Notícia

Revista DBO

Pesquisa divulga resultados de produto light

Publicado em 01 julho 2000

Por Maristela Franco
Dentro de no máximo três anos, o consumidor brasileiro poderá encontrar nas prateleiras dos supermercados um leite naturalmente light, ou seja, integral, mas com baixo teor de gordura. As pesquisas para viabilizar esse produto foram desenvolvidas pela Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq), em colaboração com a Embrapa Gado de Leite, e demandaram dois anos de estudos teórico-experimentais, cujos resultados foram divulgados no último mês de maio. Várias empresas estão de olho nesse tipo de leite, que pode ser obtido fornecendo-se às vacas criadas a pasto uma substância denominada Ácido Linolênico Conjugado (Conjugated Linoleic Acid ou CLA), presente em vários produtos de origem animal. O CLA é um ácido graxo anti-oxidante que possui efeito "modificador metabólico", ou seja, é capaz de redirecionar os nutrientes, consumidos pelo animal, da síntese de gordura para a síntese de proteína. Adicionando um tipo específico dessa substância (CLA tlOcl2) à dieta das vacas lactantes, os pesquisadores conseguiram diminuir em 26% o teor de gordura do leite e aumentar em 12% seu teor de proteína, além de elevar a produtividade em 8%. "O leite já sai do úbere da vaca semi-desnatado e mais nutritivo", afirma o coordenador do projeto, Dante Pazzanesse Lanna, professor da Esalq, que começou a estudar os efeitos do CLA em 1993, quando fazia pós-doutorado na Universidade de Cornell, nos EUA. VANTAGENS E METODOLOGIA Segundo Lanna, o produtor pode ser diretamente beneficiado por essa descoberta científica, especialmente no Brasil, onde os rebanhos leiteiros, em geral, têm menor potencial produtivo e são criados predominantemente a pasto. O pecuarista poderá fornecer ao gado rações à base de CLA por períodos contínuos ou em momentos estratégicos (se houver escassez de forrageiras, se o concentrado estiver muito caro etc.). Vacas que recebem o suplemento produzem mais leite com menor exigência de energia, apresentando melhoria na condição corporal, na recuperação pós-parto e no desempenho reprodutivo. Isso significa custo baixo e incremento de receita para o produtor. Os laticínios também serão beneficiados, pois extrairão do leite menos gordura (cujo consumo mundial está em queda) e mais proteína, fundamental na produção de queijos, iogurtes etc. As indústrias poderão, inclusive, trabalhar com fornecedores que suplementam suas vacas com CLA para colocar no mercado, já envasado, o leite naturalmente light, visando os consumidores preocupados com a silhueta e com a saúde, já que esse produto tem baixo teor de colesterol e. pelo que indicam as pesquisas, pode ser anti-caminogênico (ver quadro à parte). Os estudos com adição de CLA à dieta de vacas comerciais por longo período foram iniciados no Brasil em 1998, no Campo Experimental de Santa Mônica, RJ, pertencente à Embrapa Gado de Leite, sob coordenação de Pazzanese Lanna, em parceira com Luiz Aroeira, daquela instituição. A condução do trabalho coube a Sérgio Raposo de Medeiros e Dimas Strasulas de Oliveira, doutorandos ligados ao Laboratório de Nutrição e Crescimento Animal da Esalq. O ensaio utilizou 32 vacas cruzadas, com 7/8 de sangue Holandês e produção de 18 kg/dia, em dois grupos iguais, criados a pasto: um recebeu suplementação contendo CLA: o outro, ração comum, funcionando como testemunha. Esse trabalho foi conduzido de forma coordenada, no Brasil e nos EUA, onde o pesquisador Mark MacGuire, da Universidade de Idaho e antigo colega de Lanna na Universidade de Comell, acompanhou matrizes de alta lactação (mais de 50 kg/dia), mantidas confinadas. Vacas suplementadas com CLA produziram 8% a mais. O composto (na foto abaixo) foi fornecido aos animais granulado e protegido com sais de cálcio para não ser inativado no rúmen. Falta agora pesquisar dosagens ideais, visando sua comercialização. Vacas que aqui tiveram o ácido na dieta também aumentaram a sua produção de leite RESULTADOS POSITIVOS Os resultados obtidos nos dois experimentos foram muito semelhantes e altamente positivos. A suplementação com CLA por períodos prolongados não causou qualquer tipo de problema para os animais - digestivo ou metabólico, reprodutivo ou sanitário. Pelo contrário, nos dois estudos constatou-se aumento da produção de leite e maior persistência de lactação. No Brasil, a produção das vacas suplementadas com CL A passou de 15.1 para 16.3 litros/dia (incremento de 8%). e um mês após o término do tratamento, elas ainda estavam produzindo 12% mais leite do que as do grupo-testemunha. Esse efeito residual torna a utilização do ácido linoléico no período inicial da lactação altamente benéfico. Segundo Dante Pazzanese Lanna, os experimentos com gado comercial confirmaram resultados iniciais obtidos nos EUA, em laboratório. As vacas