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Jornal do Commercio (PE) online

Pesquisa busca identidade dos afro-brasileiros

Publicado em 22 abril 2007

A análise genética de algumas populações autodeclaradas negras nas cidades de São Paulo, Rio e Porto Alegre está ajudando a reformular a história oficial do tráfico de escravos da África para o Brasil. Registros dos navios negreiros que aportaram no País até 1850 declaram que a maior parte dos africanos que foram trazidos para cá era proveniente da região centro-ocidental do continente (em especial de Congo e Angola). Mas, ao comparar o padrão de alterações genéticas compartilhado por africanos e brasileiros, cientistas descobriram que os países da África ocidental tiveram uma participação maior que a imaginada.

Em média, os historiadores consideram que a região delimitada por Senegal e Camarões forneceu entre 8% e 10% dos escravos que vieram para o Brasil. No entanto, ao analisar amostras de sangue das três capitais, os geneticistas Sergio Danilo Pena, da Universidade Federal de Minas Gerais, e Maria Cátira Bortolini, da Federal do Rio Grande do Sul, encontraram uma porcentagem bem maior.

Nos 120 paulistas analisados, a equipe de Pena descobriu que 43,1% apresentavam material genético típico do oeste africano. Com voluntários do Rio e de Porto Alegre, Maria Cátira encontrou respectivamente 31% e 18% de traços da costa oeste africana. Os estudos já foram submetidos a publicações científicas e estão descritos na edição deste mês da revista Pesquisa Fapesp (www.revistapesquisa.fapesp.br).

Alguma discrepância já era esperada por historiadores, uma vez que os dados oficiais são incompletos. "Em 1815, o tráfico da África ocidental foi proibido, mas os contrabandistas continuavam passando por lá. Eles informavam que iam até Angola, mas no caminho desviavam para a Nigéria, pegavam alguns escravos, mas os cadastravam como angolanos", conta o historiador Manolo Florentino, da Universidade Federal do Rio de Janeiro.

A presença mais significativa de traços genéticos da África ocidental em São Paulo se explica, segundo Pena, porque o fornecimento de escravos para o Estado saiu do Nordeste. Os portos do Recife e Salvador receberam mais negros daquela parte da África, enquanto o do Rio foi mais abastecido com povos do centro-oeste.

Dois fatores explicam a migração interna para o Sudeste, de acordo com Florentino. Por questões culturais, os povos iorubás (da Nigéria) tinham um comportamento mais proativo na tentativa de conseguirem a alforria. Se conseguissem juntar dinheiro equivalente ao valor pago por eles, conquistavam a liberdade.

Em um segundo momento, quando a cultura de cana-de-açúcar entrou em decadência, os escravos foram vendidos para São Paulo e Rio para trabalhar nas fazendas de café.