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"Pesquisa em comunicação precisa ser mais ambiciosa"

Publicado em 12 agosto 2013

Por Elton Alisson, da Agência FAPESP

As oportunidades de desenvolver estudos em comunicação no Brasil aumentaram bastante nos últimos anos. A maior parte dos projetos, no entanto, ainda é formada por trabalhos pequenos e menos ambiciosos do que os realizados em outras áreas.

A avaliação foi feita por Norval Baitello Júnior, professor da Pontifícia Universidade Católica (PUC) de São Paulo e membro da Coordenação da Área de Ciências Humanas e Sociais (subáreas Comunicação, Ciências da Informação e Museologia) da FAPESP, na abertura do Ciclo de Conferências “50 anos das Ciências da Comunicação no Brasil: a contribuição de São Paulo”, na última sexta-feira (09/08), na sede da Fundação.

Promovida pela FAPESP em parceria com a Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares da Comunicação (Intercom), a série de oito encontros semanais – que serão realizados até o dia 4 de outubro, sempre às sextas-feiras – tem como objetivo discutir alguns dos principais aspectos da comunicação no Brasil nas últimas cinco décadas.

“Hoje, por meio de instituições como a FAPESP, temos boas possibilidades de desenvolver as Ciências da Comunicação, que foram heroicamente fundadas no Brasil por pessoas que enfrentaram monstros de carne e osso”, disse Baitello, referindo-se aos censores do regime militar.

“Mas, uma das nossas falhas como área do conhecimento é que ainda somos muito tímidos. Apresentamos poucos projetos considerados complexos, que apresentem maior dificuldade, mas que recebem maior volume de recursos”, disse.

De acordo com Baitello, a maior parte dos projetos da área de Comunicação apresentados hoje à FAPESP é de iniciação científica, mestrado e doutorado. Começaram a surgir nos últimos anos, no entanto, alguns projetos mais ambiciosos e de mais longo alcance. O número, porém, ainda está abaixo da expectativa da Fundação.

“Temos que aprender com a Museologia – que submete mais projetos à FAPESP do que as áreas de Comunicação e Ciências da Informação – a apresentar projetos mais corajosos”, avaliou.

No segundo edital lançado pela FAPESP para selecionar novos Centros de Pesquisa, Inovação e Difusão (CEPIDs), em 2011, por exemplo, foram apresentadas apenas duas propostas em Ciências da Comunicação, entre as 100 propostas submetidas, e nenhuma delas foi aprovada, apontou Baitello.

“Ainda são poucos os pesquisadores da área que apresentam projetos mais ambiciosos, como o de um CEPID, que financia centros de pesquisa por um período de 11 anos com um volume de recursos maior do que o disponibilizado por outras agências de fomento no mundo”, comparou.

Avanços da área

Segundo Baitello, um dos avanços na pesquisa em Ciências da Comunicação observados nos últimos anos foi o aumento da diversidade de temas estudados.

Enquanto no passado os estudos eram mais concentrados em jornalismo impresso, televisão e rádio, atualmente há um maior número de projetos relacionados aos novos meios de comunicação, como a rádio por internet, e sobre temas como websites, games e até mesmo animes – desenhos animados produzidos no Japão. Com isso, ficou mais difícil encontrar pareceristas para avaliar as propostas de projetos. “Algumas vezes temos que procurar pareceristas fora do Estado de São Paulo e muitas vezes no exterior”, disse Baitello.

Outra mudança na pesquisa em Ciências da Comunicação identificada particularmente no Estado de São Paulo, segundo o pesquisador, é o aumento na diversidade geográfica da produção científica na área.

Anteriormente, as pesquisas estavam muito concentradas na cidade de São Paulo. Hoje, a produção científica está mais distribuída por cidades do interior do Estado e por outras instituições de pesquisa que não somente as três grandes universidades estaduais paulistas – Universidade de São Paulo (USP), Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e Universidade Estadual Paulista (Unesp) –, indicou o pesquisador.

“Hoje, temos não apenas a presença dessas três universidades, que também continuam crescendo [em termos de produção científica], mas também de outras instituições públicas e particulares que competem com grande capacidade e excelência pelas bolsas e recursos à pesquisa oferecidos pela FAPESP”, ressaltou.

De acordo com o pesquisador, também aumentou a procura na área por bolsas de pós-doutorado e por auxílios à vinda de pesquisadores do exterior a universidades e instituições de pesquisa no Estado de São Paulo para fins de cooperação científica. Ainda há, no entanto, muito espaço para que mais professores visitantes e pós-doutorandos estrangeiros sejam convidados a vir para o Estado de São Paulo realizar suas pesquisas, segundo Baitello.