brasileiras suplementadas com 150 g de CLA/cab produziram leite com 2.14% de gordura contra 2,89% das testemunhas (26% a menos). Os ensaios pioneiros de laboratório, realizados na Universidade de Comell, haviam registrado queda de mais de 50% no teor de gordura do leite, mas aplicando o ácido graxo diretamente no intestino delgado dos animais. Nessa instituição, vacas que receberam doses de 50 g/cab de CLA no duodeno produziram, após três dias de tratamento, leite com 1,5% de gordura, mais magro do que o semidesnatado (2%) vendido nos supermercados brasileiros. Elevando a dose de CLA para 150 g/cab. os pesquisadores de Comell chegaram a reduzir o teor de gordura para 1,2% contra os 3,7% encontrados no produto integral comercializado no Brasil (média de amostras analisadas na Esalq). Confirmada a capacidade do ácido linoléico como redutor de gordura, os cientistas americanos patentearam essa descoberta. Mas coube a Lanna e sua equipe outro feito científico: a comprovação de que o CLA também aumenta o teor de proteína do leite. Observou-se índice de 3,12% do nutriente no leite das vacas tratadas com o ácido linoléico e de 2,79% nas testemunhas. Ambos os lotes foram suplementados com proteína de alto valor biológico, em quantidades superiores às necessárias, para melhor demonstração da hipótese levantada pelos pesquisadores brasileiros. Como o teor de proteína se revelou 12% maior por quilo, conseguiu-se evidentemente elevar a produção diária desse nutriente no grupo de animais suplementado com CLA (504 g/cab/dia contra 422 g/cab/dia das vacas-testemunha). Cientes da importância da nova descoberta, os pesquisadores da Esalq reivindicaram sua autoria e a patentearam, em conjunto com a Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo, órgão ligado ao governo estadual e responsável pelo financiamento de boa parte do projeto. COLESTEROL E CARNE MAGRA Os estudos realizados no Brasil e nos exterior indicam também que tratamentos à base de CLA inibem a síntese de ácidos graxos saturados de cadeia curta (principalmente o mirístico e o láurico), considerados perigosos para a saúde humana, pois têm a propriedade de aumentar os teores de colesterol. Conseqüentemente, o CLA aumenta a proporção de ácidos de cadeia longa (principalmente o palmítico), que são benéficos para o organismo e reduzem a probabilidade do aparecimento de doenças cardiovasculares. Dessa forma, agrega-se outro fator qualitativo ao leite produzido. Futuramente, quem sabe, se possa criar também uma carne bovina light, com menor teor de gordura insaturada. Na Austrália, experimentos feitos com suínos confirmaram a redução de até 30% na espessura do toucinho após tratamento com CLA. As vantagens econômicas dessa descoberta são enormes. Estima-se que sejam aparados cerca de 1 bilhão de kg de gordura de carcaças de animais abatidos para produção de carne nos EUA. "Sabe-se que cada 1.000 mg de gordura bovina contêm 6 mg de CLA contra 1mg encontrado em igual porção de gordura de frango. Se conseguíssemos reduzir o teor de ácidos graxos de cadeia longa na carne bovina, ela ganharia competitividade em relação às chamadas cumes brancas", salienta Dante Pazzanese Lanna. Ainda não existem pesquisas no Brasil, nesse sentido. A Esalq está conduzindo dois outros projetos com CLA, mas o primeiro objetiva identificar o gene responsável pela inibição da produção de gordura no leite e o segundo busca avaliar a concentração das diferentes formas de CLA nas principais fontes de alimentos da população brasileira, visando uma estimativa de consumo dessa substância no País. Neste mês, a Esalq vai apresentar os resultados obtidos até agora no Congresso Internacional de Ciência Animal, em Baltimore, EUA, e, no mês de setembro, repetirá a dose durante o Congresso Europeu de Produção Animal, em Haia, na Holanda. POTENCIAL ARMA CONTRA O CÂNCER O possível efeito anticancerígeno de um tipo específico de ácido linoléico conjugado (o CLA c9t11, também chamado ácido bovínico) estimulou pesquisas em várias partes do mundo. Nos EUA, experimentos com ratos confirmaram que um aumento na concentração dessa substância, na ordem de 0,25% da dieta, diminui em 50% o número de tumores mamários dos roedores tratados, em relação aos animais-testemunha (sem ingestão de CLA). Segundo Dante Pazzanese Lanna, agora é preciso definir que quantidades desse composto os seres humanos devem ingerir para proteger-se contra o câncer. Ele prevê a produção de um leite enriquecido com CLA c9t11 com essa finalidade, aproveitando a tendência dos chamados "alimentos funcionais" ou "nutrocêuticos", cujo conceito pressupõe a adição, nas frutas, cereais ou lácteos, de substâncias capazes de atuar no organismo de forma equivalente à de um produto farmacêutico. Outra possibilidade seria a ingestão de doses diárias de CLA c9t11 por meio de complexos vitamínicos/minerais ou de cápsulas.