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Pesquisa: bom investimento!

Publicado em 12 março 2012

SÃO JOSÉ DOS CAMPOS - As novas regras para permitir credenciamento e funcionamento de instituições de ensino superior no Brasil devem favorecer, a partir de 2016, a área de pesquisa, historicamente carente na maioria das faculdades dopais.

A resolução homologada no fim de 2010 pelo Ministério da Educação exige pelo menos quatro cursos de mestrado e dois de doutorado até 2016 para as novas universidades -que pleiteiam uma fatia do volumoso bolo do mercado - e também para aquelas antigas, que simplesmente querem manter suas portas abertas.

Além de expandir ofertas de cursos de educação continuada, a nova lei deve proporcionar, indiretamente, mais incentivo para a iniciação científica.

"É caro manter os programas de mestrado e doutorado e também é difícil conseguir alunos. Mas é mais fácil para a universidade que já tem o programa de iniciação científica, pois é mais provável que o aluno-pesquisador migre para o mestrado, pois ele vai querer aprofundar a sua linha de pesquisa", afirmou Rodrigo Capelato, diretor executivo do Semesp, o sindicato das universidades particulares do Estado, na revista oficial publicada pela entidade.

Novos tempos. Em época de expansão do ensino superior no Brasil, o incentivo à pesquisa vem aumentando nas entidades particulares, até como forma de garantir mais credibilidade junto ao mercado.

Outro dado importante é que o investimento em pesquisa é considerado um dos meios mais eficazes no combate à evasão escolar no ensino de nível superior.

"Investir em IC (iniciação científica) significa apoiar a pesquisa, acreditar que a ciência pode contribuir para o avanço da sociedade. Claro que os resultados aparecem, como, por exemplo, melhores conceitos nas avaliações dos cursos", cita Sandra Costa, diretora do IPeD (Instituto de Pesquisa e Desenvolvimento) da Univap em São José, mestre pelo ITA, com doutorado pela USP e pós-doutorado pela Universidade de Indiana. (EUA).

A professora doutora também vê com bons olhos as novas regras do MEC. "Para as universidades continuarem cadastradas como tal é condição sine qua non investir em pesquisa. Portanto, as que se autodenominam assim, sem apoiar a pesquisa, estarão fazendo propaganda enganosa", ressalta Sandra.

Antes mesmo do crescimento esperado para 2016, programas de iniciação científica vem ganhando destaque, inclusive nas melhores escolas de nível superior do país.

A USP (Universidade de São Paulo) realiza desde 1993 seu Simpósio Internacional de Iniciação Científica A pró-reitoria de pesquisa da USP afirma que o número de trabalhos apresentados e de alunos envolvidos "vem aumentando progressivamente ao longo dos anos". Já outra universidade de primeira linha, a Uni-camp (Universidade Estadual de Campinas), comemorou em 2011 recorde de trabalhos inscritos: 1.300. Nessas duas universidades, os eventos já atingirama Medição.

Particulares

No ensino particular, a Univap, em São José, é um exemplo do aporte em IC. Desde 1998, a universidade organiza o Inic Univap, para expor ações. O número de trabalhos saltou de 100 para quase 1.000, segundo a universidade.

A Univap também oferece bolsa, de iniciação científica. O próprio sindicato das universidades, o Semesp, organiza o Conic (Congresso Nacional de Iniciação Científica). Na 11a edição, em 2011, também houve recorde: 1.800 projetos.

Em congressos como o Conic há premiações em dinheiro. A opinião unânime, porém, é que o maior prêmio é justamente o despertar dos alunos para a formação científica, que costuma deixar bônus em toda a sua trajetória profissional e ganhos para a sociedade.

Bolsista quer "fazer carreira"

A Joseense Monique Bruna Silva do Carmo, 21 anos, é a típica estudante de iniciação científica. Jovem, solteira, mora com os pais, não trabalha e não tem filhos, a universitária dedica seu tempo integralmente para os estudos.

Aluna do último ano de Geografia, na Univap (Universidade do Vale do Paraíba), Monique descobriu no primeiro ano do curso a existência da modalidade de pesquisa acadêmica desenvolvida por alunos da graduação.

"Nunca tinha ouvido falar em iniciação científica No primeiro dia de aula na faculdade, o professor colocou todas as atividades curriculares ao longo do curso e falou sobre o projeto de pesquisa. Fiquei interessada", recorda-se.

O projeto. No final daquele primeiro ano, a aluna elaborou a proposta de trabalho com o nome "Estudo dos Condomínios Horizontais Fechados e Loteamentos Fechados no Município de Caçapava: Uma Análise Multitemporal".

Dos 18 estudantes da sala de Monique, três optaram pela iniciação científica. "Vi nessa oportunidade a possibilidade de desenvolver uma carreira acadêmica. É o futuro de quem quer crescer e se desenvolver dentro da instituição", explica.

