Notícia

Gazeta Mercantil

PESQUISA DE ALTO NÍVEL NA UNIVERSIDADE

Publicado em 14 fevereiro 2000

Por Adriana Fernandes Farias - de São Paulo
Celeiro de boa parte da produção científica do País, as universidades públicas estão ligadas a 62% dos projetos desenvolvidos por empresas. Das pesquisas com impacto econômico desenvolvidas pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), 82% são ligadas a elas. Dados como esses estão reunidos no relatório Papel da Universidade Pública, elaborado pelo Instituto de Estudos Avançados, da USP, que será lançado na próxima semana (ver box). "A intenção do documento foi mostrar à sociedade que o investimento na universidade pública contribui para o desenvolvimento científico e social do País", afirma o professor Alberto Carvalho da Silva, que trabalha na área de Política de Ciência e Tecnologia da USP. Após seis meses de estudo sobre a contribuição do ensino superior público para a formação de pesquisadores e desenvolvimento, Silva concluiu que 80% dos estudos ligados a desenvolvimento científico no País eram das universidades públicas e institutos públicos de pesquisa. O professor também avaliou essa participação junto às empresas. Concluiu que 62% dos seus projetos de pesquisa são realizados por instituições de ensino superior e 27% por institutos governamentais. A Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz, por exemplo, desenvolveu novas variedades de eucaliptos de fibras longas que hoje alimentam a indústria de celulose e papel. Em outro estudo, o professor descobriu que, dos projetos da Fapesp que tiveram impacto econômico e social, 82% são ligados ao ensino superior e 14% aos institutos de pesquisa públicos. "Somando os dois, fica quase tudo por conta deles." Apesar de não haver vínculo formal entre os institutos e as universidades, segundo o documento, são elas que formam seus pesquisadores. 84% dos pesquisadores do Conselho Nacional de Pesquisa (CNPQ) pertencem ao ensino público. O Instituto Butantan - um dos mais importantes produtores mundiais de imunobiológicos - envia seus pesquisadores para a pós-graduação da USP e contrata jovens dessa universidade. Em relação à pós-graduação, em todo o País, 91% dos doutorados são oferecidos pelo ensino público. Outro indicador que chama a atenção é o número de publicações de textos científicos no exterior - 94,7% são de pesquisadores de institutos de pesquisa e universidades públicos. A tese de doutorado defendida por Irineu Velasco, do Instituto de Ciências Biomédicas da USP, gerou mais de 700 artigos em centros de pesquisa do Japão, índia, China e Estados Unidos. Sua técnica de uso de soluções hipertônicas no tratamento de choques hemorrágicos aumentou a sobrevida dos acidentados que chegam feridos em hospitais e é empregada em diversos países. "É fundamental apoiá-los (universidade e institutos públicos) porque é neles que se concentra a capacidade científica do País", conclui Silva. Ele acredita que o Brasil precisa concentrar seus esforços e recursos onde o conhecimento científico é produzido. Não faltam exemplos da importância científica dessas universidades no dossiê. Uma delas é a participação no Projeto Genoma (ver reportagem na pág. 8), um dos mais importantes trabalhos desenvolvidos pelo Brasil na área de biotecnologia. Pesquisa foi apenas um dos temas do relatório do IEA. O documento abordou ainda a riqueza das atividades desenvolvidas pelas instituições de ensino superior do País, como os hospitais universitários e os museus. Há ainda o Disque-Tecnologia, serviço de atendimento a pequenas e médias empresas que, em 98, teve 2,3 mil consultas. A ESCADA DA VIDA Com formato de uma dupla hélice, o DNA apresenta uma estrutura semelhante a uma escada espiral. Em cada "degrau" da escada há um par de bases combinadas. O tamanho do material genético de um organismo é medido por meio desses pares de bases. A seqüência dessas bases é que define cada ser vivo. No ser humano, cada gene contém 3 bilhões de pares de bases; o ser humano tem cerca de 140 mil. A chance de existirem duas pessoas geneticamente idênticas é de 1 em 50 trilhões. Calcula-se que, quando pronto, o mapeamento genético do ser humano reunirá informação suficiente para preencher as páginas de cerca de 200 listas telefônicas de uma cidade como São Paulo. Algumas das doenças que