Notícia

USP - Universidade de São Paulo

Pesquisa da FZEA busca aproveitamento medicinal de resíduos de pitanga

Publicado em 22 julho 2010

Por Fabrício Oliveira

Os avanços na engenharia de alimentos permitiram que grandes indústrias de suco de laranja obtivessem o máximo aproveitamento de todos os seus resíduos, que hoje são nada mais do que subprodutos do processamento de suco. O sumo da fruta vira suco e essência, da casca se retira o óleo essencial, e o resultante do processo (basicamente celulose) é aproveitado na fabricação de ração animal. Na Faculdade de Zootecnia e Engenharia de Alimentos (FZEA) da USP, pesquisas buscam métodos para que com outras frutas tropicais aconteça aproveitamento semelhante.

Alessandra Lopes de Oliveira, professora da FZEA, tem como foco de suas pesquisas a utilização de resíduos da pitanga, proveniente do processo de fabricação do suco concentrado ou polpa congelada, principalmente em suas sementes. O objetivo é demonstrar que existem possibilidades para o maior aproveitamento dos resíduos da pitanga e que tais resíduos podem ser utilizados como matéria-prima para medicamentos e cosméticos. "As sementes de pitanga são dejetos da indústria de processamento, sem valor comercial. Quando trabalhei com a fruta, verifiquei que as indústrias que processam suco não utilizam as sementes, nem mesmo para ração animal", conta.

Ela ressalta porém, que há muitos anos a cultura popular e, mais recentemente, a ciência já estudaram as propriedades medicinais de infusões de folhas de pitanga, fruto hoje explorado economicamente apenas na região nordeste do país.

Brasil-França

A docente, que desde 2001 iniciou seus estudos com frutos tropicais, continuou as pesquisas mesmo como professora convidada por dois anos no Institute de Chimie Analytique et Organique, da Université d"Orléans, na França. A pesquisa atual se concentra principalmente em dois laboratórios, um nas dependências da FZEA, em Pirassununga, e outro na França.

No Brasil, a metodologia adotada foi o uso de CO2 supercrítico (SFE) na obtenção de extratos de sementes de Pitanga. Esse estudo é financiado pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp). Já na França, os extratos estão sendo obtidos pelo emprego de extração com fluido pressurizado (PFE), neste caso com o etanol. A professora explica que a escolha pelo uso de etanol no processo de PFE se deve à alta disponibilidade deste solvente no Brasil. Em ambas extrações, trabalha-se com solventes seguros para a saúde.

Resultados

Até agora os resultados apontam para um alto rendimento nos extratos obtidos, aproximadamente 15%. Os extratos são ricos em taninos de alto grau de polimerização com atividade antioxidante e a outra metade da fração deste extrato é basicamente constituída por duas espécies de moléculas, também com atividade antioxidante. "Neste momento estamos em fase de tentar descrever estas duas moléculas e, assim que tivermos este resultado, publicaremos o trabalho", informa a pesquisadora.

"Já concluímos que um dejeto sem valor comercial pode ser fonte elevada de concentração de compostos fenólicos com propriedades antioxidantes, mesmo superiores à algumas frutas classificadas como ricas nestes componentes. Assim este extrato poderá, depois de devidos estudos in vivo e in vitro, ser utilizado pelas indústrias farmacêutica e cosmética", diz Alessandra. "Eu espero que, com este trabalho, possamos incentivar a utilização do "lixo para produzir saúde" ".

Segundo a professora, as pesquisas no assunto também buscam demonstrar que a inovação tecnológica é fundamental na agregação de valor aos produtos agroindustriais.