Notícia

Metalurgia e Materiais

Pesquisa e desenvolvimento de novos produtos são feitos mais em indústria do que em instituições de pesquisa

Publicado em 01 agosto 2000

Num momento em que as transformações aceleradas acirram a competirão num espaço cada vez mais globalizado, privilegiando o conhecimento como matéria-prima para a tomada de decisões estratégicas nas empresas, nada mais oportuno e saudável aos segmentos que integram a metalurgia e materiais, particularmente a siderurgia, do que questionar, em profundidade, as matrizes, os modelos, o conteúdo e os limites da pesquisa e desenvolvimento tecnológico no Brasil. Esse questionamento essencial para a sobrevivência das empresas, conforme ressaltou o presidente da Associação Brasileira de Metalurgia e Materiais. Ornar Silva Júnior, na abertura do 55" Congresso da ABM, entre 24 e 28 de julho, no Rio de Janeiro, deve ser feito com base nos gargalos que impedem o maior aproveitamento do conhecimento disponível, bem como na necessidade de encontrar canais que ampliem as fronteiras do saber focado em ganhos de qualidade, produtividade, competitividade e, sobretudo, no desenvolvimento e na valorização do capital humano. Nesse contexto, o 55° Congresso da ABM, com 375 trabalhos técnicos, totalizando 1.871 autores, apresentados em encontros técnicos, além das sessões pôsteres e reuniões abertas, foi, sem dúvida, um fórum privilegiado para debater "temas atuais, que rondam o nosso subconsciente", como definiu o engenheiro Ornar Silva Jr., com a participação de cinco especialistas estrangeiros e um brasileiro (keynotes speakers). O discurso do presidente da ABM focou, entre outros aspectos, a obsolescência cada dia mais rápida do conhecimento, obrigando as inovação a acompanharem a realidade e os profissionais a "terem visões mais avançadas, competência e melhor qualificação". Os 633 inscritos deste ano tiveram à sua disposição painéis sobre tendência da manutenção no Brasil, transferência tecnológica, recursos hídricos, avanços no campo das embalagens de aço e alumínio, aplicações do aço na construção dos, recursos humanos, propriedade intelectual e muitos outros. Um dos subprodutos dos debates surgiu. Obviamente, no painel sobre gestão tecnológica, durante o congresso, em que um dos assuntos centrais foi justamente a atividade de P&D nas empresas privadas brasileiras, que, em sua maioria, investem pouco nessa arca. A idéia de que essa atividade de ser financiada preferencialmente pela, empresas em parceria com a área acadêmica, cabendo às universidades colocar seus pesquisadores de serviço dos objetivos de curto prazo da indústria e ao governo um papel menos acentuado nesse processo desperta grandes paixões. Há quem diga que e questão de tempo as empresas passarem toda a sua pesquisa e desenvolvimento para a universidade, livrando-se do encargo de manter centros próprios para geração de futuras patentes. E existe ainda quem ache que não se deve cobrar nenhuma dessas obrigações da universidade, cuja função clássica é produzir conhecimento, sem o qual nenhuma atividade humana se desenvolveria. Nada como informações e números internacionais para recolocar o trem nos trilhos. Quando se vê a produção científica brasileira ocupando espaço internacional crescente no Projeto Genoma, fica difícil imaginar um país bem menor, como a Coréia do Sul, produzindo 3.500 patentes industriais por ano, ao passo que o Brasil não cria mais que 70 patentes - 50 vezes menos. De quem é a culpa? A prática nos países líderes em P&D indica que o resultado das patentes industriais sai diretamente da empresa e não da universidade, esclarece Carlos Henrique de Brito Cruz, presidente da Fundação de Amparo á Pesquisa do Estado de São Paulo, o único Estado que reserva 1%de toda receita tributária para pesquisa, como estabelece a Constituição. Mas, afinal, por que o Brasil investe tão pouco em pesquisa e desenvolvimento de novos produtos para sua indústria? Razões há e de sobra. A instabilidade econômica afugentou os empresários de qualquer crença em investimentos de longo prazo. Os coreanos, considerados verdadeiros campeões no assunto, colocam muito mais pesquisadores para trabalhar quando se trata de gerar tecnologia com um grau de competitividade suficiente que justifique uma patente no duro mercado norte-americano. No Brasil, diz o presidente da Fapesp, de um total aproximado