormônios, comunicando-se com outros órgãos. Elas foram os principais objetivos do meu trabalho ”, aponta Sponton.

A pesquisa

Na primeira etapa das investigações, os pesquisadores compararam o perfil molecular de células de tecido adiposo marrom e branco extraídas de humanos. "Identificamos as proteínas que estavam mais expressas no tecido marrom, o que significa que esse tecido produzia quantidades maiores dessas proteínas", explica Sponton.

Em seguida os cientistas empregaram uma estratégia de engenharia genética (com uso de vetor viral) para testar a função de cada uma dessas proteínas em camundongos obesos. Após uma série de ensaios, uma proteína, conhecida como PLTP (sigla em inglês para proteína de transferência de fosfolipídios), chamou a atenção dos pesquisadores.

"Essa proteína já era conhecida por atuar no sistema cardiovascular, regulando os níveis de lipídios na circulação e alterando a estrutura de algumas lipoproteínas, como o HDL. No experimento, a ideia era verificar se a PLTP poderia alterar o metabolismo energético", relata Sponton. O vetor viral geneticamente modificado para conter a "receita" de produção da PLTP, atinge o fígado, o principal alvo do vetor, e suas células transcrevem a informação genética. Assim, começam a liberar a PLTP na circulação dos camundongos. O aumento dos níveis na circulação dessa molécula levou a mudanças importantes nos animais.

" As alterações metabólicas promovidas fazem com que parte dos lipídios que estão nos tecidos periféricos volte ao fígado, o chamado transporte reverso. O órgão processa o excesso e, como resultado, secreta ácidos biliares ”, pormenoriza Sponton. A secreção de ácidos biliares não é novidade, trata-se de um processo fisiológico bem conhecido. O curioso é que os pesquisadores notaram que a secreção parece estimular o funcionamento do tecido adiposo marrom.

"Ele passa a gerar mais calor e, portanto, captar mais glicose para ter energia para a termogênese ”, aponta o pesquisador. O fato de estar mais ativo significa que está secretando mais proteínas, entre elas a PLTP, o que configura um círculo virtuoso. "Em suma, o alvo dessa molécula é o próprio tecido adiposo marrom ”, comenta o cientista.

O mecanismo de comunicação entre o tecido adiposo marrom e o fígado por meio da PLTP levou ao aumento do gasto energético e, consequentemente, à perda de peso e à redução de gordura corporal nos roedores estudados. Além disso, os animais passaram a ter um controle mais fino dos níveis de glicose sanguínea e de lipídios circulantes, como o colesterol e outros menos conhecidos, como os esfingolipídeos e fosfolipídeos.

Estudos sobre o assunto terão sequência

Se os resultados continuarem animadores, a expectativa é que a PLTP possa tratar doenças nas quais o metabolismo lipídico está alterado, como é o caso da síndrome metabólica, do diabetes tipo 2 ou da obesidade. "O estudo foi um primeiro passo, a partir do qual pudemos conhecer um pouco mais da função da proteína. Agora, vamos trazer para o contexto fisiológico, ou seja, discutir as possíveis aplicações em humanos", diz S ponton.

A ideia não é fazer como nos estudos com animais, em que foi utilizada a engenharia genética para instruir o próprio corpo a fabricar a molécula, mas sim entregar a proteína já pronta para realizar suas funções. Assim, será possível controlar dose e quantidade. `` A insulina, que também é uma proteína, se vale do mesmo raciocínio ”, indica Sponton.

Hoje, a forma mais conhecida de ativar a gordura marrom é com a exposição ao frio. "Alguns estudos mostram que há agentes farmacológicos que atuam nos receptores beta adrenérgicos e poderiam estimular esse tecido'', afirma o pesquisador da Unicamp.

A descoberta inédita é mais uma peça no quebra-cabeça para compreender os efeitos da gordura marrom no organismo e como replicá-los.