poderão ser tratadas e controladas precocemente após o desvendamento do genoma: - Síndrome de Down - Anemia falciforme - Síndrome de Coréia de Huntington - Esquizofrenia - Mal de Alzheimer - Depressão - Dislexia - Fibrose cística - Alguns tumores - Obesidade - Diabete / Hipertensão - Distrofia muscular - Colesterol alto JEITO PRECOCE DE DETECTAR DOENÇAS O geneticista curitibano Salmo Raskin - um dos cinco integrantes brasileiros do Projeto Genoma Humano - aposta no estudo dos genes como forma de detectar precocemente uma série de doenças. "O estudo detalhado do DNA é o primeiro passo para se entender melhor doenças como esquizofrenia e depressão, que ainda não têm cura e nem se sabe direito como aparecem", diz Raskin. "Os cientistas que se debruçam sobre o código genético do ser humano também estão contribuindo para que se desvende a causa de alguns tipos de câncer, da obesidade, diabete, hipertensão e colesterol alto, entre outras doenças de caráter genético." O biólogo Marcelo Briones, professor da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), é um dos pesquisadores que integram um estudo sobre câncer de mama desenvolvido pelo Instituto Ludwig de Pesquisas sobre o Câncer, em São Paulo. Com o apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), o estudo não busca a cura da doença, mas compreender de que forma ela age no corpo da paciente e de que maneira os medicamentos podem controlar a sua ação. "A pesquisa tem por finalidade melhorar os métodos de diagnóstico e prognóstico do câncer e, posteriormente, interferir na: suas formas de tratamento", explica Briones. Segundo ele, é possível que esse estudo permita, futuramente, o desenvolvimento de uma droga que interfira diretamente na ação de um gene específico. "Um medicamento, por exemplo, que só reconheça as células tumorais, preservando as normais", diz o biólogo. Quando se fala em interferir nos genes para se estender a vida, o estudo do genoma é mais bem aceito até mesmo pela comunidade científica. "As terapias gênicas devem ter por objetivo corrigir doenças e acredito que isso já estará disponível dentro de 20 anos", diz Briones. "Com isso, será possível interferir precocemente em defeitos genéticos que poderiam estar aparecendo na pessoa apenas na sua fase adulta." Para Briones, o perigo da terapia gênica é ela cair na mão de grupos ligados ao racismo. E faz um alerta: "A legislação sobre o assunto no Brasil está só engatinhando." Sobre esse assunto, o biólogo norte-americano Daniel Drell, responsável pelo Projeto Genoma Humano no Departamento de Energia dos EUA, declarou, em entrevista recente, que também manifesta temores. Segundo ele, o maior deles está no uso e na interpretação equivocadas do mapeamento do código genético. "No início do século, acreditava-se que os filhos de assassinos já nasciam com tendências criminosas", disse. Não é preciso dizer que essas crianças sofriam com uma pesada carga de discriminação e preconceito. (M.L.P.) EM DEFESA DO ENSINO PÚBLICO Na próxima quarta-feira, dia 16, a Universidade de São Paulo (USP) lança um documento intitulado O Papel da Universidade Pública, uma resposta aos ataques que apontam as universidades públicas brasileiras como improdutivas e dispendiosas. Temas como o conceito da universidade pública, a área de pesquisa e o preconceito da origem social dos seus alunos foram colocados, após amplo debate, num dossiê de 300 páginas que deu origem ao documento (de 32). Resultado de dois anos de pesquisa, coordenada pelo professor Alfredo Bosi, do Instituto de Estudos Avançados, a publicação é um resumo das conclusões às quais chegaram 19 professores e pesquisadores de diversas áreas da USP que formam a Comissão de Defesa da Universidade Pública, criada pela reitoria. Divididos em grupos, cada um aprofundou-se em um tema ligado à sua área. Um dos preconceitos relacionado ao ensino público superior, segundo Bosi, é a cobrança de resultados imediatos. "A universidade pública é uma instituição que demanda um longo prazo de pesquisas básica. Não é só pesquisa aplicada" diz ele. "Ninguém pode descobrir uma vacina se não estudou anos de bioquímica", completa. Bosi explica que o documento também discute o atual modelo e dificuldades do ensino superior público. O lançamento será dia 10, às 16h00, na Sala do Conselho Universitário da USP. (A.F.F.)