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Correio Popular

Pesquisa encontra composto cancerígeno no óleo de soja

Publicado em 19 setembro 2008

Uma pesquisa do Instituto de Tecnologia de Alimentos (Ital), da Secretaria de Estado de Agricultura e Abastecimento, em Campinas, verificou a presença de compostos orgânicos cancerígenos no óleo de soja, corriqueiramente usado para temperar saladas, fritar ou cozinhar alimentos. As 42 amostras analisadas, de diversas marcas, tinham hidrocarbonetos policíclicos aromáticos, os chamados HPAs.

Apesar da notícia ter causa do alvoroço nas redações, os HPAs são muito comuns. São substâncias geradas na queima incompleta do material orgânico. A coordenadora da pesquisa, Mônica Rojo de Camargo, explica que os compostos fazem parte do dia-a-dia da comunidade. Está presente no ar e em diversas comidas e bebidas (hortaliças, cafés, carnes, chás, gorduras, grãos e óleos).

No caso do óleo de soja, ela admite que a constatação era esperada. Os HPAs são formados, no caso, durante a s cagem dos grãos. E que os empreendedores do setor ainda recorrem à queima de madeira naquela etapa. As substâncias nocivas se prendem ao grão e são repassadas ao óleo bruto. E são apenas parcialmente eliminadas no processo industrial.

Durante a análise técnicas das amostras, executadas ao longo de um ano, os pesquisadores identificaram uma centena de compostos diferentes. Treze deles já tinham sido classificados pela Organização das Nações Unidas pa ra a Agricultura e a Alimentação (FAO) como “carcinogênicos e genotóxicos”, ou seja, capazes de provocar alterações genéticas nas células humanas.

De acordo com a pesquisadora, não existe comprovação científica que associe o câncer a uma determinada quantidade de hidrocarbonetos consumido. Mesmo porque cada organismo responde maneira diferente à ingestão de cada alimento. Como o próprio câncer está relacionado à múltiplas causas, é difícil traçar relação precisa entre o aparecimento das doenças e a ingestão de HPAs.

Mesmo assim, diz, a pesquisa serve para alertar a indústria. Ela sugere, por exemplo, que a indústria substitua o processo de secagem dos grãos. “A postura e a consciência devem partir dos fabricantes, a indústria, já que o consumidor não tem como se proteger”, diz a pesquisadora e coordenadora do trabalho, Mônica Rojo de Camargo. Apesar de admitir a impotência do consumidor diante do risco presente no óleo, ela dá dicas de como eliminar HPAs em outros alimentos.

Assessores da indústria consultados pela reportagem informaram desconhecer a pesquisa e se negaram a tecer comentários. Confirmaram a presença dos hidrocarbonetos, mas reafirmaram a tese (admitida pela pesquisadora), de que não existe comprovação científica da ameaça.

A pesquisa

A contaminação de alimentos por hidrocarbonetos policíclicos aromáticos é uma pesquisa do Ital financiada com recursos da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp). Na primeira etapa do projeto, foram seleciona dos os complexos de soja (farelo e óleo), alimentos infantis e café. São alimentos submetidos a um rigoroso controle de qualidade nos países importadores da Europa. “Efetivamente, é difícil eliminar os HPAs. Mas se a indústria sabe como eles se formam e como prevenir, podemos evitar problemas, futuros”, afirma a pesquisadora.

Consumidores recebem notícia com ceticismo

Há quem veja exagero na divulgação dos resultados do estudo científico

Quando fica sabendo da pesquisa que denunciou a presença de compostos cancerígenos no óleo de soja, a primeira reação do entrevistado é a surpresa. Em seguida, surgem frases irônicas sobre a descoberta. Quem possui décadas e décadas de cozinha não sente a menor culpa: se esparrama em elogios ao produto. “Podem falar à vontade. Não inventaram nada melhor que óleo de soja para fritar uma coxinha ou um pastel. O óleo de soja rende. O salgadinho fica impecável”, diz Edmir Calixto Ribeiro, de 67 anos. Ele, que desde adolescente trabalha na cozinha de um restaurante jamais ouviu dizer que óleo dava câncer. E vai avisando: nem pensa na possibilidade de mudar de hábitos.

Para a dona de casa Cíntia Silva, de 35 anos, os jornais erram ao publicar o resultado de uma pesquisa que pode colocar a comunidade em polvorosa. “Oras, não é possível dizer, com certeza, que este ou aquele alimento provoca câncer. Hoje em dia, qualquer coisa vira alarme irresponsável nos jornais”, reclama. “Eu não vou deixar de comprar óleo de soja.”

O comerciante Domingos dos Santos, de 40 anos, é proprietário de um bar na Vila Industrial. Ele reagiu com espanto ao saber da pesquisa do Ital. Afinal, comenta, óleo de soja é essencial como água para quem vive de estabelecimentos que servem refeições. “Olha, a pesquisa precisa ser aprofundada. As conclusões pessimistas, se confirmadas, devem ser divulgadas ao Brasil todo. Se a história é séria deste jeito, as pessoas precisam mudar hábitos. Eu, aqui no meu canto, prefiro acreditar que andam fazendo sensacionalismo com o resultado da pesquisa”, afirma.

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