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Agência C&T (MCTI)

Pesquisa desvenda perfil do fumante maior

Publicado em 27 abril 2008

Por Monique Bueno

Cinco da manhã é o horário que a dona de casa Vardinês Antônia da Silva, de 53 anos, acorda para fumar o primeiro cigarro. Ao longo do dia, ela acende outros 20. Segundo ela, essa é a medida certa para controlar sua ansiedade. A dona de casa é fumante há 19 anos e afirma que sem o cigarro, fica completamente sem controle.

Vardinês, sorridente e inquieta, conta que sofreu de depressão e tem no cigarro o domínio do corpo e da mente. "Para o bem da minha saúde, tentei parar de fumar, mas a força de vontade foi menor do que a ansiedade", explica. Vardinês nunca tentou tomar medicamentos para controlar o vício. Pelo contrário, quando se sente amargurada pelo fato do cigarro ser prejudicial à saúde, conta que fica ainda mais ansiosa e chega a comprar seis maços, para não correr o risco de ficar sem cigarros.

A fumante conta que depois que descobriu a traição de seu parceiro há alguns anos, viu no cigarro uma relação de confiança. "Não largo jamais, ele é fiel a mim". Na época da traição, Vardinês chegou a fumar três maços por dia.

A dona de casa se enquadra nos dados descritos no artigo "Características psicológicas associadas ao comportamento de fumar tabaco", escrito pelos professores Regina de Cássia Rondina, da Faculdade de Ciências da Saúde/Associação Cultural e Educacional de Garça, Ricardo Gorayeb, da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto, que pertence à USP (Universidade de São Paulo), e Clóvis Botelho, da Universidade Federal do Mato Grosso.

O artigo publicado no Jornal Brasileiro de Pneumologia apresenta os resultados de uma pesquisa bibliográfica sobre a psicologia do tabagismo, destacando características de personalidade do fumante como um dos obstáculos à vitória sobre o vício.

A pesquisa revela que os fumantes tendem a ser mais extrovertidos, mas também mais ansiosos, tensos e impulsivos em comparação aos não-fumantes e até a quem já fumou, mas deixou o vício. "No artigo foi apresentada uma revisão literária, feita por meio do levantamento de mais de 60 artigos científicos nacionais e internacionais sobre o assunto", explica Regina.

A autora fez uma pesquisa de campo com estudantes universitários. Foram convidados a participar como voluntários, aproximadamente 1.600 estudantes matriculados em cursos de graduação da Universidade Federal de Mato Grosso, campus de Cuiabá, em 2001, nos turnos da manhã, tarde e noite. Segundo Regina, os alunos receberam questionários especificamente elaborados para o estudo, para um levantamento do perfil dos fumantes e do padrão de consumo do tabaco. Eles também participaram do teste de Fagerström (que define a melhor estratégica para quem quer largar o cigarro), para a avaliação do grau de dependência da nicotina.

A amostragem foi composta por 44% de estudantes do sexo feminino e aproximadamente 56% do sexo masculino, com idade média de 24 anos e meio.

O consumo de tabaco variou de 1 a 40 cigarros por dia. A média de consumo diário no sexo masculino foi de 10 cigarros e no sexo feminino, de nove cigarros por dia. A maioria dos fumantes iniciou o hábito aos 17 anos de idade e tentaram abandonar o vício pelo menos uma vez.

Dentre os ex-fumantes que participaram da pesquisa, o consumo de cigarros variou entre 1 e 50 por dia e o início do hábito se deu, em média, aos 16 anos de idade. A maioria conseguiu deixar o vício depois da segunda tentativa.

RESULTADOS - A professora Regina de Cássia Rondina conta que aproximadamente 44% dos fumantes avaliados apresentaram tendenciosidade (escondem intenções secretas); cerca de 50% não possuem estabilidade emocional; 48% são extrovertidos; 38% apresentam rebeldia e apenas 38% mostraram ser pessoas confiantes. A soma das porcentagens não resulta 100% pois a mesma pessoa avaliada pode apresentar mais de uma característica.

A pesquisadora concluiu que a amostragem avaliada confirmou os resultados de diversos artigos, que apontam que a maioria dos fumantes têm tendência a serem mais extrovertidos, apresentam sentimentos de humor negativo, pessimismo, tristeza, desânimo, reações de angústia e ansiedade. "É importante deixar claro que os fumantes são propensos a possuir essas características, mas isso não quer dizer que todos se encaixam nesse quadro, estamos falando de uma média geral".

Regina conta que estudos científicos revelam também que, entre pacientes que sofrem de alguns problemas psiquiátricos, como depressão grave, esquizofrenia, alguns distúrbios de ansiedade (como transtorno de pânico, por exemplo, distúrbio do déficit de atenção, hiperatividade e alcoolismo), o percentual de fumantes é muito maior, em comparação à população em geral. "Por exemplo, se 20% da população em geral são fumantes, entre as pessoas que sofrem de esquizofrenia, a porcentagem é de quase 80%".

Segundo a professora, milhares de estudos científicos sugerem que essas associações citadas acima são influenciadas por fatores hereditários e neurobiológicos. "É comprovado que fatores hereditários influenciam, simultaneamente, a pessoa a desenvolver traços psicólogicos e/ou doenças mentais e também a se tornar dependente de tabaco", ressalta.

De acordo com a professora, numerosos estudos científicos revelam que a atuação de complexos mecanismos neurotransmissores no cérebro também influencia na tendência a começar a fumar e se tornar dependente de nicotina.

SUPERAÇÃO - O casal de comerciantes Cleide Mateos Rocha, 48 anos e Edgar da Rocha, 60, abandonaram o cigarro quase ao mesmo tempo. Edgar fumou durante 40 anos e Cleide por 25. A idéia de deixar o vício sempre existiu.

Cleide tentou várias vezes até conseguir deixar o cigarro. Já Edgar conta que tomou a decisão de parar de fumar, comprou um maço e deixou guardado por um ano. Nunca mais fumou.

Apesar de terem enfrentado graus de dificuldade diferentes para deixar o vício, ambos concordam que a insistência do único filho foi um ponto fundamental para tomarem a decisão. "Ele colocava reportagens sobre os males do cigarro em toda a parte. Assim, a vontade de parar de fumar foi crescendo", diz Cleide.

O dinheiro destinado à compra de cigarros agora é destinado a outros bens. "Assim que paramos de fumar, a primeira coisa que fizemos foi usar o dinheiro para comprar um aparelho de som", conta Cleide. E depois, muitos CDs.

Edgar ressalta que a mulher sempre foi tranqüila, segura e não apresenta os sinais apontados pela pesquisa. Já ele confessa que é ansioso e chegava a sair de madrugada para comprar maços de cigarro.

PARA PARAR - Os médicos são unânimes quando afirmam que parar de fumar sozinho é muito mais difícil do que com acompanhamento de um médico ou grupo de apoio. Atualmente, uma série de recursos está disponível para quem quer deixar de fumar, como chicletes e adesivos de nicotina e medicamentos. Pessoas mais ansiosas ou inseguras podem procurar também auxílio psicológico. Muitas vezes, ao buscar ajuda para deixar o vício, o fumante que sofre de depressão ou ansiedade vai encontrar também tratamento para seu problema. O importante é não desistir, mesmo se tentativas anteriores de deixar de fumar fracassaram.

SERVIÇO

Informações sobre os riscos do cigarro e dicas para deixar o vício podem ser encontradas no site www.inca.gov.br/tabagismo ou pelo Disque Saúde, telefone gratuito disponibilizado pelo Ministério da Saúde. O número é 0800 61 1997