de 80 mil pesquisadores, 57 mil trabalham como professores universitários com dedicação exclusiva: nas instituições de pesquisa eles são 12.300 e outros 9 mil fincaram bases na iniciativa privada. Nos Estados Unidos, de um milhão de pesquisadores, são 79% trabalhando para empresas contra 13% que estão na universidade. "Se no Brasil apenas 9 mil pessoas estão fazendo pesquisa e gerando inovação para incorporar produtos e processos dentro da empresa", diz Carlos Henrique, "na Coréia do Sul esse número chega a 75 mil pessoas". Enganam-se também os que ainda acreditam no mito que o dinheiro destinado à pesquisa nos países do Primeiro Mundo sai da iniciativa privada. Do total dos contratos assinados pelas universidades em 1997 — US$ 26 bilhões, dois terços vieram do setor público,19% das próprias universidades, 7% de fontes externas e apenas 7% das empresas privadas. Na Inglaterra, dos US$ 150 milhões aplicados em P&D em 1997, apenas Ti saíram das empresas. Para provar que a patente - resultado final da atividade de pesquisa e desenvolvimento - também não é o forte da universidade. Carlos Henrique relaciona outras estatísticas norte-americanas. Em 1994, das 53 mil patentes registradas, 975 vieram das empresas e os 3% restantes, das universidades. Apenas 25 universidades americanas registraram patentes em 1994 e, dessas, seis criaram mais de cem patentes. Em 1994, ainda nos EUA, dos US$ 21 bilhões investidos em P&D. US$ 14 bilhões saíram da indústria, enquanto US$ 1,4 bilhão originou-se em universidades. Por mais incrível que possa parecer, os maiores investidores na universidade norte-americana são as empresas japonesas, conforme lembrou Acher Mossé, diretor da Epri Internacional para a América Latina - uma empresa sem fins lucrativos, cuja função é oferecer soluções científicas e tecnológicas a todos os agentes do setor de energia no mundo. "E quem toma conta desse dinheiro é o diretor-financeiro justamente porque os japoneses consideram que aplicar em pesquisa é um investimento de primeira ordem." Com 1.600 projetos em andamento, vários laboratórios espalhados pelo mundo, mais de 400 patentes e um orçamento anual de US$ 375 milhões, a Epri, com sede ao sul de São Francisco, no Vale do Silício, especializou-se em projetos estratégicos na área de energia. Só nos EUA, cuja capacidade instalada de energia elétrica é 12 vezes maior que a do Brás, 80% das empresas do setor são filiadas a Epri. Acher Mossé diz que o setor elétrico brasileiro passa hoje por mudanças nunca vistas e isso reforça a importância da chamada P&D cooperativa, lema de sua palestra. E por que as empresas se juntam para desenvolver produtos comuns? A resposta se resume numa única expressão: oportunidade de "negócios. "Hoje, mais do que nunca, é preciso diversificar, pois vemos empresas de distribuição comprando usinas termo elétricas. A P&D cooperativa e uma forma de alavancar recursos e gerar oportunidades para todo o segmento. Além disso, observa o executivo da Epri para a América Latina, as empresas normalmente não aceitam investimentos imediatos em P&D se eles não apresentarem resultados no curto prazo, embora não seja bem assim que isso funcione. "Para esses casos, a vantagem da P&D cooperativa é que ela viabiliza o acesso a recursos humanos e materiais de alto custo, inacessíveis às empresas individualmente", diz ele. A troca de experiência introduzida pelos keynotes speakers deverá continuar, mesmo após o congresso, graças a um acordo de cooperação técnica assinado, durante o evento, entre a ABM e a ATS (Association Technique de Ia Sidérurgie Française). Pelo acordo, as duas entidades trocarão também contribuições visando ao desenvolvimento tecnológico e à difusão do conhecimento entre seus associados. Michel Jeaneau, que veio como keynote speciker da abertura da sessão técnica de fusão do 55° congresso e para assinar o acordo pela ATS. disse que a parceria estreitará as relações entre as duas associações, trazendo maior contribuição por ocasião dos congressos anuais, além da troca de informações por meio das revistas técnicas. A parceria entre a ABM e a ATS começou a ser amarrada em setembro de 1999, conforme lembrou o secretário-geral Horacídio Leal Barbosa Filho, que assinou o documento junto com o presidente Ornar Silva Júnior. A diretoria da CST, controlada pelo grupo francês Usinor, também participou das negociações.