Notícia

Revista Abrava (Associação Brasileira de Refrigeração, Ar-condicionado, Ventilação e Aquecimento)

Pesquisa e desenvolvimento sob a tutela do Doutor

Publicado em 01 janeiro 2012

Professor Luis Augusto Barbosa Cortez avalia: governo, indústria e academia, somatória para atingir a sustentabilidade por meio de eficiência energética em um país com diversas possibilidades

Graduado em Engenharia Agrícola pela Universidade Estadual de Campinas (1980), mestre em Engenharia Agrícola - Université Lavai (1984) e doutor em Engenharia Agrícola pela Texas Tech University (1989), Luis Augusto Barbosa Cortez, recebeu pela segunda vez o Prêmio Jabuti, com o livro Bioetanol de Cana-de-açúcar P&D para produtividade e sustentabilidade (Edito- ra Blucher) no ano passado. A Revista Abrava o entrevistou sobre o uso de bioenergia em sistemas de climatização e aquecimento solar, antigo colaborador da Abrava, que participou da Comissão Organizadora do Conbrava.

O Senhor recebeu o Prêmio Jabuti pela segunda vez com o livro Bioetanol de Cana-de-açúcar P&D para produtividade e sustentabilidade (Editora Blucher). Fale um pouco deste livro para os leitores da Revista Abrava.

O Bioetanol de Cana-de-Açúcar P&D para produtividade e sustentabilidade é um livro que nasceu de um projeto de Políticas Públicas, financiado pela FAPESP com duração de 3 anos. Neste projeto realizamos 20 workshops com a intenção de cobrir toda cadeia produtiva da cana-de-açúcar até o etanol combustível. Nosso interesse foi sempre tentar descobrir os principais gargalos, desafios científicos e tecnológicos neste importante setor da economia, que reserva tantas oportunidades para o Brasil. Este projeto teve o envolvimento da UN1CAMP, USP, UNESP, UFSCar como universidades, do Centro de Tecnologia Canavieira-CTC instituição privada da EMBRAPA e da Agência Paulista do Agronegócio -APTA da Secretariada Agricultura através dos seus centros de pesquisa como o IAC, ITAL. Após realização dos workshops decidimos que tínhamos material suficiente para realizar um roadmap tecnológico e publicar um livro, através da Editora Blucher em duas versões: português e inglês. A versão em inglês está sendo distribuída através da Amazon.

Sabe-se que hoje já é possível usar ar condicionado com energia solar térmica. Como o Senhor avalia os avanços tecnológicos no setor de ar condicionado em eficiência energética e sustentabilidade nos projetos de edificações comerciais no País? E possível usar energia solar térmica para acionar sistemas de ar condicionado, embora esta tecnologia ainda não esteja disseminada. O que é interessante neste caso é que frequentemente, principalmente nos países tropicais como o Brasil, sempre que existe insolação existe também necessidade do uso do ar condicionado. Isso é muito bom, pois na área de energia sempre agradecemos quando a oferta de energia (solar) coincide com a demanda energética (ar condicionado).

A tecnologia neste caso pode ser tanto a absorção, a adsorção usando a energia solar como fonte de calor, como também a tecnologia de compressão mecânica, neste caso usando-se concentradores para produção de vapor (projeto de Sevilha na Espanha) ou mesmo sistemas fotovoltaicos, neste caso a energia solar não seria térmica. No que concerne à sustentabilidade em edificações comerciais, embora tenham existido avanços no Brasil neste campo, sobretudo com a proliferação dos conjuntos comerciais e shopping centers, ainda há um grande espaço a ser percorrido tanto na área de equipamentos disponíveis mas sobretudo na qualificação de profissionais em todos os campos, do técnico ao engenheiro e também no nível de pesquisas e desenvolvimento de equipamentos e soluções locais.

Em sua opinião, o que podemos esperar de ambientes comerciais climatizados para os próximos anos? Acha viável o uso de sistemas de co-geração associados a outras tecnologias mais inovadoras, como a bioenergia dentre outras?

Não havendo muita restrição energética, deveremos ter um grande avanço do espaço climatizado no Mundo. Nas cidades do Sudeste asiático já se nota um enorme avanço dos ambientes climatizados. O Brasil neste campo está ainda muito atrás da China e países, tais como Coréia, Hong Kong e Cingapura que têm investido muito neste campo. Nos EUA, Japão, Canadá e Europa que atingiram um elevado padrão de vida há mais tempo, esta infraestrutura já existe de forma mais consolidada. Novamente, quero enfatizar que o Brasil precisa avançar! Sobre a co-geração ligada a bioenergia.

Sim, existe um potencial imenso, sobretudo no Estado de São Paulo, onde se concentra 60% da produção canavieira do país processadas em mais de 150 usinadas e destilarias. Essa rede de potenciais produtores de energia elétrica está relativamente perto da rede elétrica e dos consumidores e tem um potencial a ser explorado de geração equivalente a uma nova usina de Itaipú, só fazendo um uso racional do bagaço e parte da palha da cana.

