Notícia

Jornal do Brasil

Pesquisa expõe contradições

Publicado em 22 novembro 2008

A riqueza incontestável de São Paulo – estado responsável por 33,9% do Produto Interno Bruto (PIB) nacional – contrasta com a pobreza na periferia. Foi o que revelou uma pesquisa feita pelo Núcleo de Estudos de População (Nepo) da Universidade de Campinas (Unicamp).

Os pesquisadores concluíram, recentemente, um sumário de dados – iniciado há quatro anos – que apresenta o retrato atualizado das dimensões sociodemográficas das regiões metropolitanas de Campinas e da Baixada Santista. Para o pesquisador que coordena o projeto Vulnerabilidade, da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), professor José Marcos Pinto da Cunha, o que mais chama a atenção é o maior nível de pobreza e precariedade dos domicílios na Baixada Santista

José Marcos informou que a equipe busca formas de melhor qualificar a pobreza urbana e as condições de vida das pessoas. As medidas de qualificação, de acordo com o professor, seriam baseadas no conceito de vulnerabilidade, que leva em conta a capacidade de um indivíduo ou família responder a determinados riscos – ligados aos mais diversos casos cotidianos.

As informações foram levantadas em 1.680 domicílios da Região Metropolitana de Campinas (RMC) e em 1.600 da Baixada Santista (RMBS), e estão divididas em oito módulos. Tanto em Campinas como na Baixada Santista, mais de 70% da população entre 18 e 25 anos está fora da escola. Apesar disso, o dado não surpreendeu José Marcos.

– Como somos um país desigual, com a maioria da população de baixa renda, e o ensino público gratuito em nível universitário é acessível só para poucos, não é de se estranhar que tantos jovens estejam fora da escola – observa o pesquisador. – Há que se considerar também que a necessidade de ingressar precocemente no mercado de trabalho tem um efeito perverso sobre essa questão.

Pelo Brasil

Apesar de parecer alarmante, o percentual de pessoas fora da escola entre 18 e 25 anos não se distancia da curva estatística. A Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) do IBGE revelou, no ano de 2007, que, nas regiões metropolitanas de Fortaleza e Porto Alegre, o percentual da população que não freqüenta a escola nessa faixa etária é de 70%. Enquanto Belo Horizonte e São Paulo lideram o ranking, empatadas com 72%, a Região Metropolitana de Belém aparece com o menor índice, de 62%. Em todo o país, segundo a pesquisa, o total da população fora da escola neste contexto é de 19.367.297, o que corresponde a 71%.

Segundo o IBGE, a taxa de desocupação média do Brasil em 2007 era de 8,2%. José Marcos esclarece que o projeto da Unicamp se beneficiou muito de análises secundárias, especialmente do IBGE, para a montagem do questionário. O levantamento do Nepo inclui um módulo sobre trabalho e rendimentos, a partir da pesquisa de emprego e desemprego feita pela Fundação Seade. Na população economicamente ativa incluem-se as pessoas que trabalham ou estão procurando emprego. Apesar de os resultados do estudo serem preliminares, José Marcos mostra otimismo.

– Embora estejamos contentes com esses resultados, é difícil garantir que uma pesquisa domiciliar dê conta de toda a complexidade da realidade que, como sabemos, é muito dinâmica. Considerando nosso enfoque teórico (a vulnerabilidade social), temos material muito farto para levar à frente nossas análises – pondera.

– Essa pesquisa ainda permitirá alguns anos de trabalho, especialmente porque nossos alunos vão lançar mão destes dados para as suas teses – acrescentou o professor.