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Jornal da Unicamp online

Pesquisa analisa alcance da divulgação científica na rede

Publicado em 31 outubro 2014

Por Patrícia Lauretti

Como deveria ser o site de um importante projeto para avaliação dos impactos das mudanças climáticas na agricultura do Brasil, mais especificamente relacionadas ao setor sucroalcooleiro? Ou, em última instância, como se comportam as notícias de divulgação científica nas redes sociais? As perguntas nortearam a pesquisa de mestrado de Marcos Rogério Pereira, trabalho vinculado ao projeto científico “Geração de cenários de produção de álcool como apoio para a formulação de políticas públicas aplicadas à adaptação do setor sucroalcooleiro nacional às mudanças climáticas” – AlcScens -, que integra o Programa Fapesp de Pesquisa sobre Mudanças Climáticas Globais.

Marcos integra o grupo de pesquisas da Unicamp e, em 2011, trabalhou no desenvolvimento de um site para o projeto. A página foi reformulada três vezes ao longo de sua investigação acadêmica, e passou a alimentar redes sociais, blogs e microblogs interativos, sites de vídeos, para compartilhamento de artigos, fotos, imagens e áudio, além da publicação de artigos eletrônicos. “Foi um desafio que ganhou novos ares por estar relacionado à produção e divulgação das informações científicas, por envolver a participação de uma equipe interdisciplinar de pesquisa, além da popularização de novas ferramentas de publicação online”, explica.

O AlcScens é constituído de 10 núcleos temáticos compostos de pesquisadores brasileiros de diversos centros e núcleos interdisciplinares de pesquisa, além de institutos e faculdades, não só da Unicamp, como também estudiosos da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) e da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG).

Um dos núcleos é o de divulgação científica, onde Marcos atua. A dissertação foi desenvolvida no âmbito do Laboratório de Estudos Avançados em Jornalismo (Labjor), vinculado ao Instituto de Estudos da Linguagem (IEL). A orientadora, professora Vera Regina Toledo Camargo, salienta que o Programa Fapesp, ao qual está ligado o AlcScens, foi um dos primeiros que contemplou a área de divulgação científica dentro de mudanças climáticas. “A divulgação abrange todos os grupos temáticos, alinhavando-os. Por isso é de fundamental importância, tanto internamente, entre os pesquisadores, como externamente, difundir o conhecimento para a sociedade”, diz Vera.

Marcos acrescenta que ainda é raro que centros produtores de ciência e tecnologia contemplem a divulgação científica como estratégica de diálogo com o público leigo. Nesse contexto, o pesquisador considera inovador o fato de o AlcScens contar com esta equipe.

 

Projeto temático

A agricultura e a pecuária são atividades que dependem diretamente das condições ambientais e, portanto, seu desempenho é bastante afetado pelas mudanças climáticas. A cana-de-açúcar se destaca, sobretudo, devido à ampliação da utilização de álcool combustível no Brasil e no mundo, como forma de mitigação das emissões dos gases de efeito estufa (GEE). Se por um lado, há grande interesse no aumento das áreas de plantio, de outro, há várias restrições justificadas pelos impactos possíveis no meio ambiente, na segurança alimentar e nutricional, na dinâmica demográfica e na saúde humana e, também, as preocupações sobre os efeitos das mudanças climáticas na agricultura.

Os pesquisadores do projeto preocupam-se com o planejamento dessa expansão, assim o AlcScens envolve especialistas de várias áreas do conhecimento, como climatologia, dinâmica demográfica, segurança alimentar e nutricional, políticas públicas, geoprocessamento, meio ambiente, saúde humana e desenvolvimento científico e tecnológico, além da divulgação científica.

O escoamento de toda a produção científica envolvida no projeto deveria ser planejado de forma a atender qualquer pessoa que buscasse informações sobre ele e por meio de qualquer dispositivo ou plataforma, como celulares e tablets. “Daí a proposta de se construir um site acessível, objetivo e fácil de usar, ou seja, entendendo-o como um instrumento de divulgação científica, que procurasse tornar as informações disponíveis para o máximo de pessoas, além de facilitar o acesso ao conhecimento produzido”.

