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Jornal O Imparcial (Araraquara, SP) online

Pesquisa de arqueólogos de Araraquara pode mudar o rumo da história

Publicado em 06 maio 2015

Por Célia Pires

No dia 7 de maio o pesqueiro Jacaré, que fica entre Araraquara e Boa Esperança do Sul, poderá entrar definitivamente para a história. Uma equipe da USP, outra do MAPA, Museu de Arqueologia e Paleontologia de Araraquara e outra da UniCamp vão pesquisar o local. O objetivo é fazer várias amostras de datações no local que é um sítio arqueológico.

O arqueólogo do MAPA, Fábio Grossi, informa que o Museu com uma equipe de pesquisadores/arqueólogos atua na área cujo foco é a pesquisa regional, incluindo, lógico Araraquara. “No sítio do Pesqueiro Jacaré, a gente começou um trabalho em 2003 que foi ligado a um projeto de arqueologia de contrato quando fizeram o Gasbol que, pela lei, obriga o estudo arqueológico”.

Foi nessa ocasião, conta Grossi, que o sítio foi identificado e onde viram um grande potencial no mesmo. “Então, as pesquisas no Sítio BES II que começaram em 2003, a partir de licenciamento ambiental em 2010 foi escavado de novo. Desta vez de forma acadêmica através de meu projeto de mestrado. Percebemos pela análise preliminar que ele tinha algo específico e característico de caçador/coletor, que são grupos nômades que viviam da caça e coleta. Não faziam uso da agricultura e domesticação de animais”.

O arqueólogo explica que entendem  que grupos como esse são normalmente pequenos e que estão sempre vagando e em constante movimento, mas esse grupo, embora, tivesse todas essas características é muito mais intenso, não era tão pequeno e não ficou tão parado o que já levou a um questionamento: será que não seria um grupo que estava numa mudança deixando de ser caçador/coletor e se tornando sedentário? “Com isso, nós fizemos a datação. E ele é muito antigo: 14.500 anos. Vimos quão importante esse sítio pode ser. Primeiro por sua antiguidade, que vem questionar o próprio povoamento das Américas, que segundo as teorias homogênicas norte-americanas,teria acontecido no máximo há 12 mil anos, pela cultura "Clovis", acrescentando que esse sítio já chama a atenção porque vem questionar o que era quase inquestionável até pouco tempo.

Niède Guidon, a polêmica

Mas entra na história uma outra arqueóloga, a brasileira, Niède Guidon, no Piauí, na Serra da Capivara, que datou na década de 80, 50 mil anos, que é uma data até hoje super polêmica que todos questionam. “Hoje muita gente já está confirmando e mesmo não confirmando é  importante a pesquisa dela, pois ela jogar esta data mais antiga acabou despertando o interesse dos pesquisadores na América e a dúvida: será que pode ser?”, diz acrescentando que isso estimulou várias outras pesquisas na América e que depois de Niède começaram a surgir outras datas mais antigas, como os Sítios de Monte verde no Chile, com datas de 13 mil anos e outra mais antiga de 33 mil anos. Na Patagônia deu uma de 40 mil. No Mato Grosso, o sítio Santa Elina também revelou uma datação de 25.000 anos. “Nós já temos várias datas que já estão questionando isso e agora aparece uma aqui e o doutorado que estamos fazendo agora vem com a intenção de voltar a esse sítio no próximo dia 7, região de Boa Esperança, Pesqueiro Jacaré”. Grossi ressalta que esta será apenas a primeira etapa da pesquisa que deve durar uma semana. “Devemos voltar mais vezes.

Financiamento

O financiamento dessa pesquisa, segundo Grossi, está vinculado ao projeto de seu orientador,  Astolfo Araújo, um dos mais renomados no Brasil que trabalha com Walter Neves na questão da ‘LUZIA’ em Lagoa Santa, Minas Gerais. “Ele já pesquisa as ocupações denominadas palioindia, que são ocupações mais antigas que 10 mil anos atrás. Nosso projeto está vinculado ao dele no Brasil inteiro buscando esses sítios antigos. A verba vem da FAPESP (Fundação de Amparo a Pesquisa do Estado de São Paulo). “Por isso estamos voltando ao sítio, pois estamos melhor estruturados”, diz Fábio.

Estruturado e relevância

O grupo que vai para o sítio no Pesqueiro Jacaré  vai ter estrutura para fazer várias amostras de datação, que inclusive vão ser datadas nos Estados Unidos, no Betanalitico, que é um dos laboratórios mais renomados do mundo e junto vai vir a equipe de geologia da Unicamp que vai analisar, estudar, a estratificação, as camadas geológicas. Por ser um sítio polêmico para a gente confirmar se é ou não de fato essa data antiga, além das datações é importante ter a Genealogia analisando para ver se está tudo certo e se não houve nenhuma alteração. O foco dessa pesquisa agora é fazer várias datações para confirmar se a data obtida em 2010 de 14 mil de fato procede essa antiguidade.Se isto se confirmar vai gerar uma série de outros questionamentos, como por exemplo, se for 14 mil anos, de onde esse grupo veio antes? A importância dessa pesquisa é nesse aspecto”.

Para Fábio Grossi, a relevância da pesquisa é que a mesma pode ajudar a mudar o foco da história, que é etnocentrista. “E que não começa somente quando chegou o branco em Araraquara, das sesmarias, mas que temos origem indígena e que temos uma herança cultural indígena no nosso dia a dia mais forte do que a européia, ou seja, tomamos banho, temos palavras indígenas incorporadas ao vocabulário, entre outras coisas.

Para Grossi, com o tempo, os resultados, os textos produzidos passem a integrar os livros de história e as crianças das próximas gerações vão aprender que os primeiros habitantes de Araraquara foi esse caçador/coletor de Boa Esperança.” E isso vai mudar a cultura do povo e as próximas gerações não vai estar falando que índio é pinguço e vagabundo. Acho que a maior contribuição da  pesquisa será essa”.

Mapeamento do sítio em 3D

O principal foco da arqueologia é fazer um bom registro e uma das novidades inéditas no interior paulista será através da Geologia e com a Arqueologia vai fazer o mapeamento do sítio em 3D usando estação total e um trado, máquina mecânica que a partir  da Geologia ver a profundidade. “Vamos mapear todas as camadas geológicas lembrando que não é a peça arqueológica em si que conta a história, mas o seu contexto no qual ela está inserida”.