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Pesquisa da USP aponta mudanças no perfil do jornalista; profissional se tornou multifunção

Publicado em 14 fevereiro 2014

Por Alana Rodrigues

Com o objetivo de investigar as mudanças no perfil do jornalista e da profissão, a coordenadora do Centro de Pesquisa em Comunicação e Trabalho da Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (ECA/USP), Roseli Fígaro, decidiu analisar as transformações ocorridas nos meios de comunicação, por meio das novas tecnologias e da cultura de convergência midiática, que interferiram nos processos de produção de notícias.

Roseli conta que a pesquisa começou no final de 2009, ainda sem aprovação da Fapesp, que apoiou o estudo posteriormente. A ideia nasceu a partir do resultado de uma pesquisa anterior, que analisou o mundo do trabalho dos comunicadores.

“Chegamos à conclusão de que os perfis profissionais da área estavam muito confusos por conta da novidade dos meios de produção. Não havia mais aquele jornalista que atuava apenas como repórter. Ele também era fotógrafo e editava, por exemplo. O resultado mostrou esse borrar de fronteiras entre as diferentes funções e, especificamente, do jornalista. Foi o que nós achamos uma radicalidade maior”, conta.

Intitulada “O perfil do jornalista e os discursos sobre o jornalismo: um estudo das mudanças no mundo do trabalho do jornalista profissional em São Paulo”, a pesquisa é resultado da análise das respostas de 538 jornalistas. Os dados também estão no e-book "As mudanças no mundo do trabalho do jornalista" (Editora Salta), lançado no segundo semestre de 2013.

Os profissionais pesquisados são oriundos de São Paulo, estado que abriga mais de 30% dos profissionais brasileiros da categoria. A maioria dos jornalistas tem um perfil socieconômico de classe média, é jovem (até 30 anos), branca, do sexo feminino, não tem filhos, atua em multiplataformas e tem curso superior completo e especialização em nível de pós-graduação. Outras características comuns são a carga horária de trabalho, de oito a dez horas por dia, e a faixa salarial de R$ 2 mil a R$ 6 mil.

Sobre os resultados, a pesquisadora indica que uma das principais constatações foi o crescente número de mulheres nas redações e a exigência do conhecimento das diversas plataformas. “Essas mulheres que estão no jornalismo, e são multiplataformas, têm um acúmulo de trabalho e preocupações impressionante. Isso também chama atenção porque tem repercussão para além do trabalho”, ressalta.

Roseli também aponta o tempo e o espaço, que comprimidos pelas novas tecnologias, reduziram o tempo para a reflexão, apuração e pesquisa no trabalho. Ela diz que o perfil do jornalista de destaque deve ser analisado de diferentes ângulos.

A pesquisadora menciona a atuação do profissional nas redes sociais, que para alcançar um bom desempenho, deve atender às métricas de visualização do portal em que trabalha. “Guardadas às devidas proporções e diferenças, esse valor do que é ser bom jornalista para o ponto de vista dos interesses de determinada função é a mesma coisa, mas mobiliza outras atividades”, explica.

Para ela, deve-se deixar de lado o discurso unilateral de valorizar apenas atividades passadas ou contemporâneas. Roseli diz que o discurso do papel do jornalismo é mediador e nasce num espaço de construção de uma esfera pública onde as pessoas podem participar. “Eu defenderia esses valores, a partir dos quais, a gente deve medir a qualidade do jornalismo”, acrescenta.

* Com supervisão de Vanessa Gonçalves