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Pesquisa detecta impacto da topografia na variação genética de anfíbios

Publicado em 08 dezembro 2020

Por Gabriela Brumatti, Terra da Gente

É comum e certo pensarmos que o extermínio da cobertura vegetal de uma área por meio do desmatamento e das construções faça com que alguns animais fiquem restritos a determinados territórios, acasalando-se entre si e diminuindo sua diversidade genética. Mas uma pesquisa recente, realizada com o apoio da Fapesp, conseguiu analisar também qual é o impacto da topografia para a diversidade de anfíbios. Ou seja, das variações na superfície.

A análise começou há mais de dez anos quando o pesquisador e professor adjunto da Universidade Federal de Juiz de Fora (MG), Renato Christensen Nali, estava ainda na graduação em Ciências Biológicas e conheceu a professora Dra. Cynthia Prado, na UNESP de Jaboticabal, que lhe apresentou uma espécie de anfíbio da Serra da Canastra (MG): a perereca Bokermannohyla ibitiguara.

“Era uma espécie abundante, mas que ficava bastante restrita às áreas de riacho com vegetação nas margens. Após descrever seu comportamento no mestrado, decidi então, no doutorado, estudar como seria o processo de diversificação genética desta espécie. Será que os animais ficariam restritos a cada riacho onde ocorrem, reproduzindo-se apenas com indivíduos do mesmo riacho? Será que eles conseguiriam se dispersar de um local a outro?”, se questionou o pesquisador.

As investigações com 12 populações dessa “moradora da serra” no cenário do Cerrado evidenciaram que o ambiente possuía uma grande variedade de vegetações, mas que elas permaneciam restritas em determinados riachos. “Este isolamento foi menor dentro do Parque Nacional da Serra da Canastra, cuja topografia é muito mais plana e homogênea do que em riachos fora do Parque. A topografia plana aparentemente favorece o cruzamento de indivíduos que conseguem se dispersar entre os riachos e ajuda a aumentar sua diversidade genética”, explica Nali.

Para entender quais impactos do cruzamento desses anfíbios entre os grupos que conseguiam ou não transitar pelos riachos, análises genéticas foram realizadas na Universidade de Cornell, nos EUA, sob a supervisão da professora Dra. Kelly Zamudio e com o apoio do Dr. Guilherme Becker. E, em 2016, após o processamento de todas as amostras, Renato tinha a resposta definitiva: a topografia era muito mais importante para a diferença genética desses animais do que o tipo ou o grau de preservação da vegetação.

A pesquisa aponta, assim, que a variação dos terrenos é um fator importante para os anfíbios e, visto que estes são animais extremamente ameaçados, deve ser levada em conta nos planejamentos em conservação. “Além das características da vegetação, por meio de análises espaciais, é possível trazer a topografia para o centro da discussão como facilitadora da dispersão de indivíduos, e, consequentemente, promotora de uma população geneticamente diversa e, potencialmente, mais estável”, afirma.

Embora a análise se concentre na perereca Bokermannohyla ibitiguara, ela é um modelo que pode ajudar a compreender outros “parentes” nesse cenário. De uma forma geral, os anfíbios são animais pequenos que respiram por uma pele permeável e fina, o que traz dificuldades para a dispersão desses animais por longas distâncias ou instáveis terrenos.

As análises dos pesquisadores continuam investigando outros comportamentos dessa “moradora da serra” e, dentro do Laboratório de Ecologia Evolutiva de Anfíbios (LECEAN-UFJF), Renato orienta alunos em trabalhos sobre outras espécies, concentradas principalmente na Mata Atlântica.