 

Acessibilidade na web

Foram adotadas as recomendações do Modelo de Acessibilidade em Governo Eletrônico - o e-MAG, que, por sua vez, está alinhado às recomendações internacionais, mas também estabelece padrões de comportamento acessível para sites governamentais. “As ferramentas e atalhos de navegação do site passaram a oferecer opções os recursos de usabilidade, como maior facilidade de uso, padrões de cores e tipografia, além de texto de fácil leitura, títulos e tópicos claros e em destaque, ou seja, uma navegação simples e intuitiva que contempla ainda recursos técnicos de acessibilidade como títulos hierárquicos, textos alternativos para imagens, navegação pelo teclado ou navegação com outras tecnologias de apoio, esquema de cores e contraste para ajudar na legibilidade”.

Segundo o pesquisador, geralmente, quando um site é criado, imagina-se que o internauta irá navegar por todas as informações disponíveis na tela. “Na verdade, em algum momento a pessoa vai clicar no assunto que lhe interessa. Em um trabalho com muitas imagens, a informação fica menos destacada. Por isso removemos muitas imagens para dar destaque aos textos e assim a pessoa tem acesso direto à informação que procura”.

No celular, o site também mantém todos os recursos. “Chamamos esse design de ‘responsivo’. Trata-se de umapproach que permite um nível de acesso às informações e serviços web independente do dispositivo que a pessoa está usando, uma vez que a experiência de visualização é a mesma de um monitor de computador”, ressalta.

Marcos salienta os dados da pesquisa que compravam a importância da acessibilidade. Uma página inclusiva significa, de acordo com o autor, tornar disponível seu conteúdo para quase 46 milhões de brasileiros, ou 24% da população total, que possuem algum tipo de deficiência. As informações são do Censo de 2010 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Também, segundo o estudo, “Panorama do Brasil na Internet”, 28% dos brasileiros com idade entre 45 e 59 anos costumam navegar na internet, porcentagem que chega a 12% considerando apenas os brasileiros com 60 anos ou mais.

 

Redes sociais on line

A divulgação científica do AlcScens também passa pelas redes sociais, especialmente o facebook, cuja página é atualmente administrada pelo coordenador do projeto, o pesquisador Jurandir Zullo. “Foi um dos primeiros objetos de estudo. Percebi que a rede social estava se transformando em uma rede movida pela publicidade. E, então, em determinado momento, as publicações que fazíamos do projeto começaram a ter seu alcance reduzido”, ressalta Marcos. A reflexão a partir daí foi se a informação científica não gerava interação no facebook ou se, afinal, as pessoas não teriam mesmo interesse no assunto. “E tem interesse”, afirma.

O autor da dissertação decidiu fazer um teste com uma publicação patrocinada, ou seja, pagou uma quantia para que o post do projeto circulasse na rede. “Foram milhares de visualizações e curtidas, o que nos fez pensar até que ponto isso é válido ou não no caso da divulgação científica, se é válido pagar para ter a informação difundida pela rede”.

Há páginas na rede social voltadas à divulgação da ciência, com quase meio milhão de usuários. Mas embora reconheça o papel do facebook como forma de dar visibilidade à informação científica, Marcos ressalta a importância da fonte primária, como é o caso de um website. “Nosso site é o resultado de uma experiência de divulgação científica que procurou preservar e disseminar informações científicas na internet, geradas pelo grupo de pesquisas. As pessoas têm interesse em informação de qualidade e textos bem escritos”.

O autor destaca o reconhecimento do trabalho de divulgação do projeto: “O Blog do Clima, do site Planeta Sustentável, um dos mais importantes na área de mudanças climáticas no Brasil, já cita o projeto como uma das principais iniciativas da área de mudanças climáticas no Brasil. Para chegar nesse reconhecimento, você precisa ter um site de informação de qualidade, confiável e que sirva de referência em um ambiente repleto de informações conflitantes, que é a internet”.