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Pesquisa estuda disfunções cerebrais de pacientes com esquizofrenia para ajudar no desenvolvimento de tratamentos mais específicos

Publicado em 25 junho 2021

Um estudo realizado por pesquisadores da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) poderá orientar a busca por tratamentos mais específicos e eficazes contra a esquizofrenia. Isso porque na busca para desvendar as bases moleculares da doença, eles realizaram um mapeamento de proteínas cerebrais. Atualmente, os medicamentos que estão disponíveis no mercado para esquizofrenia agem de forma genérica no cérebro e podem causar graves efeitos colaterais.

O estudo foi divulgado no revista European Archives of Psychiatry and Clinical Neuroscience .

A esquizofrenia é um transtorno mental grave e debilitante, a condição afeta cerca de 23 milhões de pessoas no mundo. Desse total, 1,5 milhão são brasileiros,segundo a Organização Pan-Americana de Saúde (Opas).

A doença é caracterizada por pensamentos ou experiências que parecem não ter contato com a realidade, fala ou comportamento desorganizado e participação reduzida nas atividades cotidianas. O tratamento para a esquizofrenia consiste em uma combinação de medicamentos, psicoterapia e cuidados especializados. Para detectar a doença é realizada uma avaliação clínica por um profissional de saúde.

Lliderado pela equipe do Laboratório de Neuroproteômica do Instituto de Biologia (IB-Unicamp), a pesquisa envolveu o uso de amostras de tecido cerebral de pacientes com a doença coletadas pós-morte. Segundo a Agência Fapesp, dois tipos de células nervosas – neurônios e oligodendrócitos – foram tratados em cultura com MK-801, que é um medicamento que altera a função neurotransmissora do glutamato e mimetiza in vitro o que ocorre em portadores de esquizofrenia. Isso permitiu que o grupo conseguisse estudar os processos biológicos associados ao transtorno que são específicos de cada tipo celular.

Ao serem tratados com a substância, os neurônios apresentaram estresse oxidativo (um dos fatores que podem levar à degeneração do cérebro) e apoptose (um tipo de morte celular programada). Nos oligodendrócitos, células responsáveis pela formação e manutenção da bainha de mielina (capa de gordura que facilita a transmissão dos impulsos nervosos), foram apresentadas diferenças associadas à síntese proteica e à organização da membrana.

“Cultivamos em laboratório oligodendrócitos e neurônios e tratamos com MK-801. Depois analisamos as proteínas do cérebro e de cada uma das células, cruzando os dados. Pudemos, assim, destrinchar quais diferenças são específicas dos neurônios, quais estão ligadas aos oligodendrócitos e as comuns a ambos os tipos celulares”, explicou à Agência Fapesp o professor Daniel Martins-de-Souza, orientador do trabalho e coordenador do laboratório, financiado pela Fapesp.

De acordo com a doutoranda Giuliana da Silva Zuccoli, primeira autora do artigo, a potencial falta de mielina ou disfunção na formação da bainha podem estar relacionadas à disfunção cognitiva ou de memória na doença. A mielina “encapa” o axônio – parte do neurônio, semelhante a um braço, que se liga a outro neurônio em uma sinapse. Com isso, impede a perda de energia na transmissão de impulsos de um neurônio a outro.

Pesquisas anteriores, segundo a Agência Fapesp, descreveram que cérebros de pacientes com esquizofrenia apresentam níveis anormais do neurotransmissor glutamato, além de apontarem a ligação da disfunção da neurotransmissão glutamatérgica com a hipofunção do receptor NMDA (NMDAr, que é ativado pelo glutamato). A neurotransmissão glutamatérgica é essencial para cognição, aprendizagem e memória do ser humano.

“O tratamento de células neurais com MK-801 revelou que neurônios, oligodendrócitos e astrócitos são afetados, mas apresentam respostas diferentes em uma hipofunção NMDAr. A ativação de NMDAr em oligodendrócitos está envolvida com sua maturação, modulação metabólica e mielinização em torno dos axônios. Assim, compreender os efeitos da desregulação glutamatérgica em neurônios e oligodendrócitos é crucial para entender o papel dessas contrapartes celulares na esquizofrenia, especialmente no contexto hipocampal”, relataram os pesquisadores no artigo.

“Pudemos encontrar assinaturas proteômicas em comum entre o hipocampo e os neurônios tratados com MK-801, bem como entre o hipocampo e os oligodendrócitos tratados com MK-801”, concluem os pesquisadores. Esses dados serão importantes para o desenvolvimento de tratamentos mais direcionados aos diferentes processos biológicos disfuncionais nas diversas células cerebrais.

De acordo com a Agência Fapesp, uma metodologia desenvolvida por pesquisadores brasileiros no ano passado apresentou resultados promissores na criação de um exame de sangue capaz de diagnosticar a doença. O método foi desenvolvido por grupos da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) e da Unicamp, sendo o primeiro capaz de diferenciar o transtorno por meio da análise de alterações bioquímicas e moleculares envolvidas nas patologias.