Notícia

USP - Universidade de São Paulo

Pesquisa do IEA mapeia e sugere políticas públicas para a internacionalização das empresas brasileiras

Publicado em 05 julho 2010

Por Luiza Caires

Apesar de ser um processo novo no Brasil (um dos chamados países emergentes), algumas empresas do país já têm galgado o último degrau da internacionalização, que é quando se abre uma unidade produtiva ou de serviços no exterior. "Entre as economias emergentes, o Brasil é um dos países mais destacados neste aspecto", conta o coordenador do Observatório da Inovação e Competitividade do Instituto de Estudos Avançados (IEA) da USP, o professor Glauco Arbix. "Temos empresas com políticas muito agressivas para conquistar novos mercados, indo em sentido contrário às tradições e história do nosso empresariado, que era mais orientado para dentro", afirma.

Arbix, que também é professor da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP, lidera no Observatório o estudo "Políticas de Apoio Governamental à Internacionalização de Empresas Brasileiras", feito em perspectiva comparada com China e Índia. O objetivo é mapear este movimento e formular recomendações de políticas públicas ao governo para estimulá-lo e regulamentá-lo.

Embraer instala unidade em Fort Lauderdale, Flórida

As empresas brasileiras, segundo o professor, têm conseguido alcançar sucesso em mercados avançados, isto é, disputados e regulamentados, como o europeu, o norte-americano e o japonês. Este é o caso da Embraer, empresa de aviação que recentemente instalou uma filial na Flórida, Estados Unidos - país que é um grande mercado consumidor para os jatos executivos que produz.

Mas o pesquisador adverte que este, longe de ser um processo simples, é caro e complexo, exigindo extenso preparo por parte das firmas envolvidas. Isso inclui as áreas jurídica, estratégica e tecnológica, para que se alcance um padrão adequado à competitividade. "Atualmente, até para a exportação são colocados diversos requisitos além da qualidade - como por exemplo um certificado de rastreabilidade de alimentos como a carne, que permite saber sua procedência, isto é, se é produzida em uma fazenda que atende a normas ambientais, sanitárias e do Ministério do Trabalho."

O esforço, entretanto, compensa. Primeiro para a empresa em si, que penetra em mercados sofisticados, cujos consumidores muitas vezes têm poder aquisitivo superior aos dos países de origem, resultando em altas taxas de rentabilidade. E, mais importante, para a economia do país como um todo. "A empresa só consegue realizar este processo se pagar melhores salários, e as pesquisas mostram que, em geral, as que se internacionalizam elevam os padrões salariais a um patamar semelhante ao das subsidiárias de multinacionais instaladas aqui", diz o professor.

Professor Glauco Arbix

Além disso, Arbix afirma que o grau de escolaridade exigido do trabalhador de empresas internacionalizadas é, em média, 30% mais alto, em anos de estudo, em relação ao das outras. O tempo de permanência destes empregados nas empresas também é maior, com menos rotatividade. "Elas valorizam a experiência, e investem na formação de seus quadros."

Toda a malha de fornecedores de produtos e serviços para a empresa que se internacionaliza também é afetada. "São repassadas aos fornecedores as exigências que são feitas às empresas no exterior, fazendo com que eles também elevem seus padrões de qualidade e salário. Isso gera um impacto muito grande no país, uma onda de requalificação".

O governo pode colaborar, entre outras coisas, com ações como a diminuição da burocracia; a instalação de postos de suporte no exterior para as empresas que estão chegando, como câmaras de comércios; o fornecimento de ajuda para qualificação profissional; e também no âmbito das universidades, potencializando as pesquisas feitas para que trabalhem "em sintonia com a economia". E tais políticas devem ser empreendidas incluindo as empresas menores.

Mas o pesquisador adverte que também há aspectos negativos na internacionalização, dependendo do modo como é feita. "Algumas empresas restringem o impacto na economia do país trabalhando com fornecedores estrangeiros e não elevando os salários. Ou seja, não é algo automático." Daí a necessidade, como argumenta, de não só as políticas públicas estimularem o processo de internacionalização, como também o disciplinarem. "A maioria dos financiamentos para a internacionalização vem de instituições públicas, como o BNDES [Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social], que pode colocar requisitos para concedê-los", sugere.

O projeto coordenado por Arbix, que conta com a participação de pesquisadores do IEA e também de iniciação científica e pós-graduação, já concluiu a fase de levantamento de dados, e prepara atualmente um estudo de casos sobre empresas de biotecnologia e do tipo "born global" (que já nascem internacionalizadas). Estão previstas ainda a realização de seminário nacional e internacional no próximo ano, com a presença de gestores públicos; a apresentação de artigos para publicação; e a preparação de um livro sobre a pesquisa. A Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) apóia a iniciativa.