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Correio Popular

Pesquisa apura desnutrição em crianças

Publicado em 18 novembro 2001

Por Maria Teresa Costa - Do Correio Popular - teresa@cpopular.com.br
As crianças que moram nos bolsões de pobreza de Campinas têm consumo totalmente inadequado de micronutrientes essenciais, como cálcio, fósforo, ferro e zinco, vitamina A, tiamina, vitamina C, o que leva as crianças a um grau de desnutrição importante. "Hoje, temos um índice de desnutrição nos bolsões de pobreza de Campinas comparável aos índices de desnutrição do Brasil de 10 anos atrás", afirma a nutricionista Semíramis Martins Álvares Domene, que está avaliando o cardápio e o estado nutricional de crianças e adolescentes atendidos pelo Programa Nacional de Alimentação Escolar (Pnae) nas regiões mais carentes de Campinas. O Pnae é um programa governamental defasado: ele repassa aos municípios o equivalente a R$ 0,13 por criança por dia, com a exigência de fornecimento de uma refeição diária satisfatória. "Com esse recurso, é difícil atender a exigência de uma alimentação satisfatória. Os municípios tentam utilizar "alimentos dê alta densidade nutricional, mas as nutricionistas têm que ser muito criativas", diz Semíramis. Ela lembra, por exemplo, que a exigência técnica do Pnae é que a merenda forneça 350 calorias e 9 gramas de proteína por refeição. "Basta dar uma gelatina que essa exigência é atendida", compara. O projeto, em parceria com a Secretaria Municipal de Educação, está sendo financiado pela Fundação de Amparo a Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) e deverá ser concluído em 2003, com a formulação de políticas públicas que orientem a aquisição de alimentos e a formulação de cardápios da merenda escolar oferecidas nas escolas públicas brasileiras. Na primeira fase do projeto, Semíramis, que é professora titular do Curso de Nutrição da Faculdade de Ciências Médicas da PUC-Campinas, avaliou o estado nutricional e a alimentação recebida por 17 pré-escolares e escolares da Vila União, uma das 28 regiões de Campinas com bolsões de pobreza. O resultado encontrado na primeira amostragem é preocupante: 82% dos escolares têm consumo inadequado de energia, mas apenas 6% tem consumo inadequado de proteína. "Proteína não é um problema importante do ponto de vista, quantitativo. Mas para vitaminas e minerais, a situação que encontramos é séria", afirma. Em relação aos minerais, 100% das crianças têm consumo, inadequado, levando em consideração o que comem durante todo o dia, incluindo a merenda e a alimentação em casa. Semíramis encontrou consumo inadequado de cálcio, fósforo, ferro e zinco em todas as crianças. Em relação às vitaminas, o consumo também é crítico: 53% das crianças têm consumo inadequado de vitamina A, 65% de tiamina e vitamina C, e 75% tem consumo inadequado de riboflavina. A pesquisa mostrou também um quadro nutricional preocupante a partir de dosagem bioquímica: 11,8% das crianças têm deficiência de zinco, 42% de ferro e 6% de vitamina A. "Independente da forma de gestão, a alimentação escolar poderia garantir algum aumento na densidade nutricional e essa é uma das propostas desse projeto, feito em parceria com a Secretaria de Educação", afirma. A segunda fase do projeto, já aprovada pela Fapesp, vai ampliar o número de crianças que serão avaliadas, e as regiões. Semíramis informa que das 28 regiões com bolsões de pobreza em Campinas, o programa selecionou três para o inquérito nutricional: Jardim São Marcos, Jardim Florence e Jardim Bandeiras/São José. FALTA ZINCO NA MERENDA ESCOLAR Os alimentos que integram a alimentação escolar das escolas públicas de Campinas têm baixa densidade nutricional, conforme a análise da nutricionista Semíramis Domene. A primeira investigação foi sobre o teor de zinco que os alimentos da merenda contém e a surpresa foi constatar que há bem menos quantidade do mineral do que deveria existir. O zinco é mineral essencial para um sistema imunológico saudável e