De que maneira a academia e a indústria podem contribuir para soluções sustentáveis em edificações?

Bom, voltando ao assunto das edificações sustentáveis, acredito que deveria existir um diálogo mais frequente entre a academia, o setor produtor de equipamentos e serviços, inclusive das concessionárias de energia elé-g trica. O assunto edificações sustentáveis passa também pelo engenheiro civil e arquiteto, pelas técnicas e materiais de construção que devem, antes de tudo, privilegiar o conforto térmico com o uso racional de energia. Sempre que possível deve-se utilizar formas passivas de equacionar a demanda usando menos recursos naturais, entre eles o energético. E muito importante o uso da tecnologia da informação e da comunicação na construção de edifícios inteligentes, pois facilita a vida do usuário e lhe oferece conforto.

O Senhor foi escolhido e estar à frente do projeto que a Boeing, Embraer e Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) estão desenvolvendo pelo qual pretendem criar um centro de pesquisa para vencer os desafios científicos que impedem a adoção de biocombustíveis na aviação. Quais serão os benefícios desse projeto?

Para a indústria aeronáutica o benefício será crescer cada vez mais de forma sustentável, impactando menos o meio ambiente. Para o passageiro temos o intuito de que realize seu objetivo de se locomover para emitir menos gases poluentes a um custo pelo menos igual ao pago atualmente, o que significa a mudança do combustível realizada sem aumentar o custo ao passageiro. Para as regiões produtoras de biocombustíveis isso poderá representar uma oportunidade importante na ativação da economia, geração de empregos etc. Este projeto inicial da FAPESP visa identificar os gargalos, desafios científicos e tecnológicos a serem vencidos nas próximas décadas de modo que no futuro possamos continuar voando, mas de forma sustentável.

Como o Senhor avalia o Brasil do ponto de vista de Pesquisa e Desenvolvimento comparado a outros países? O Brasil realizou importantes avan-ços nas últimas décadas. Criou um importante conjunto de instituições de fomento à pesquisa com a FAPESP no âmbito estadual e o CNPq, FINEP e fundos setoriais no âmbito federal. Mas o esforço realizado está ainda muito concentrado nos governos. A iniciativa privada precisa investir mais em pesquisa, contratar mais doutores (o Brasil já forma mais de 10 mil doutores/ano) e gerar riquezas a partir da inovação e do conhecimento. Os países que realizaram isso conquistaram um desenvolvimento mais rápido e este ainda é um im-portante desafio para nós. A FAPESP tenta estimular as empresas privadas de todos os portes a realizar mais investimentos de pesquisa para inova-ção. Através do Programa de Incentivo às Pequenas Empresas (PIPE), as empresas pequenas na obtenção de recursos, na forma de investimento a fundo perdido e as empresas maiores podem usar o Programa de Incentivo Tecnológico às Empresas (PITE). Neste último caso, com recursos casados, ou seja, para cada Real que a empresa investe a FAPESP coloca outro Real. Seria muito importante ter bons projetos PIPE e PITE do setor de refrigeração, aquecimento e ar condicionado. Outros recursos que podem ser usados para este fim são os fundos controlados pela Agência Nacional de Energia Elétrica (ANEEL) e as concessionárias do setor elétrico (geração, transmissão e distribuição), principalmente através dos programas de P&D e Eficiência Energética. Os recursos totais investidos anualmente somam cerca de R$ 350 milhões.

Como avalia o uso de energias renováveis no Brasil em diversos setores? Acredita que ainda estamos engatinhando no setor de edificações pode ser um bom usuário, já que o mercado de construção está aquecido?

Sobre o uso das fontes renováveis no Brasil, devo dizer que o Brasil tem uma matriz energética bastante reno-vável. Cerca de 47% da nossa matriz pode ser considerada renovável graças, principalmente, a cana-de-açúcar (etanol e bioeletricidade), a hidroele-tricidade e também a lenha e o carvão vegetal. Para as próximas décadas o desafio será crescer a demanda tentando, pelo menos, manter esta proporção. No campo de combustíveis líquidos o Brasil conta com o etanol de cana-de-açúcar com ótimas possibilidades de expansão. No campo da energia elétrica temos um bom potencial hidroelétrico, mas com dificuldades de licenciamento ambiental por inundar grandes áreas na Amazônia. Felizmente temos a possibilidade de gerar bioeletricidade da cana-de-açúcar e um bom potencial eólico e solar a ser explorado. Sobre como o setor de edificações poderá usar fontes renováveis eu diria que está em curso no Brasil uma reestruturação da legislação do setor elétrico de forma a permitir a inserção de fontes alternativas e a geração distribuída que faz muito sentido num país de dimensões continentais como o Brasil. Tem que existir cada vez mais um diálogo das partes envolvidas. A construção civil com o setor elétrico, com o governo, as concessionárias, todos tem que trabalhar de forma organizada de maneira a construir uma realidade nova e mais sustentável. Devemos nos espelhar em países mais avançados que há várias décadas dispõem de legislação que permite a geração distribuída e a introdução do conceito de smart grids (redes inteligentes). Essa seja talvez a melhor forma de universalizarmos o atendimento de energia elétrica com qualidade no país.

