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Pesquisa de tumor cerebral ganha prêmio de oncologia

Publicado em 08 agosto 2017

O glioma é tipo mais comum de câncer de cérebro, mas os tratamentos existentes hoje têm pouco sucesso em combatê-lo.

Mesmo após cirurgia para retirar o tumor e o uso de quimioterapia e radioterapia, a doença teima em reaparecer. Em média, o paciente vive 14 meses após o diagnóstico.

“O tumor encontra um jeito de resistir à quimioterapia, e nós estamos interessados em descobrir de que forma isso acontece”, diz a doutora pela Universidade de São Paulo (USP) e pesquisadora do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT) Clarissa Ribeiro Reily Rocha.

Um estudo de Clarissa e colaboradores da USP e da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) conseguiu não só desvendar um dos mecanismos por trás dessa resistência como também mostrou que a combinação de duas drogas pode ampliar a eficácia do tratamento contra o glioma.

O trabalho venceu a categoria Pesquisa em Oncologia do Prêmio Octavio Frias de Oliveira. A cerimônia de entrega será hoje, às 20h, no teatro da Faculdade de Medicina da USP.

A premiação é iniciativa do Instituto do Câncer do Estado de São Paulo Octavio Frias de Oliveira (Icesp), em parceria com o Grupo Folha. A láurea, que leva o nome do então publisher da “Folha de S.Paulo”, morto em 2007, busca reconhecer e estimular contribuições na área oncológica.

Na categoria Inovação Tecnológica do prêmio, venceu um estudo que usou uma sonda a laser para aprimorar o diagnóstico em tempo real de lesões cancerosas de esôfago.

Na categoria Personalidade em Destaque, a senadora Ana Amélia Lemos (PP-RS) será a premiada em reconhecimento ao seu trabalho na assistência aos pacientes com câncer.

Para cada categoria, a premiação é de R$ 16 mil. Os vencedores são apontados por comissão composta por representantes do Icesp, da Faculdade de Medicina da USP, do Hospital das Clínicas da USP, da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), da Academia Nacional de Medicina, da Academia Brasileira de Ciências, do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), da Fundação Oncocentro de São Paulo e da “Folha”.

Tapeando

O pulo do gato da pesquisa de Clarissa Reily Rocha para melhorar o tratamento contra o glioma foi descobrir que os tumores mais resistentes à quimioterapia tinham a expressão de um determinado gene que “decide” qual será a quantidade de um peptídeo chamado glutationa.

A glutationa é uma espécie de gari da célula, responsável por limpar suas toxinas. O problema é que ela também parece gostar de se ligar ao quimioterápico temozolamida, impedindo que a droga chegue até o núcleo do tumor.

A solução encontrada pela equipe foi usar uma droga experimental que inibe a produção da glutationa, abrindo caminho para que o quimioterápico combata o tumor. Essa combinação conseguiu driblar a resistência em testes in vitro e em animais.

“O que a gente propõe é medir a quantidade de glutationa nas células dos pacientes para ver se essa substância está em níveis aumentados. Em caso positivo, uma opção no futuro seria usar nossa combinação. É o que chamamos de terapia-alvo”, diz Rocha.

Nascida na pequena Antas (BA), no sertão da Bahia, a pesquisadora saiu de casa aos 12 para estudar em Salvador, seguindo os passos dos dois irmãos mais velhos – hoje um é médico e o outro, farmacêutico. A mãe, professora do ensino fundamental, sempre priorizou a educação dos filhos.

Aprendeu inglês trabalhando na rede de fast food Burger King na Irlanda, enquanto o marido, Alexandre, fazia mestrado em física no país. Depois de ter estudado direito e enfermagem, fez ciências fundamentais para a saúde, na USP.

“As pessoas acham que a vida e a carreira têm de ser lineares, que a ciência é um dom, mas o mais importante é ter persistência e paciência”, diz.

Olhar potente

Se o que moveu o estudo que ganhou o prêmio de Pesquisa em Oncologia era melhorar o tratamento de um tipo de câncer, o objetivo da pesquisa vencedora em Inovação Tecnológica é aprimorar o diagnóstico.

A equipe da Faculdade de Medicina da USP, liderada pela médica do Icesp Adriana Vaz Safatle-Ribeiro, avaliou o uso de uma sonda a laser na endoscopia para rastrear tumores de esôfago em pessoas que tiveram câncer de cabeça e pescoço.

Como os fatores de risco são os mesmos, há probabilidade maior de esses pacientes terem um novo câncer no esôfago. O incremento da sonda a laser permite aumentar mil vezes a imagem e ver, em tempo real, se as células são cancerosas ou não, sem a necessidade de biópsia. O objetivo é o diagnóstico precoce.

“O método se mostrou muito sensível, com acurácia de 91,9%. Isso pode mudar a conduta terapêutica e melhorar o prognóstico do paciente”, diz Adriana Vaz Safatle-Ribeiro.

(Folhapress)