para a resistência a infecções. O problema não é a forma como a merenda é preparada, mas a baixa densidade nutricional dos alimentos. A explicação para isso pode estar na agricultura. "A quantidade de minerais nos alimentos depende muito do teor de minerais no solo. Temos práticas agrícolas ainda muito rudimentares, com o uso intensivo de queimadas, e isso empobrece muito o solo", avalia. Os alimentos de origem vegetal, têm reflexo direto do tipo de solo. Mas os de origem animal também. O gado se alimenta do pasto, mas o frango se alimenta de ração. Por isso na carne de frango da merenda escolar tem quantidade de zinco semelhante à prevista na tabela inglesa. "Analisamos os alimentos da merenda, mas eles são uma amostra dos alimentos usados no Brasil", afirma a pesquisadora. Ela comparou o conteúdo de zinco encontrado nos alimentos usados em Campinas com o que deveria ter, segundo uma tabela inglesa (de Holland e colaboradores, de 1993). O Brasil não tem, ainda, uma tabela de composição dos alimentos. A sopa, conforme a tabela inglesa, deveria ter 0,3 miligrama de zinco por 100 gramas de sopa, mas nesse alimento servido na merenda a quantidade ficou abaixo do limite de detecção. No leite, que deveria ter 0,4 foi encontrado apenas 0,05 miligramas de zinco por 100 gramas do produto; na carne moída, onde deveria ter 5,8 miligrama de zinco havia apenas 2,12; na seleta de legumes, de 0,4 ideais existia apenas 0,01; no feijão foi encontrado 0,029 contra 0,5 previsto na tabela inglesa. O frango foi o único que ficou com valores próximo: a análise encontrou 2,43% de zinco e a tabela apregoa 2 %. REFORÇO ESTÁ PREVISTO PARA MARÇO Estudantes das escolas públicas de Campinas situadas em bolsões de pobreza começam, a partir de março, a receber uma alimentação diferenciada. São estudantes pobres, com riscos de desnutrição associados à pobreza em que, em muitos casos, a merenda servida na escola é a única refeição que eles têm no dia. Pelo menos 20% das 351 escolas das regiões Leste, Norte e Sul, onde estudam cerca de 100 mil alunos, terão merenda reforçada em quantidade e qualidade. Essas escolas são as primeiras em que a alimentação escolar volta a ser fornecida diretamente pela Prefeitura. Até 2003, quando vencem todos os contratos de terceirização do fornecimento de refeições às escolas, a merenda estará totalmente municipalizada. "Queremos garantir que a alimentação seja adequada era quantidade e qualidade e atenda as necessidades nutricionais dos estudantes", diz a nutricionista e assessora do Departamento de Administração da Secretaria Municipal de Educação, Rosana Maria Nogueira. GERENCIAMENTO O Programa de Alimentação Escolar está passando por reformulação no seu sistema de gerenciamento. No novo modelo, explica Rosana, a Ceasa passará a ser responsável pela aquisição e distribuição dos gêneros alimentícios A Secretaria Municipal de Educação, por sua vez, continuará responsável pelo gerenciamento geral do programa, elaboração do cardápio e supervisão. Além disso, ela desenvolverá um projeto de educação nutricional junto às escolas da Rede Municipal visando a formação de hábitos alimentares adequados. As escolas localizadas em bolsões de pobreza terão atenção especial: elas fornecerão duas refeições por dia aos estudantes, com um cardápio mais rico em quantidade e qualidade. O cardápio atual, conforme a assessora da Secretaria de Educação, tem falta de variedade e de quantidade de alimentos. Por exemplo, frutas são servidas, mas não de forma regular. No ensino fundamental, as frutas são servidas, em menor quantidade que na educação infantil. Há fornecimento de alimentos in natura mas em quantidade e qualidade não satisfatórias. O novo cardápio que está sendo organizado, será alterado semanalmente, de forma que os estudantes recebam arroz, feijão, carne, legumes, verduras e frutas variadas. "Hoje, além de micronutrientes, a merenda tem falta também dos macronutrientes, como calorias e proteínas", diz a nutricionista da Prefeitura. (MTC)