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Jornal da Unesp online

Pesquisa com peixes traça novo caminho para detectar poluição em água

Publicado em 19 maio 2010

Por Cínthia Leone

Um experimento do Instituto de Biociências e Ciências Exatas (Ibilce), câmpus de São José do Rio Preto, estabelece novas diretrizes para investigar contaminação em ambientes aquáticos. O trabalho demonstra que a associação de diversos poluentes pode "mascarar" a presença uns dos outros ou potencializar seus efeitos tóxicos. Os resultados obtidos foram publicados na internet em janeiro, na revista científica americana Ecotoxicology and Environmental Safety, e devem circular na versão impressa nos próximos meses.

A pesquisa foi realizada por alunos de graduação e pós, orientados pelo professor Eduardo Alves de Almeida, todos do Ibilce. Sob o título Biochemical biomarkers in Oreochromis niloticus exposed to mixtures of benzo[a]pyrene and diazinon, o artigo relata a experiência feita em laboratório com grupos de tilápias do Nilo (Oreochromis niloticus). A espécie de peixe foi escolhida por ser uma das mais populares na piscicultura (criação de peixes) no Brasil. O professor Altair Benedito Moreira, da mesma unidade, também participou da experiência, monitorando a atuação desses compostos no metabolismo dos animais.

"O meio aquático é o destino final dos poluentes porque as chuvas arrastam toda a sujeira presente no ar e no solo", explica o professor Almeida. Por isso, os cientistas escolheram colocar nos aquários duas das substâncias tóxicas mais facilmente encontradas em rios e represas nos dias de hoje: benzopireno e diazinona.

O primeiro é um hidrocarboneto policíclico aromático, nome complicado, muitas vezes denominado apenas pela sigla HPA, ou PAH, em inglês. O composto é liberado pela combustão da gasolina, óleo diesel e carvão, por exemplo, e é extremamente tóxico, com potencial para causar mutações genéticas e câncer, segundo informa a Cetesb (Companhia Ambiental do Estado de São Paulo). A diazinona é um pesticida usado na agricultura. Contamina a terra e, conseqüentemente, o lençol freático e todas as fontes e rios ligados a ele.

Veneno "disfarçado"

Sessenta tilápias obtidas de um criadouro do interior do estado foram distribuídas proporcionalmente em dez aquários. Para não haver influência de gênero, apenas machos foram utilizados. Depois de um período de aclimatação, em que os peixes se acostumam com a temperatura e o PH da água, foi adicionada uma quantidade não letal de benzopireno em metade dos criadouros. Após três semanas, seis animais de um dos aquários que recebeu o poluente e outros seis que estavam em água limpa foram anestesiados e tiveram seus fígados, brânquias e cérebros coletados.

Metade dos oito grupos que sobraram receberam diferentes doses de diazinona, dois deles já continham benzopireno. Foi com essa tática que os cientistas conseguiram verificar a interferência de um poluente sobre o outro. Em períodos de dois e de sete dias expostos à mistura, as víceras desse grupo de peixes foram dissecadas e, a partir das amostras, diferentes níveis de alterações metabólicas e neurológicas puderam ser confirmados.

No experimento, a diazinona reduziu os parâmetros bioquímicos ativados pelo benzopireno, dificultando sua detecção. Mas ao mesmo tempo em que "disfarçou" o efeito do hidrocarboneto, o pesticida também potencializou seu metabolismo, o que ficou evidente com o aumento de benzopireno na bile dos peixes. "Os métodos de investigação de contaminação na água devem passar a seguir a perspectiva de que há essa interação entre os agentes contaminadores", afirma Almeida.

Todo o trabalho seguiu as determinações brasileiras sobre bem-estar animal em experimentos científicos. Não foi possível determinar se o veneno persiste na carne desses peixes, nem se o fato de comê-los poderia fazer mal. "Para isso, seria necessário um outro estudo, que só pode ser feito por especialistas em composição química dos alimentos", esclarece o pesquisador.

Impacto do Biodiesel

A partir dos resultados dessa primeira análise, o grupo de Almeida está desenvolvendo mais investigações sobre as associações entre outros agentes contaminadores, como metais e hormônios. Umas das integrantes da equipe, a doutoranda Aline Cristina Ferreira Rodrigues, desenvolve uma pesquisa de campo em que mergulhará gaiolas com peixes ao longo do Rio Preto. Os pontos escolhidos do rio são próximos a canaviais, a locais de prática da aqüicultura (cultivo de seres aquáticos) e a áreas urbanas, o que possibilitará descrever a influência de cada uma dessas atividades sobre os recursos hídricos.

Outra pesquisadora do grupo, Lucilene Regina Maschio, deve expor, em laboratório, tilápias a diferentes concentrações de água da represa que abastece a cidade de São José do Rio Preto. O trabalho é parte de seu pós-doutorado e prevê coletas em quatro diferentes pontos do reservatório.

Almeida também encabeça um trabalho sobre o impacto do biodiesel na diminuição da toxicidade do diesel derivado de petróleo. O estudo tem início programado para 2011 e seu custeio foi recém-aprovado pela Fapesp (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo). Segundo o professor, o mundo tem apenas um estudo desse tipo, feito no Canadá, com a utilização de crustáceos. "Há indicativos de que a combinação dos dois óleos diminui bastante a presença de substâncias nocivas", diz o pesquisador. O foco dos especialistas será apontar a proporção ideal dessa mistura, do ponto de vista ambiental.