Qual o papel das universidades e como, projetos como esse, podem ser replicados em outros setores, como o de ar-condicionado e aquecimento solar térmico?

As principais universidades brasileiras possuem recursos humanos qualificados e estão muito habituadas a conversar com os órgãos de fomento à pesquisa no Brasil. O que temos falta hoje talvez seja um maior envolvimento do setor privado nesse processo. O setor de ar condicionado e o aquecimento solar térmico podem crescer muito no Brasil, pois sua evolução está fortemente associada à evolução da renda, o que já está acontecendo. Para que o uso de energia solar seja maior, hoje usamos relativamente pouco. E preciso também que o governo participe deste esforço. Vale ressaltar que cerca 10% da energia elétrica no Brasil é usada para aquecimento de água de banho e que o emprego de coletores com tanques de armazenamento poderiam contribuir muito para mudar a curva de demanda das horas de pico que requerem um investimento elevado. Mas é preciso que o governo dialogue com as concessionárias e crie mais formas de estimular o uso de ener-gia solar com termo-acumulação.

Acredita que deveríamos ter mais cursos em demanda para as instituições de ensino investir em programas para especialização de engenheiros especializados em energias renováveis? De que maneira a Unicamp vem trabalhando nesse sentido? Há parcerias com outras instituições?

Acredito que deveríamos ter mais engenheiros formados no país em engenharia e, de preferência, qualificados para conceber soluções aos problemas no Brasil. A área de energia é carente de bons profissionais, tanto no âmbito do planejamento como da tecnologia. A UNICAMP possui vários cursos de engenharia muito bem avaliados na graduação e na pós-graduação. Ela é uma universidade de pesquisa que realiza muitas pesquisas, possui corpo docente muito implicado em projetos de pesquisa e isso acaba refletindo na melhor qualidade do ensino. Mas além das grandes universidades, o Brasil precisa de outras, inclusive com perfil técnico. As parcerias também ajudam no processo de melhorar a qualidade da formação. A UNICAMP, sobretudo nos cursos de engenharia, tem es-timulado parcerias com boas universidades no exterior, tanto na Europa como na América do Norte e na América Latina. A UNICAMP envia uma porcentagem considerável dos seus alunos de graduação e pós-graduação ao exterior, mas também recebe em quase iguais números, estrangeiros que vêm adquirir conhecimento na nossa universidade. Neste momento discute-se na UNICAMP a criação de novo curso de pós-graduação na área de Bioenergia. A FAPESP dispõe do BIOEN, um ambicioso programa de pesquisas nessa área em parceria com o Governo do Estado de São Paulo e Universidades, para criar o Centro Paulista de Bioenergia.

O Senhor é um antigo colaborador da Abrava, inclusive participou da Comissão Organizadora do Conbrava que inclusive realizou apresentações ligadas a termodinâmica. De que maneira a bioenergia pode ser aplicada em outros sistemas e setores para aumentar a eficiência energética? E possível utilizá-la na refrigeração, a exemplo do ar-condicionado e aquecimento solar?

A Abrava e o seu congresso CONBRAVA são duas instituições fundamentais para a promoção da área de refrigeração, aquecimento e ar condicionado no país. Sua importância extrapola o Estado de São Paulo e neste sentido deve sempre haver um esforço para que a ideia da Abrava progrida também em outros Estados brasileiros para a promoção do conforto térmico da nossa população. A Bioenergia já contribui mas pode aumentar em muito esta contribuição. Num recente estudo que realizamos tentando entender a possibilidade de o Brasil substituir 10% de toda a gasolina usada no mundo por etanol de cana-de-açúcar verificamos que este objetivo poderia ser alcançado com o uso de apenas 3% das terras do país, gerando cerca de 9 milhões de empregos, gerando grande impacto na economia. Eu diria que o potencial de crescimento da bioenergia no Brasil é tão grande que pode fazer a diferença na nossa trajetória de desenvolvimentos econômico e social. O Brasil pode efetivamente se desenvolver mais rápido e de forma mais sustentável se acreditarmos mais na produção de biomassa não só para energia, mas também como para o insumo de produtos químicos, uma área que se desenvolve rapidamente no Brasil. Sobre a relação da bioenergia, seu potencial e sua relação com a refrigeração e o ar condicionado, um exemplo é entender cada uma das 150 usinas existentes no Estado de São Paulo como um powerhouse. Estas usinas produzem vapor, energia elétrica e C02 a baixo custo e isso pode ser insumo para uma série de atividades consorciadas. O limite está na criatividade dos nossos engenheiros!