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Correio Popular

Pesquisa disseca doenças nas artérias

Publicado em 07 abril 2006

Por Delma Medeiros (delma@rac.com.br)
Hemocentro da Unicamp estuda terapêuticas para trombosos em membros inferiores

Buscar terapêuticas alternativas para doenças nas artérias, em especial as tromboses nos membros inferiores, é o foco do estudo de Angiogenese (biologia molecular) que pesquisadores do Hemocentro da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) desenvolvem há cerca de 3 anos. Segundo a orientadora da pesquisa, Joyce Maria Annichino Bizzachi, o estudo tem por finalidade estimular formação de novos vasos em áreas do corpo que estão sem irrigação.
Idealizada pelo doutorando Erich Vinícius de Paula, a pesquisa investiga a angiogenese com aplicação de plasmídeo (uma seqüência de DNA de origem bacteriana) associado a um gene (fator VEGF) que estimula a proliferação de novos vasos sangüíneos. Testado com resultados positivos em animais de pequeno porte (ratos), o desafio do experimento, segundo Joyce, não é somente a produção, mas comprovar a viabilidade desses vasos. "Os vasos têm que ser viáveis funcionalmente, ou seja, que tenham as células funcionando adequadamente", explica a pesquisadora.
Segundo Erich, a opção pelo plasmídeo é porque a substância funciona como um vetor não viral, já que os vírus podem acarretar complicações ao organismo. No caso, o plasmídeo acoplado ao fator VEGF é injetado no músculo com isquemia (sem irrigação) para estimular a produção dos novos vasos. O estudo, pioneiro no Brasil, se mostrou eficaz e seguro na aplicação em ratos. A próxima etapa é continuar o experimento com animais maiores, como coelhos e porcos, e por último fazer os testes em humanos. Todo o processo deve demorar ainda em torno de 4 anos.
Erich explica que antes da aplicação em seres humanos, é preciso confirmar a eficácia do processo a curto e médio prazo, os níveis de segurança, dosagem e melhor via de aplicação.
"O objetivo é criar alternativas de tratamento que evitem a amputação de membros inferiores, como é comum acontecer em casos de trombose", diz Joyce. Ela cita que hoje, quando ocorre a trombose nas pernas, a maioria dos casos implica em amputação, já que depois da necrose a irrigação não é mais recuperada. "A pesquisa visa propor tratamento nesta situação limite, induzindo à formação de vasos e ao aumento da irrigação, evitando assim a amputação".
Erich esclarece que o foco da pesquisa são os membros inferiores, mas futuramente, confirmada a eficácia, os estudos podem avançar para outros membros e órgãos. Atualmente, pacientes com obstrução arterial crônica nos membros inferiores não dispõem de outra alternativa terapêutica além da amputação.

Estudos
Outras pesquisas em desenvolvimento no Hemocentro sob a orientação de Joyce, são relacionadas a arteriosclerose e coagulação, homocisteína (substância produzida no organismo e que em excesso causa deficiência de ácido fólico), e um estudo previsto para ter início nos próximos três meses, sobre o uso de células tronco na recuperação de membros inferiores. O estudo sobre angiogenese é financiado pela Fundação de Apoio à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP), órgão a quem foi encaminhado também o projeto sobre células-tronco. "O início da pesquisa só depende do sinal verde da FAPESP", diz Joyce.
Já a pesquisa sobre homocisteína, que se iniciou esta semana e vai envolver mil pacientes, desde bebês até idosos, avaliando fatores genéticos como dosagem de homocisteína, B-12 e folato (ácido fólico), tem apoio do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq).

A frase
"O início da pesquisa só depende do sinal verde da FAPESP."
Joyce Maria Annichino Bizzachi - Orientadora da pesquisa sobre biologia molecular, antecipando trabalhos relacionados a arteriosclerose e coagulação euso de células-tronco na recuperação de membros inferiores.