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Jornal do Comércio (AM)

Pesquisa busca relação entre raios e clima

Publicado em 18 fevereiro 2010

Nos últimos dez anos cerca de 57 milhões de raios caíram no Brasil e 1.321 pessoas morreram vítimas desse fenômeno natural. Esses números, reunidos pelo Elat (Grupo de Eletricidade Atmosférica) do Inpe/MCT (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais), colocam o país no topo da lista mundial de incidência de descargas atmosféricas e indicam que o fenômeno está aumentando.

O crescimento no número de descargas pode estar relacionado com alterações no clima do planeta. Pesquisadores estimam que cada grau a mais registrado na temperatura global pode ocasionar um aumento de 10% a 20% na incidência de raios. Mas, por enquanto, isso é apenas uma hipótese.

Fazer um amplo estudo sobre os fatores climáticos que podem afetar a ocorrência de raios no país é a proposta do Projeto Temático Impacto das mudanças climáticas sobre a incidência de descargas atmosféricas no Brasil, apoiado pela Fapesp (Fundação de Apoio a Pesquisa do Estado de São Paulo). Iniciado em dezembro passado e com previsão para durar até o fim de 2013, a pesquisa é liderada por Osmar Pinto Júnior, coordenador do Elat.

Segundo ele, a motivação do trabalho surgiu em 2007, após uma conferência do IPCC (Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas) da ONU (Organização das Nações Unidas). "No encontro, foi levantada a hipótese de que os raios aumentariam o efeito estufa ao provocar mais incêndios em florestas, que por sua vez liberariam mais dióxido de carbono (CO2), alimentando um ciclo contínuo", diz.

O que incomodou o grupo do Elat foi não haver evidências conclusivas para confirmar ou denubar a hipótese, nem dados sobre a relação entre mudanças climáticas e o aumento no número de raios.

Para investigar a questão, o projeto tomará como base três fontes principais de dados: a Rindat (Rede Integrada Nacional de Detecção de Descargas Atmosféricas), informações de satélite e registros do número de dias de tempestade. "Cada uma dessas fontes tem vantagens e desvantagens que devem ser consideradas", aponta Pinto Júnior.

De acordo com ele, a Rindat oferece informações precisas, mas a rede mudou ao longo do tempo e, por isso, há dados de tipos diferentes a analisar. Além disso, o sistema é recente, tem apenas dez anos, e cobre apenas parte do país - as regiões Sul e Sudeste e parte do Centro-Oeste.

"Apesar da longa cobertura, os registros não são constantes e apresentam várias lacunas ao longo desses mais de dois séculos de registros. Alguns trabalhos de monitoramento foram simplesmente abandonados após alguns anos, porque não se imaginava que o clima mudaria", diz Pinto Júnior.

Para os analistas da época, o levantamento feito ao longo de 10 ou 15 anos poderia ser extrapolado e valeria indefinidamente, uma vez que o clima seria sempre estável, segundo se imaginava.

Para analisar essa montanha de informações, o Inpe dispõe de parcerias com quatro instituições dos Estados Unidos: a Agência Espacial Norte-Ameri-cana (Nasa), o Instituto de Tecnologia de Massachusetts, a Administração Nacional Oceânica e Atmosférica e a Universidade do Arizona. "Os pesquisadores dessas instituições discutirão conosco as interpretações dos dados", informa.

Pesquisadores estimam que cada grau a mais registrado na temperatura globalpode ocasionar um aumento de 10% a 20% na incidência de raios. Somente nos últimos dez anos cerca de 57 milhões de raios caíram no Brasil, segundo o Inpe.