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Jornal do Sudeste

Pesquisa cria curativo versátil à base de nanofibra e composto extraído do açafrão

Publicado em 13 agosto 2021

É do encontro da nanotecnologia com a biotecnologia, da combinação de compósitos biodegradáveis e de uma porção de curcumina, substância encontrada no pó dourado do açafrão-da-terra, que pesquisadores de São Carlos (SP) projetaram um novo modelo de curativo cutâneo multifuncional para tratamento de feridas. Além de driblar as limitações da curcumina, ele é capaz de liberar o princípio ativo contido no interior do curativo, de forma controlada, o que nem sempre ocorre em versões tradicionais.

Embora apresente diversas propriedades medicinais, como atividade bactericida, antioxidante e anti-inflamatória, a aplicação da curcumina é limitada por sua baixa solubilidade e fácil degradação na presença de luz. Para vencer essas barreiras, os pesquisadores criaram um nanomaterial baseado em membranas poliméricas bicamadas, compostas por fibras eletrofiadas de poliácido láctico e borracha natural.

O resultado obtido abre caminho para ampliar o uso de curativos multifuncionais nesse modelo, de liberação lenta de compostos bioativos para tratamento de queimaduras e úlceras, por exemplo.

Em ensaios de laboratório, o curativo evitou a penetração de bactérias por dez dias e demonstrou forte ação antibacteriana contra a Staphylococcus aureus, bactéria geralmente presente em feridas cutâneas e associada a infecções de pele.

O curativo pode ser disponibilizado como mantas de nanofibras, em diversos formatos, apropriado à aplicação em ferimentos cutâneos. Ao mesmo tempo em que protegem as lesões de ações externas, como exposição à luz solar e contaminação, o curativo também diminui a infecção por bactérias.

Já com pedido de patente depositado no Instituto Nacional de Propriedade Industrial (INPI), o próximo passo é prospectar parceiros interessados em avançar no desenvolvimento do produto e realizar testes em escala para entrada no mercado.

A equipe e a pesquisa

A pesquisa orientada pelo pesquisador da Embrapa Instrumentação (SP) Daniel Souza Corrêa, no âmbito da Rede Nacional de Nanotecnologia para o Agronegócio (Rede AgroNano), envolveu dois programas de pós-graduação da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar). No programa de Biotecnologia (PPGBiotec), Paulo Augusto Marques Chagas desenvolveu o estudo sobre o curativo cutâneo para obtenção do título de doutor.

A outra contribuição veio da química (PPGQ), com a participação do doutorando Rodrigo Schneider, além de Danilo Martins, pós-doutorando do Laboratório Nacional de Nanotecnologia para o Agronegócio (LNNA), sediado em São Carlos (SP), na Embrapa Instrumentação. Pesquisadores do Instituto de Física de São Carlos, da Universidade de São Paulo (IFSC-USP), participaram da caracterização dos materiais empregados no curativo.

O trabalho focou no desenvolvimento de mantas de fibras poliméricas obtidas pela técnica de eletrofiação a partir da blenda de polímeros, como poliácido láctico (PLA) e borracha natural (BN) contendo curcumina, com o objetivo de utilizá-las como curativos em feridas e auxiliar o processo de cicatrização. As nanofibras assimétricas são como uma estrutura 3D formada por uma manta eletrofiada de PLA, seguida da deposição de uma manta eletrofiada da mistura PLA/BN contendo diferentes concentrações de curcumina.

Os pesquisadores contam que o entendimento e controle da matéria na nanoescala, impulsionados pelos avanços nas pesquisas desenvolvidas pelo LNNA, possibilitaram o encontro de duas áreas do conhecimento: a de materiais e da biotecnologia.

Dessa união surgiu o curativo cutâneo, cuja pesquisa teve apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), da Coordenação e Aperfeiçoamento de Pessoal de nível superior (Capes) e do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq).

Os pesquisadores usaram a difusão em disco em Ágar, um método simples e semiquantitativo, para determinar a atividade antibacteriana contra a Staphylococcus aureus (foto ao lado), e testes utilizando peles de suínos para simular um modelo de ferida infectada.

Além de experimentos em escala laboratorial, para a confecção das membranas assimétricas que compõem os curativos, eles também realizaram testes in vitro para a comprovação da liberação da curcumina.

Os ensaios ainda asseguraram a fotoproteção (proteção contra a ação da luz) da curcumina - empregada como modelo de composto bioativo fotossensível encapsulado nas nanofibras - da proteção contra a entrada de bactérias externas através das membranas assimétricas formadas pelas nanofibras.

As próximas etapas envolvem buscas de parceiros para avanços nos estudos, visando comprovação da eficácia do curativo em testes in vivo e otimizações no processo para o escalonamento da produção do curativo.