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"Pesquisa do Brasil ajudará a enfrentar crise do clima"

Publicado em 12 março 2008

Por Simone Iwasso

Cientistas brasileiros e britânicos fazem intercâmbio para uso de biocombustíveis e na área de mudanças climáticas. Entrevista com John Beddington: conselheiro para Assuntos Científicos da Grã-Bretanha

Num contexto de aumento da população mundial em 6 milhões de pessoas ao mês, mudanças climáticas em curso, previsões futuras de falta de água, energia e alimentos, a comunidade científica brasileira voltada para pesquisas em aumento de produtividade agrícola e uso de biocombustíveis pode colaborar, e muito, com a pesquisa nos países desenvolvidos. Baseado nessa premissa, o conselheiro-chefe do gabinete de Assuntos Científicos da Grã-Bretanha, professor John Beddington, está no Brasil para encerrar o Ano Brasileiro-Britânico da Ciência e Inovação. A iniciativa, na opinião de Beddington, encerra-se com diversos acordos de cooperação e a perspectiva de contínuo intercâmbio de conhecimentos.

Lançado em março de 2007, o Ano da Ciência termina com 40 eventos, seminários e congressos sobre tecnologia espacial, mudanças climáticas, células-tronco, semicondutores orgânicos, tecnologia de luz síncrotron, indústrias criativas, nanotecnologia, inovação, biocombustíveis de segunda geração, desenvolvimento social e igualdade econômica. A seguir, trechos da entrevista concedida ao Estado?

- O que merece ser destacado após um ano de parceria?

Há alguns pontos especialmente importantes para o mundo, nos quais as parcerias com o Brasil são relevantes. Um deles é na área da agricultura e de biomassa. Assinamos um memorando de entendimento entre o Instituto Agronômico do Paraná e o Rothamsted Research, o primeiro instituto de agricultura aberto no mundo, com experimentos feitos desde 1850. Também foi fechada uma parceria com a Embrapa. Na área de mudanças climáticas, há um acordo entre o Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais) e o nosso maior laboratório especializado em clima. Outra área com grande investimento é a luz síncrotron.

- E os biocombustíveis?

Estamos realizando nesta semana um workshop sobre biocombustíveis em parceria com a Fapesp (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo). Há conselheiros ingleses especialistas na área aqui no Brasil essa semana. Investimos porque acreditamos que a concentração de recursos futuros virá da segunda e da terceira gerações de biocombustíveis.

Há bases para se acreditar nisso e um trabalho de grandes especialistas dos dois países. Outro destaque é o desenvolvimento de parcerias entre os fundos de pesquisa, como a Fapesp, e nossos fundos, para tentar fazer com que as propostas científicas sejam analisadas nos dois países. Uma proposta daqui pode ser revista por cientistas ingleses - e o contrário também. Há uma grande colaboração agora para que isso aconteça.

- O que foi feito e iniciado neste ano terá continuidade?

A idéia é tentar fazer isso valer a pena. Não é só passar um ano e dizer adeus. Queremos que isso seja o começo de parcerias que vão continuar. Mostrar o quanto estamos interessados e como pode ser importante para os dois países levar essa parceria adiante.

- Por que o Brasil? Em que somos interessantes para a comunidade científica mundial?

O Brasil tem grande número de publicações científicas, uma comunidade científica muito produtiva que tem aumentando a presença na literatura mundial. Hoje, os brasileiros publicam mais do que os suíços e os cientistas daqui são muito bons em biocombustíveis, em agricultura em áreas tropicais e têm potencial para desenvolver modelos matemáticos para mudanças climáticas. O interessante no Brasil é que há terra para plantar, um clima favorável, abundância de água e uma tecnologia na agricultura que pode ser muito importante para ajudar nos desafios do mundo. Como produzir mais em espaços menores ou com o mesmo espaço de terra. Sabemos que os grandes desafios mundiais são os problemas decorrentes da globalização, a pobreza, as mudanças climáticas e a garantia de segurança energética e alimentar. A população mundial cresce em 6 milhões de pessoas a cada mês. Nesse sentido, a experiência em agricultura e energia de um país como o Brasil é muito importante.

(O Estado de SP, 12/3)