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Pesquisa em laboratório reduz metástase de câncer de mama

Publicado em 21 agosto 2019

Por redacao

Um estudo realizado por pesquisadores do Laboratório Nacional de Biociências (LNBio) fornece novos marcadores genéticos que podem guiar melhor a escolha de medicamentos em pacientes em tratamento de um subtipo de câncer de mama. A descoberta, publicada no Journal of Biological Chemistry, aponta para a redução pela metade na migração das células tumorais.

O câncer de mama triplo-negativo, o TNBC (sigla em inglês), foi o alvo do estudo e representa aproximadamente de 15% a 20% de todos os cânceres de mama, segundo a pesquisadora do LNBio Sandra Martha Gomes Dias. A doença é mais comum em mulheres afrodescendentes e atinge principalmente jovens.

A pesquisa feita in vitro restringiu as duas principais fontes de alimento das células tumorais – glutamina e ácidos graxos – mostrou uma diferença de 50% em termos de migração do câncer em relação ao controle. “Em se tratando de câncer, todo ganho é bem-vindo, ainda mais quando se fala de uma doença que é de tão difícil tratamento como o triplo negativo. Para os outros subtipos de câncer de mama você tem terapias já bastante eficientes, mas o triplo é mais agressivo, ele mais frequentemente entra em metástase e não tem ainda bons alvos”, explica Sandra.

Segundo ela, este campo de pesquisa na área de metabolismo tumoral tem sido muito explorado nos últimos 20 anos, e a área específica em que Sandra atua é o vício por glutamina das células cancerosas. “A gente explorou nessa pesquisa a questão do vício por glutamina no triplo negativo e vimos que esse subtipo é dependente desse aminoácido, mas o nosso avanço foi exatamente avaliar o fato de que essa dependência também não é homogênea dentro desse subtipo”, afirma.

Existe um composto que está em fase de estudos clínicos e que inibe a capacidade das células cancerosas de usar a glutamina como fonte de nutrição. “Tem células do câncer que são variantes e resistentes ao composto, e a gente apontou o caminho dessa resistência, que é o fato de que elas são capazes de também utilizar lipídios para sobreviver”. No estudo foram selecionadas as células tumorais resistentes ao fármaco e foi possível demonstrar que se a glutamina e as gorduras – as duas importantes fontes de alimentação do câncer – forem inibidas, a resposta ao tratamento melhora, levando a diminuição da migração das células em até 50%.

De acordo com Sandra, a dificuldade de tratamento do TNBC se deve ao fato de que este subtipo de câncer de mama, ao contrário de outros, não tem três marcadores que normalmente são identificados na clínica para o tratamento: a amplificação de um receptor de membrana chamado HER2 e receptores dos hormônios estrógeno e progesterona. Os tratamentos mais eficientes que existem hoje para câncer de mama almejam essas três proteínas ou as vias de sinalização delas. “O TNBC também tem alterações genéticas que faz com que ele seja mais agressivo, é uma doença que adquiriu uma série de modificações genômicas que fazem com que o câncer avance mais rapidamente do que os outros”, pontua.

O estudo, financiado pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), vem sendo realizado há quatro anos no LNBio, que faz parte do Centro Nacional de Pesquisa em Energia e Materiais (CNPEM). O trabalho foi a tese de doutorado da aluna Larissa Menezes, também financiada pelo órgão. Houve parceria com pesquisadores da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e Universidade de São Paulo (USP). O grupo realizou parte da pesquisa no exterior e contou também com informações de pesquisas anteriores disponíveis em repositórios de domínio público.

AVANÇO

Os resultados publicados pelo grupo são promissores, mas de acordo com Sandra, quando for inaugurado o acelerador de elétrons Sirius, do CNPEM, a pesquisa certamente ganhará novas perspectivas. “O Sirius, com a sua nova linha de cristalografia de proteínas, representará um diferencial tremendo para o estudo de estrutura de proteínas. Um desdobramento que seria muito interessante é o de se identiicar novos e bons inibidores das enzimas que a gente detectou no trabalho, ou seja, glutaminase e CPT1 e 2, buscando fazer o que sugerimos no estudo, que é a inibição dupla nos casos de resistências aos compostos conhecidos. Então o Sirius, a nova linha de cristalografia e sua avançada capacidade definitivamente irão representar ganhos significativos: rapidez e maior resolução”.

Para a cristalografia, é necessário obter cristais da proteína, e com uma linha de luz mais poderosa, como no caso do Sirius, os cristais utilizados poderão ser menores, explica Sandra. Ainda conforme a pesquisadora, existe uma dificuldade em conseguir que os cristais tenham tamanho e qualidade adequada para gerar um conjunto de dados suficiente para análise. Com a linha de cristalografia de proteínas como a que o Sirius terá torna-se possível reduzir o tempo de otimização desses cristais. “Teremos mais velocidade e qualidade na obtenção das informações que a gente precisa, por exemplo, porque a poderemos trabalhar com cristais menores e não será necessário gastar tanto tempo otimizando os mesmos, que é o que temos que fazer quando usamos uma linha menos potente”, afirma.

Com o Sirius, a análise dos cristais que hoje demora de minutos a hora na MX2, linha de luz dedicada a cristalografia de proteínas atualmente em funcionamento no Laboratório Nacional de Luz Síncrotron (LNLS), vai demorar segundos. “Você vai conseguir analisar muito mais cristais em um espaço de tempo menor e com mais eficiência”. A previsão é de que o acelerador Sirius entre em funcionamento em 2020.