Notícia

Jornal da USP

Pesquisa é quase toda pública

Publicado em 13 março 2000

A universidade pública é o maior celeiro de mestres e doutores que formam o corpo docente do ensino privado. Também é responsável pelos melhores cursos de graduação e de pós-graduação e pela quase totalidade da pesquisa científica e tecnológica do Brasil. Segundo dados do Professor Emérito do Instituto de Estudos Avançados (IEA) Alberto Carvalho da Silva, 77,2% dos docentes com doutorado e 83% dos docentes em dedicação exclusiva encontram-se nas universidades públicas. Ela também é a responsável por 87,1% dos cursos de mestrado oferecidos na pós-graduação e 89,2% de doutorado. "Na USP, por exemplo, os docentes ministram cerca de 4.800 cursos extracurriculares, que contam com 130 mil freqüentadores anualmente", observa Alberto Carvalho. Na área da pesquisa, 94,7% das publicações no exterior são de instituições públicas, assim como 78,3% dos grupos de excelência do CNPq e 73,5% das bolsas auxílio fornecidas pela entidade, e 82,1% dos projetos aprovados pelo Pronex. Dos pedidos aceitos pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), entre 1990 e 1999, 86,3% são de universidades públicas e 9,8% de outras instituições também públicas, totalizando 96,1%. Dos 400 projetos temáticos de equipes interdisciplinares, 98% são de escolas públicas. Sem contar os 97,2% dos projetos de impacto. As universidades e instituições públicas destacam-se também na transferência do conhecimento em apoio ao desenvolvimento e à inovação tecnológica. SAÚDE E CULTURA "Sem o concurso de seus professores não teríamos a engenharia que ergueu as grandes cidades, as barragens e hidrelétricas brasileiras, nem a indústria pesada, a naval e a aeronáutica, nem a indústria química, petroquímica e farmacêutica, nem laboratórios de análise clínica e de serviços. Sem a universidade pública, conheceríamos muito mal nossa história e geografia, nossa flora e nossa fauna, não teríamos as novas variedades de cana-de-açúcar e de milho híbrido adaptadas ao nosso solo e ao nosso clima. O Brasil seria um outro país, infinitamente mais atrasado e certamente pior para se viver", conta Alberto Carvalho. Os hospitais-escola da USP, na capital e no interior, servem a mais de um milhão de pessoas. São responsáveis pela transferência, adaptação e introdução de modernas tecnologias médicas tais como cardiovasculares, transplante cardíaco, de fígado e de rim, entre outros. Na área da cultura, só a Universidade de São Paulo mantém três museus: Arqueologia e Etnologia (MAE), Museu Paulista (do Ipiranga), de Arte Contemporânea (MAC) e um centro de difusão científica, tecnológica e cultural, mais conhecido como Estação Ciência, que recebe aproximadamente 1 milhão de visitantes por ano, sem contar o atendimento feito a 2 mil escolas públicas e privadas do Estado de São Paulo. PÚBLICA E PARTICULAR Quanto ao sistema particular, a professora Eunice Durham, do Ministério da Educação, diz que no início os estabelecimentos eram pulverizados, muito pequenos, com instalações improvisadas. Mas passaram por um processo de consolidação, expansão e aglutinação, transformando-se em estabelecimentos cada vez maiores. Assim se criaram as faculdades integradas, "uma nova forma institucional paralela às universidades e não prevista na legislação", afirma. Segundo Eunice, algumas poucas universidades particulares existentes no início desse período se desenvolveram no modelo proposto pelo setor público, associando ensino e pesquisa. "A maioria dos estabelecimentos, entretanto, dedicou-se exclusivamente ao ensino. Criaram-se bons centros de formação em nível de graduação. Também surgiram muitos outros incapazes de oferecer um padrão mínimo de qualidade. As novas universidades particulares, constituídas sobretudo a partir da figura das faculdades integradas, raramente incorporaram o ideal da indissociabilidade entre ensino e pesquisa, estabelecendo-se um hiato entre o preceito constitucional e a realidade institucional." Embora tenha havido aumento considerável no número de universidades, as instituições de ensino superior se mantiveram praticamente constantes entre 1980 e 1994, segundo dados do professor Alberto Carvalho da Silva (veja quadro 1). Essa evolução acompanhou a do número de matrículas, que aumentou 13 vezes entre 1960 e 1980, mas apenas 23% entre 1980 e 1984. Houve concentração progressiva no sistema particular, que passou de cerca de 45% de matrículas no período de 1960-1970 para cerca de 62% no período de 1980-1994 (veja quadro 2). Segundo Nílson José Machado, professor da Faculdade de Educação da USP, o que está em jogo é a disputa por vagas no ensino superior público. "No Estado de São Paulo a oferta de vagas no ensino superior público é da ordem de 20 mil e no privado, de aproximadamente 200 mil." Nílson acredita que, em razão da limitação de verbas e de vagas nas escolas de ensino superior públicas, está aumentando o número de instituições particulares que oferecem ensino de graduação de qualidade. "O que falta para elas é a pesquisa, que exige um investimento a longo prazo, muito alto. Por isso elas estão buscando se aprimorar mais nas áreas de direito, administração, engenharia etc." O número de cursos oferecidos pelas universidades particulares aumentou em média 1,8 vez entre 1984 e 1996. Apesar de estas contarem com a parcela maior dos alunos, maior número de cursos e 50% dos docentes de ensino superior em exercício, são as instituições públicas que reúnem muito mais docentes em dedicação exclusiva e com pós-graduação, principalmente doutorado, girando em torno de 26,7%, contra 7,4% das particulares. Já os alunos de pós-graduação concentram-se dez vezes mais nas públicas do que nas particulares, predominando as áreas de ciências exatas e experimentais, em detrimento das humanas e sociais, "o que provavelmente esteja relacionado ao custo da investigação científica", ressalta o professor do IEA. Da mesma forma que a pós-graduação, a capacidade de pesquisa se concentra nas instituições públicas (veja quadro 3). As atividades de pesquisa realizadas no Estado com apoio da Fapesp vêm demonstrando o quanto podem refletir sobre o desenvolvimento social e econômico. Numa análise dos programas de pesquisa nas diversas áreas do conhecimento foram identificados, por amostragem, 144 casos em que, além da contribuição para o desenvolvimento científico, resultaram benefícios de natureza sociocultural, econômica, formação de novos centros de pesquisa e apoio a políticas públicas. Desses programas, 97,2% foram desenvolvidos em instituições públicas de ensino e pesquisa. (tabelas)