Notícia

A Tribuna (Santos, SP)

Pesquisa desenvolve casas para polvos

Publicado em 12 novembro 2001

O Projeto Polvo, nome da pesquisa desenvolvida por Acácio Tomás e seus colaboradores, é também o primeiro estudo genético de moluscos cefalópodes do Brasil. Seis espécies de polvos já estão geneticamente mapeadas no mundo. No caso dos polvos, a espécie que habita a área de estudo é originária do Caribe. Entretanto, ela também ocorre em todo o Mediterrâneo, litoral africano e nas proximidades do Japão. O Octopus vulgaris foi descrito pela primeira vez em 1795. Acredita-se que ele tenha migrado para o litoral brasileiro há milhares de anos. Vestígios desses animais são praticamente nulos. Por serem invertebrados têm pouca ou nenhuma parte rígida que possa ser preservada até os nossos dias. Para que se transforme numa atividade rentável para os pescadores artesanais, Acácio procurou áreas específicas, com abundância de alimentos, para esses animais se estabelecerem. Os primeiros 'viveiros' foram instalados próximos de onde hoje se desenvolve a mitilicultura (cultivo de mexilhões). Esses 'viveiros' foram desenvolvidos pela equipe do Instituto de Pesca. Trata-se de um par de telhas comum, que unidas formam uma espécie de toca. Cerca de 80 dessas tocas foram instaladas no litoral norte paulista, em enseadas com menos de dez metros de profundidade, sempre próximas aos cultivos de mexilhões. Num dos locais, graças ao apoio dos pescadores, foi possível retirar 16 polvos em uma semana. Ao todo, mais de 200 polvos já foram medidos e marcados. Quando capturados, os cientistas podem saber, entre outras coisas, a taxa de crescimento e a sua área de migração. Caso você encontre um desses polvos marcados, é só ligar para o telefone existente na placa de identificação. Além de ajudar a Ciência, você ainda ganhará um brinde. O projeto Polvo é financiado pela Fapesp e pela Fundação O Boticário (com verba da Mac Arthur Foundation). POLVOS, AINDA UM GRANDE MISTÉRIO No Brasil, é praticamente inexistente a literatura sobre esses moluscos. Raros são os trabalhos como o desenvolvido no Instituto de Pesca. No passado, para muitas culturas, o polvo foi um ser mitológico. Graças a escritores como Júlio Verne (20 mil Léguas Submarinas) essa criatura ganhou contornos míticos. Fixou-se no imaginário coletivo o polvo gigantesco que abraçava e engolia embarcações inteiras. Mas a realidade não é bem essa. Aliás, talvez seja muito mais interessante. Há mais de 100 diferentes espécies de polvo. O polvo gigante é o maior deles. O enorme molusco mede mais de sete metros de extremidade a extremidade do braço, pesando mais de 182 quilos. O menor é o polvo californiano, que mede apenas um cm. Um polvo tem o corpo macio e oito braços. Cada braço tem duas fileiras de ventosas de sucção. Se perder um de seus braços, eventualmente irá crescer outro. Ele tem sangue azul. Um polvo tem um olho de cada lado da cabeça e tem uma boa visão. Ele é incapaz de ouvir. Tímidos, muitas vezes tamanho não é documento. Uma das menores espécies, o polvo do anel azul, que vive na região da Austrália, Nova Guiné, Indonésia e Filipinas, possui um veneno 13 vezes mais forte do que o do baiacu. A morte, para quem recebe a neurotoxina, pode chegar em menos de dois minutos. O polvo do anel azul caça durante o dia. Ele come invertebrados e peixes feridos. Ele se esconde nos recifes, apanhando suas presas com os braços, mordendo com seu bico duro e matando através de um veneno na saliva. Polvos empilham rochas para bloquear a frente de suas tocas, protegendo-as de predadores (como enguias e moréias). Outra defesa é mudar a cor de sua pele para se misturar com o chão, camuflando-se. O polvo nada expelindo água de seu corpo, um tipo de propulsão. Alguns deles têm uma concha dura e externa, como os nautilus. Além deles, a família inclui as lulas e as sépias. O polvo é solitário, não vive em grupos. Defende ferozmente o seu território e é canibal - aumenta- se de outros polvos menores. A fêmea é um caso a parte. Cabe a ela cuidar dos milhares de ovos que costuma depositar em locais protegidos, como a parte superior de uma toca de recife. Nesse trabalho, sem se alimentar, ela fica por quase quarenta dias. Após esse período, desgastada, ela morre. Mas a vida do macho não é menos facilitada. o acasalamento pode ser mortal pois, caso a fêmea não o considere um bom partido, ele se transforma em jantar. No acasalamento, os polvos se abraçam. Um dos oito tentáculos, na verdade, é falso. Por intermédio dele, o macho insere na fêmea uma espécie de bolsa contendo os espermatozóides. Feito isso, eles se afastam e a fêmea, por meio de um hormônio, ativa uma enzima que quebra a bolsa, permitindo o encontro do espermatozóide com o óvulo (fertilização). As fêmeas vivem, em média, de 14 a 15 meses. Já os machos chegam a 18 meses. No litoral brasileiro, já foram registrados de 10 a 15 espécies de polvos.