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Pesquisa da Unesp de Botucatu aponta que dieta vegetariana oferece melhor mecanismo de defesa

Publicado em 19 julho 2020

A pesquisa foi financiada pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo

Diversos estudos científicos têm mostrado que indivíduos que seguem um padrão alimentar vegetariano (excluem o consumo de todos tipos de carnes) apresentam melhor controle de peso e menor risco de desenvolver hipertensão, diabetes, obesidade e vários tipos de câncer, quando comparado aos onívoros (consomem todos os grupos alimentares, incluindo as carnes). A proteção observada nos vegetarianos em relação às diversas doenças crônicas, levanta a hipótese que tais benefícios possam ser atribuídos a alta quantidade de nutrientes antioxidantes provenientes dos alimentos vegetais que estes indivíduos consomem.

Os antioxidantes, sejam eles adquiridos através da dieta ou produzidos pelo organismo (endógenos), são substâncias capazes de diminuir ou inibir a produção de espécies reativas de oxigênio (EROs), prevenindo o aumento descontrolado de estresse oxidativo. Dessa forma, uma diminuição nos níveis de antioxidantes e/ou a produção excessiva de estresse oxidativo no organismo podem desencadear uma série de processos patológicos associados a estas doenças.

Diante deste contexto, pesquisadores do Instituto de Biociências da Unesp de Botucatu avaliaram a concentração de uma enzima antioxidante, chamada heme-oxigenase-1 (HO-1). Ela está presente no plasma de onívoros e vegetarianos, bem como o efeito do plasma desses indivíduos em células endoteliais cultivadas em laboratório, uma vez que estas células compõem a camada interna dos vasos sanguíneos.

O estudo desenvolvido pela bióloga Naiara da Costa Cinegaglia, como parte de sua tese de doutorado em Biotecnologia, e coordenado pela Profª Valéria Cristina Sandrim, analisou resultados de 44 onívoros e 44 vegetarianos saudáveis, do sexo masculino. Os dados deste grupo foram obtidos a partir de um outro estudo realizado no Instituto do Coração (InCor) da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo, envolvendo mais de 700 pessoas.

Os resultados mostraram que a concentração de HO-1 estava aumentada nos onívoros quando comparado com os vegetarianos. Quando avaliado o efeito dos diferentes padrões dietéticos em células endoteliais, foi observado que o plasma dos onívoros, diferente dos vegetarianos, induziu um aumento nos níveis de HO-1 e de óxido nítrico (responsável pelo relaxamento dos vasos sanguíneos), além de estimular a produção de moléculas que indicam estresse oxidativo e morte celular.

Dieta e estresse oxidativo

Mas, se os indivíduos que participaram deste estudo são saudáveis, por que os níveis de HO-1 apresentaram-se aumentados no plasma dos onívoros em relação aos vegetarianos, e induziu modificações nas células endoteliais? Segundo Naiara, a relação entre o consumo de carnes e alimentos baseado em vegetais é bastante discutido na literatura científica. Estudos prévios demonstraram que o alto consumo de carne vermelha e processada aumenta os níveis de estresse oxidativo. Enquanto que o oposto foi observado quando se consumiu uma grande quantidade de vegetais, frutas e grãos integrais.

A produção de HO-1 no organismo é estimulada quando há excesso de estresse oxidativo nas células, inflamação crônica, hipertensão, entre outros estados patológicos. “O que chama atenção nos resultados obtidos é que os indivíduos incluídos no estudo são clinicamente saudáveis, não apresentam fatores de risco para doenças cardiovasculares, e ainda assim, os onívoros apresentaram maiores níveis plasmáticos de HO-1 em relação aos vegetarianos”, argumenta a pesquisadora.

Outra possível explicação para estes achados incluem os fatores dietéticos presentes nos alimentos de origem animal. A produção de HO-1 é induzida primariamente pelo seu substrato (ferro heme), uma molécula encontrada em carne vermelha e peixes. Por outro lado, o alto consumo de alimentos vegetais, ricos em antioxidantes, bem como a baixa oferta de ferro heme presente no padrão alimentar vegetariano, podem contribuir com a redução de estresse oxidativo e inibir a produção de HO-1 neste grupo.

Ou seja, os resultados do presente estudo mostraram que os mecanismos de defesa antioxidante são diferentes entre onívoros e vegetarianos. Fatores circulatórios presentes no plasma dos onívoros (como moléculas oxidantes e inflamatórias) podem promover um ambiente oxidativo, estimulando a defesa antioxidante e a produção de óxido nítrico como um mecanismo de proteção das células para minimizar os efeitos do estresse oxidativo. Os autores sugerem que seguir um padrão alimentar vegetariano saudável e equilibrado,pode contribuir com a proteção das células endoteliais.

A pesquisa foi financiada pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP) e seus resultados foram recentemente publicados na revista American Heart Association.

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