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CNN (Brasil)

Pesquisa da USP abre caminho para possível novo tratamento para Covid

Publicado em 22 junho 2020

Por Fabricio Julião, da CNN em São Paulo

Experimentos conduzidos no Centro de Pesquisa em Doenças Inflamatórias (CRID) da USP (Universidade de São Paulo) constataram que o mesmo mecanismo imunológico da Covid-19 pode ser observado em outra doença — o que abre portas para novos tipos de tratamentos.

Foi observado pelos pesquisadores que os pacientes com o novo coronavírus em estado grave desenvolvem uma uma resposta inflamatória descontrolada e lesiva ao organismo muito similar à observada em casos de sepse. Um artigo sobre o estudo, ainda sem revisão por pares, foi publicado na revista medRxiv.

Entre as novas possibilidades de tratamento está o reposicionamento de um fármaco hoje usado contra fibrose cística, cujo princípio ativo é uma enzima chamada DNase.

“Nos testes in vitro, feitos com o plasma sanguíneo de pacientes internados com Covid-19 grave, a DNase se mostrou capaz de desativar esse mecanismo imunológico que pode causar lesões em órgãos vitais. Agora estamos avaliando com o laboratório farmacêutico que produz o medicamento a viabilidade de iniciar um ensaio clínico”, explicou Fernando de Queiroz Cunha, coordenador do CRID, um centro de pesquisa na Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da USP.

Apesar de ser conhecida como uma infecção generalizada, a sepse é uma inflamação causada por uma infecção bacteriana que fugiu do controle. Na tentativa de combater os patógenos, o sistema acaba prejudicando o próprio organismo e, por vezes, os pacientes desenvolvem lesões que comprometem o funcionamento dos órgãos vitais.

“Por ser uma infecção viral, o processo inicial da Covid-19 é diferente. Mas, a partir de certo momento, o quadro se torna muito semelhante ao da sepse. Os mediadores inflamatórios são os mesmos e observamos que, nos dois casos, há participação das NETs [armadilhas extracelulares neutrofílicas, na sigla em inglês]”, disse Cunha.

O que é a NET

NET é uma estratégia de defesa usada principalmente pelo neutrófilo, um tipo de célula capaz de enfrentar bactérias, fungos e vírus e que compõe a linha de frente do sistema imune. Em algumas situações, por motivos ainda não compreendidos, ocorre a ativação de uma enzima conhecida como PAD-4, que migra para o núcleo do neutrófilo e induz um aumento da permeabilidade da membrana nuclear. Esta enzima é fundamental para que o material genético contido no núcleo se descondense e forme redes, que são lançadas pela célula para o meio extracelular com o objetivo de prender e matar potenciais invasores.

Este mesmo mecanismo já foi observado em pacientes com doenças autoimunes e em infectados pelo vírus da febre chikungunya. “O grande problema é que a NET é tóxica para os patógenos e também para as células humanas. A boa notícia é que nossos estudos mostram que a enzima DNase é capaz de picotar essa rede lançada pelo neutrófilo, evitando danos aos tecidos”, afirmou o pesquisador.

Ensaios pré-clínicos

Os pesquisadores analisaram amostras do plasma sanguíneo de 32 pacientes internados com Covid-19 para avaliar se as lesões causadas pelo SARS-CoV-2 estão ligadas as NETs.

“Vimos que o plasma sanguíneo das pessoas internadas por Covid-19 está repleto de NETs e que a quantidade dessas armadilhas neutrofílicas na secreção pulmonar é ainda 10 vezes maior. Isso sugere que neutrófilos estão produzindo NETs por todo o organismo, mas a produção é concentrada nos pulmões”, disse Cunha à Agência Fapesp.

A descoberta foi confirmada após análises feitas com amostras de tecido pulmonar de pessoas que faleceram em decorrência do novo coronavírus, graças a uma parceria com o grupo liderado pelo professor Paulo Saldiva, na Faculdade de Medicina da USP em São Paulo.

Além da DNase, que atua para desestruturar a armadilha neutrofílica depois que ela é lançada pela célula de defesa, os pesquisadores também testaram um composto capaz de inibir a ação da enzima PAD-4 e, portanto, capaz de evitar a formação da NET. Apesar de resultados iniciais animadores, a substância testada ainda não foi aprovada para uso em humanos.

“Esse trabalho apresenta evidências de que a DNase, hoje indicada para tratar fibrose cística, pode ser testada no combate à forma grave da Covid-19. Mas o fato de o fármaco ser administrado por via inalatória dificulta o tratamento de pessoas intubadas. Talvez o ideal seja tratar o paciente em uma fase mais precoce, quando começar a baixar o nível de oxigenação no sangue”, avaliou Cunha.

Por fim, o pesquisador ressaltou que ainda será necessário fazer um ensaio clínico para testar a dose ideal e o momento certo para começar a terapia.