As duas iniciativas – somando-se à oportunidade oferecida pela FAPESP aos seus bolsistas de realizar estágio de pesquisa no exterior – devem contribuir para o avanço da cooperação científica internacional na área, avaliou Baitello.

“A internacionalização da pesquisa feita em São Paulo cresceu enormemente por meio dessas medidas e as Ciências da Comunicação também se beneficiaram muito com isso. Nossa pesquisa em comunicação era voltada, no máximo, para a América Latina”, afirmou.

Baitello anunciou durante o evento que a FAPESP está apoiando a transferência do arquivo de textos escritos por Vilém Flusser (1920-1991) ao Brasil. Filósofo tcheco, naturalizado brasileiro, Flusser viveu entre 1941 a 1972 em São Paulo, onde atuou como professor de Filosofia na USP, jornalista, conferencista e escritor. É considerado um dos principais filósofos da comunicação no mundo.

“Cerca de 80% dos escritos de Flusser ainda não foram publicados, e 70% das mais de 50 mil páginas estão em português. Esse acervo virá ao Brasil, com apoio da FAPESP, e será disponibilizado para acesso por pesquisadores interessados”, contou Baitello.

Fundação das ciências da comunicação

Na abertura da conferência, o presidente da FAPESP, Celso Lafer, ressaltou que a Fundação apoia com muita satisfação eventos como o que está promovendo em parceria com a Intercom por diversas razões. Uma delas é porque a instituição também enfrenta em seu dia a dia o desafio da comunicação.

“A missão da FAPESP é não só apoiar a pesquisa, como também a divulgação para o público em geral dos resultados do projeto que apoia. Além disso, a Fundação também apoia pesquisa de qualidade em todas as áreas do conhecimento. Não por acaso, a FAPESP apoiou mais de 700 projetos na área da Comunicação nos últimos anos”, destacou.

José Marques de Melo, professor da Universidade de São Paulo e da Universidade Metodista de São Paulo, lembrou que o marco da Comunicação como ciência foi a fundação do Instituto de Ciência da Informação (Inciform), no Recife, em dezembro de 1963, pelo jornalista Luiz Beltrão (1918-1986).

Em 1964, foi criada a Faculdade de Comunicação de Brasília, dirigida por Pompeu de Souza e, posteriormente, por Beltrão, e em 1966, a Escola de Comunicações e Artes (ECA) da Universidade de São Paulo. O primeiro Congresso de Comunicação da Associação Brasileira de Imprensa (ABI), foi realizado em 1971 e em 1973, foi realizado o 1º Congresso Brasileiro de Ensino e Pesquisa em Comunicação. “Foram todos esses momentos cruciais que determinaram o aparecimento do campo da comunicação no Brasil”, disse Marques de Melo.

A professora Margarida Kunsch, diretora da ECA, contou que “o ciclo de conferências deverá ser um marco para o fortalecimento do campo da comunicação e do reconhecimento de sua importância nos processos das transformações culturais, sociais e políticas pelas quais passam o país”.

Também participaram da abertura do evento Marialva Barbosa, professora da Universidade Federal do Rio de Janeiro e vice-presidente da Intercom, e Cristina Costa, professora da ECA e coordenadora do Projeto Memória da ECA, apoiado pela FAPESP.

A programação da parte da tarde do evento foi dedicada a discutir a obra dos precursores das Ciências da Comunicação no Brasil. Tendo como moderador Carlos Vogt, da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), o primeiro painel contou com a participação de Marialva Barbosa, Carlos Eduardo Lins da Silva, professor da Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM), Maria Cristina Gobbi, professora da Unesp, e Luis Milanesi, professor da USP.

Lins da Silva analisou a obra Literatura e sociedade: estudos da teoria e história literária, publicada em 1965 por Antonio Candido, que completou 95 anos na semana passada.

“Ler essa obra de Antonio Candido, entre outros prazeres, reforça a convicção de que, para ser profundo, não é preciso ser obscuro. Ele trouxe aos estudos literários no Brasil temas e procedimentos de Sociologia, História, Filosofia, Antropologia e da Psicanálise, que revolucionaram e moldaram a crítica literária brasileira até hoje”, contou.

“Antonio Candido, em Literatura e sociedade, faz magistralmente uma síntese de autor, obra e público que, em geral, não são vistos como uma coisa só. Ele, ao contrário, explica como esses três elementos compõem o ato da comunicação. Não se pode separar um do outro; não se pode estudar uma separadamente da outra”.

Na próxima conferência, no dia 16 de agosto, também na sede da FAPESP, o tema será “Desbravadores das Ciências da Comunicação”.

Mais informações sobre o ciclo: www.fapesp.br/7888

(Agência FAPESP)