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Diário Oficial do Estado de São Paulo

Pesquisa do Butantan identifica novas espécies de aranhas venenosas

Publicado em 01 dezembro 2017

Nove espécies de aranhas peçonhentas (venenosas) do gênero Sicarius, conhecidas como “aranhas da areia”, foram identificadas por pesquisadores do Instituto Butantan, órgão vinculado à Secretaria de Estado da Saúde, como parte de projeto especial de classificação de aranhas da América do Sul. Os estudiosos detectaram também seis espécies com mais de um nome registrado.

O pesquisador Antonio Brescovit, do Laboratório Especial de Coleções Zoológicas do Butantan, explica que o projeto, da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), teve início em 2011 e termina neste ano. “Um dos propósitos era pesquisar aranhas primitivas, chamadas de haploginas”, diz Brescovit.

Para realizar o trabalho, a equipe de especialistas teve de fazer amplo trabalho de coleta em viagens por diversas regiões do Brasil e de países vizinhos. Os pesquisadores receberam também, por empréstimo, exemplares de animais que estão no acervo de museus latino-americanos e europeus.

Coleta – As aranhas Sicarius são peçonhentas e integram a mesma família que outro gênero, o Loxosceles, popularmente conhecido como aranha-marrom. De acordo com Brescovit, “a aranha-marrom, ‘prima’ da Sicarius, é causadora de muitos acidentes, principalmente no Sul do Brasil”. Isso está ligado ao fato de ser uma aranha urbana, que habita locais onde também estão presentes seres humanos. A Sicarius, diferentemente, é difícil de ser encontrada. “É uma aranha que ocorre em áreas secas. No Brasil, vive somente na região de caatinga, em reentrâncias das partes arenosas”, informa o pesquisador do Butantan. Está presente ainda em outros países sul-americanos, sempre em locais desérticos.

A primeira parte do trabalho foi a coleta dos animais, realizada em quatro viagens pelo Brasil, do norte de Minas Gerais até o Piauí, e ao Chile (três vezes), ao Peru e à Argentina. As expedições contavam com pelo menos três pessoas. Uma das dificuldades da equipe era erguer as pesadas pedras sob as quais as aranhas se refugiam. “Precisávamos de no mínimo duas pessoas para isso”, conta o pesquisador.

Brescovit afirma que não se sabe qual o tempo médio de vida dessas aranhas, mas há indícios de que sejam longevas. “Na região do Chile onde coletamos, durante o inverno a superfície arenosa fica coberta por uma camada de neve com três ou quatro metros. As aranhas coletadas, na época quente, eram adultas, ou seja, no inverno anterior já haviam nascido. Elas desenvolvem uma espécie de hibernação que lhes permite ficar em reentrâncias na areia, embaixo da neve”, relata Brescovit.

Correções – Essas aranhas têm uma distribuição muito maior do que se pensava inicialmente. Ocorrem desde a Costa Rica até o sul da Argentina. O trabalho da equipe possibilitou corrigir dados científicos. Além de identificar novas espécies, o grupo constatou que havia espécies registradas com mais de um nome. A revisão, com base na coleta e no estudo dos animais enviados por outras instituições científicas, fez diminuir o número conhecido de espécies na América do Sul de 26 para 21.

Outro exemplo de correção refere-se a sete espécies descritas pelo Museu Nacional de História Natural, de Paris, que teriam como hábitat uma única cidade: Valdivia, no Chile. “Fomos até lá e constatamos que seria impossível serem daquela localidade, que é muito úmida. Descobrimos que, na verdade, o Porto de Valdivia foi o local de onde os animais foram enviados de navio para a França, por volta de 1850”, explica Brescovit. Não se sabe, segundo ele, onde o naturalista francês Claude Gay (1800-1873) coletou os animais, porque ele percorreu várias regiões do Chile, mas é possível dizer que não são de Valdivia.

Veneno – A denominação correta dos animais ajuda no trabalho de investigação dos venenos, ainda que não existam relatos de picadas da Sicarius, até mesmo em razão de habitarem áreas isoladas. “Falamos com a população local, nas regiões onde coletamos as aranhas, mas as pessoas não tinham conhecimento de acidentes com elas”, afirma Brescovit.

Para ele, o estudo sobre a composição do veneno, sua substância ativa e o potencial de toxicidade e envenenamento é importante, do ponto de vista científico, em razão do parentesco da Sicarius com a aranha-marrom. “Parece que o veneno de ambas é praticamente igual”, diz o especialista.

Identificação – O trabalho de identificação de novas espécies de aranhas é sofisticado, uma vez que fêmeas e machos da mesma espécie podem ser completamente diferentes. Os pesquisadores utilizam equipamentos como microscópio eletrônico e lupa com fotografia para estabelecer os parâmetros de cada animal.

“O corpo de uma espécie é muito parecido com o de outras. O que muda é a escala de tamanho e de rugosidade”, informa Brescovit. Ele explica que “a estrutura genital é que separa as espécies”. A espécie x se diferencia da espécie y por características próprias do ponto de vista genital.

O projeto é desenvolvido pelo Instituto Butantan, em colaboração com outras instituições, como a Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e o Museu Nacional de História Natural, em Santiago (Chile). A pesquisa deu origem, até o momento, a mais de 40 trabalhos científicos: 28 publicados, oito em processo de publicação e seis em preparação.

Cláudio Soares

Imprensa Oficial – Conteúdo Editorial