A proposta de pesquisa elaborada pela aluna foi aprovada pela diretora do IPeD, Sandra Costa, e encaminhada para a Fapesp (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo), órgão que concede as bolsas-auxílio. O projeto de Monique foi aceito. "Geralmente, a Fapesp concede um ano de bolsa e dificilmente esse prazo se renova, mas comigo foi diferente, consegui renovar por mais um ano", orgulha-se.

A renovação da bolsa acontece mediante avaliação do currículo e do histórico do aluno. Monique recebe uma bolsa de exclusividade que determina que ela dedique três dias na semana para desenvolvimento da pesquisa. A ajuda em dinheiro proporcionada pela bolsa da Fapesp é de R$ 512, reajustável anualmente. O valor é depositado na conta da aluna e pode ser gasto da maneira que a bolsista achar mais conveniente.

Estudante defende mais divulgação

O trabalho de pesquisa realizado por Monique Bruna Silva do Carmo envolve, na prática, muita leitura, participação em congressos e seminários, além do trabalho de campo para realização de pesquisas com a população.

"Faço o mapeamento da cidade (Caçapava) e o registro dos locais por meio de fotos, além de conversar muito com os moradores", relata. A estudante também precisa elaborar relatórios, descobrir por quês e chegar a conclusões. "Minha pesquisa também será o tema do meu TG (Trabalho de Graduação)", diz.

A bolsa de Monique é individual, o que significa que ela faz todo o trabalho sozinha. Para a estudante, poucos alunos ficam sabendo da existência da iniciação científica nas instituições. "É muito vantajoso, digo que vale a pena Acho que é obrigação das universidades divulgar as bolsas, incentivar e apoiar os alunos no desenvolvimento das pesquisas", conclui a bolsista.

Iniciação científica dá bônus

Os ganhos educacionais para o aluno que ingressa em iniciação científica são inegáveis e costumam ter reflexos pelo resto de suas trajetórias estudantil e profissional.

Durante a pesquisa, o estudante tem seu primeiro contato com a atividade científica, capaz de engajá-lo em trabalhos que primam pela qualidade acadêmica e mérito científico. Muitos até se descobrem no IC como futuros acadêmicos e se beneficiam, mais tarde, em cursos de mestrado e doutorado, por já terem lidado com métodos de pesquisa na faculdade. Aos que irão para o mercado de trabalho fora das universidades, fica a vantagem de jápossuírem um diferencial inovador.

"Ingressar na iniciação científica é um importante passo para o aluno de graduação. Ao se tornar bolsista de iniciação científica, ele aprende a importância da pesquisa para o desenvolvimento da sociedade, desenvolve habilidades que não estão disponíveis na sala de aula", cita a diretora do IPeD (Instituto de Pesquisa e Desenvolvimento) da Univap, Sandra Costa.

Sandra ressalta que o perfil do aluno-pesquisador acaba sendo, ao longo do tempo, mais distinto dos demais estudantes. "Esse aluno de IC torna - se mais independente, mais questionador, um observador mais crítico", exemplifica.

O trabalho em conjunto com o professor-orientador também tem seu peso. "A pesquisa só faz sentido quando aprendemos a trabalhar em parceria, quando formamos profissionais que atuarão no mercado, disseminando seu conhecimento, ou seja, o conhecimento adquirido por meio da pesquisa", afirma Sandra. "Não quero dizer com isso que alunos que não se envolvam não tenham esta capacidade. Claro que têm. Entretanto, por experiência própria, sabemos que os alunos de iniciação científica se tornam profissionais diferenciados", conclui.

Jovens e solteiros dominam o setor

Pesquisa do Semesp confirmou o que a comunidade acadêmica já percebia como sendo um dos grandes entraves para o engajamento do aluno na iniciação científica: muitos estudantes não se dedicam à atividade de pesquisa por falta de tempo.

O Sindicato das Entidades Mantenedoras de Estabelecimentos do Ensino Superior no Estado de São Paulo traçou ò perfil do estudante de iniciação científica (confira quadro ao lado) e apontou que pessoas solteiras, com idades de 21 a 30 anos, formam o contingente mais comum dos novos pesquisadores do país.

Esses dados são indicativos de que a maior disponibilidade de tempo por parte das pessoas que ainda não constituíram família influi diretamente no envolvimento dos estudantes com IC. m

Outro indicador que aponta a importância do tempo mais livre para os estudos é que na rede pública, onde é bem menor o número de estudantes que trabalham, 32,1% dos alunos disseram que dedicam mais de oito horas de estudos semanais fora do horário de aula. O tempo extra cai para 25,7%nas particulares.

O estudo tem como base os 2.641 estudantes que apresentaram trabalhos no 11° Conic (Congresso Nacional de Iniciação Científica), pertencentes a universidades públicas e particulares de norte a sul do país.

Com 57% de participação, mulheres superam homens em iniciação científica. Esse porcentual, segundo o Semesp, acompanha o número também maior de mulheres nos cursos superiores do Brasil.