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Brasil Econômico

Pesquisa confirma o etanol como um combustível limpo

Publicado em 01 novembro 2012

Por Cristina Ribeiro de Carvalho

Está comprovado, o etanol produzido a partir da cana-de-açúcar é um combustível limpo. Pesquisa desenvolvida pela Universidade Federal de São Carlos (UFSCar) em conjunto com o Instituto Agronômico de Campinas (IAC), unidades da Agência Paulista de Tecnologia dos Agronegócios (Apta) e o Centro de Tecnologia Canavieira (CTC), financiados pelo Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) revela que a quantidade de óxido nitroso (N2O), um dos gases responsáveis pelo efeito estufa, liberado na atmosfera durante o processo de produção da cana está abaixo do limite de 1% proposto internacionalmente pelo Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas (IPCC).

O pesquisador do IAC, Heitor Cantarella, observa que apesar de o percentual de emissão desse gás parecer pequena, ele chega a ser 30 vezes maior do que o gás carbônico.

Contudo, os estudos do IAC, APTA e UFSCar comprovaram que o fertilizante usado em cana-de-açúcar nos canaviais de Piracicaba e Jaú, onde os pesquisas foram conduzidas desde 2010, libera de 0,7% a 0,9% do gás. “Isso significa que estamos muito longe do limite de 1% e que a produção do etanol no Brasil é de fato sustentável”, argumenta.

Ainda de acordo com o cientista, este dado pode alavancar a produção da cultura e diminuir as barreiras internacionais ao etanol brasileiro. Ele lembra que são poucos os dados referentes à emissão de oxido nitroso por meio de aplicação de nitrogênio, principalmente na cultura de cana-de-açúcar para as condições paulistas, podendo-se dizer que este é um estudo pioneiro.

“Há muito interesse neste tipo de informação para a cana–de-açúcar porque um de seus principais produtos – o etanol – é usado para substituir combustíveis fósseis e, deste modo, reduzir as emissões de gases de efeito estufa”, aponta Cantarella, lembrando que se as emissões de tais gases associadas ao processo de cultivo de cana forem altas, perde-se parte da vantagem de substituir a gasolina pelo etanol.

Apesar de comemorar o indicador, Cantarella ressalta que o estudo avaliou também o volume palha sobre o solo nos canaviais, apontando que esse feito tende a aumentar as emissões. “Observamos que quanto maior a quantidade de palha, maior a emissão de óxido nitroso. Em canaviais com mais de 21 toneladas de palha por hectare, por exemplo, o fator de emissão foi de 2%. Porém, na maior parte dos canaviais, a quantidade de palha é inferior a esse valor, situação em que as emissões permaneceram dentro de padrões normais”, afirma.

A palha no canavial é decorrente da colheita mecanizada da cana-de–açúcar. Com a proibição de queimadas na colheita manual, as palhas são deixadas no campo funcionando como uma espécie de cobertura. Segundo Cantarella essa prática traz como benefício a diminuição das perdas de água, a preservação da umidade de solo – importante principalmente na época seca – e a reciclagem de nutrientes do solo.

Mas por conta dessa descoberta, Cantarella chama a atenção para o fato de o setor sucroalcooleiro e os técnicos terem de decidir, por algum critério, se vão retirar parte da palha e usá-la para outros fins ‘ou se vão deixar no solo para protegê-lo. “Nesta decisão, devem ser pesados tanto os aspectos positivos quanto os negativos na retirada do material dos canaviais. Os dados que obtivemos são uma informação a mais que deve ser pesada nesse processo de decisão”, afirma.

De acordo com o pesquisador do IAC, Marcos Guimarães de Andrade Landell, em 70% dos canaviais brasileiros são utilizadas máquinas na colheita. Estima–se que nos próximos cinco anos o percentual chegue a 100%. Outra decisão do setor diz respeito ao uso ou não da vinhaça – subproduto do etanol aplicado nos canaviais como fertilizantes.

A pesquisa do IAC, APTA, CTC e UFSCar revelou que as emissões de oxido nitroso atingiram cerca de 3% do nitrogênio quanto este foi aplicado em solo com vínhaça e alta concentração de palha. Esse processo ocorre porque a vinhaça e a palha são importantes fontes de carbono e acabam colaborando para que os micro-organismos presentes no solo provoquem a emissão de gases responsáveis pelo efeito estufa. Outros estudos estão sendo realizados para confirmar esses resultados.

Para resolver esses impasses, os pesquisadores já começam a pensar em soluções. Uma delas seria a utilização de aditivos juntos aos fertilizantes, o que poderia encarecer os custos de plantio. Para a palha, segundo Cantarella, a alternativa seria evitar que grandes quantidades permanecessem por muito tempo no campo.

“Temos que pensar em técnicas de manejo para tentarmos resolver essa situação. A palhada do canavial pode ser usada para produção de eletricidade ou até mesmo para produzir álcool de segunda geração, o chamado etanol de celulose, por isso, pode ser de interesse das usinas sua retirada, mesmo que parcialmente, do solo. No entanto, alguma palha tem que ser mantida”, explica o pesquisador.

Catarella observa novamente que no mundo todo há interesse em dados a respeito dos bicombustíveis. Por isso, ele destaca que ter resultados nas condições de cultivo no Brasil é de extrema importância para evitar que pesquisadores de outros países utilizem dados obtidos em outros locais e que nem sempre refletem os padrões relativamente favoráveis em que se cultiva cana no Brasil.

“O Brasil é o maior exportador de açúcar do mundo. O etanol abastece 50% da nossa frota de carros. Esses dados são, portanto, de grande relevância para o país e em especial para São Paulo, estado que produz 60% da cana brasileira”, conclui Cantarella.