Notícia

UOL

Pesquisa amplia leque de substâncias promissoras contra doença de Chagas

Publicado em 09 maio 2020

Por Henrique Fontes, Jornal da USP

O time de substâncias promissoras contra a doença de Chagas ganhou novos integrantes, segundo um novo estudo realizado pelo Instituto de Química de São Carlos (IQSC) da USP. Após análises e testes realizados com dezenas de substâncias, três delas se mostraram eficientes no combate ao Trypanosoma cruzi, parasito causador da doença. Os resultados obtidos pelos pesquisadores foram descritos no artigo publicado na PLOS Neglected Tropical Diseases, revista científica de alto impacto internacional que trata sobre doenças negligenciadas.

Segundo informações do Ministério da Saúde, estima-se que existam aproximadamente 12 milhões de portadores da doença de Chagas nas Américas, e que haja no Brasil, atualmente, pelo menos um milhão de pessoas infectadas por T. cruzi.

O trio de novos compostos, que neste trabalho foi aplicado em células infectadas pelo parasito, junta-se agora a outras três moléculas criadas anteriormente na USP (Universidade de São Paulo) e que já estão em fases mais avançadas da pesquisa, passando por testes em animais. "Nós conseguimos ampliar o número de substâncias potencialmente bioativas contra o Trypanosoma cruzi. Além disso, foi possível comprovar que a classe de compostos que trabalhamos há anos realmente é eficiente no combate ao parasito. Avançamos um degrau em direção às próximas etapas do estudo", explica Carlos Alberto Montanari, professor do IQSC (Instituto de Química de São Carlos) e coordenador do NEQUIMED (Grupo de Química Medicinal e Biológica) do instituto.

A grande vantagem de ampliar o conjunto de moléculas com perfil promissor para o tratamento da doença de Chagas poderá ser observada a partir dos testes em animais. Nesta fase, além das substâncias terem que demonstrar eficácia, elas não podem gerar efeitos tóxicos. "São duas funções que devem ser cumpridas de forma simultânea, mas nem sempre isso acontece. No entanto, tendo em mãos um número maior de substâncias ativas contra o Trypanosoma, nossas chances de sucesso aumentam, pois não dependeríamos de uma única alternativa", explica Montanari, que contou no estudo com a colaboração de pesquisadores da Alemanha e da FCFRP (Faculdade de Ciências Farmacêuticas de Ribeirão Preto) da USP.

Uma novidade das moléculas mais recentes, exibidas no artigo científico, é que elas atuam em mais de uma forma infectiva da doença e ainda agem de forma isolada, ou seja, sem nenhum tipo de combinação terapêutica, como acontece com as substâncias que estão sendo testadas em animais, que são combinadas com o benzonidazol, fármaco padrão utilizado no tratamento de Chagas. "Conseguimos aprimorar a qualidade útil das nossas substâncias", afirma o docente da USP. Embora os resultados sejam animadores, Montanari não descarta realizar estudos que combinem o benzonidazol com as três novas moléculas a fim de avaliar os efeitos da mistura, principalmente em seres vivos. "Já seria ótimo se conseguíssemos reduzir a dosagem do medicamento em uma eventual combinação", explica o especialista.

Como as moléculas atuam?

Constituídas basicamente de aminoácidos quimicamente modificados, as substâncias estudadas pelo NEQUIMED no combate à doença de Chagas têm uma estratégia em comum para controlar a enfermidade: inibir a função biológica da cruzaína, enzima responsável por fazer a digestão das proteínas do hospedeiro (ser humano) e gerar energia ao parasito. Anulando essa atividade, a expectativa é de que o Trypanosoma seja eliminado.

Apesar do benzonidazol ser eficiente na fase aguda da doença, ele não apresenta resultados efetivos contra a enfermidade em sua fase crônica, além de gerar uma série de efeitos colaterais ao paciente, como urticária, náuseas, perda de peso, redução do número de glóbulos brancos, entre outros. "Por esse motivo, muitas vezes as pessoas optam por abandonar o tratamento", revela Montanari. Silenciosa, a doença de Chagas normalmente é transmitida por meio do contato ou ingestão de fezes contaminadas do inseto barbeiro (que reapareceu recentemente em algumas regiões), podendo ficar décadas sem se manifestar no organismo. Quando os sintomas aparecem, no entanto, o indivíduo infectado pode sofrer graves complicações, como o alargamento dos ventrículos do coração.

Segundo os pesquisadores, um novo projeto temático visando à continuidade dos estudos já está sendo elaborado para que seja proposto à Fapesp (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo), responsável até o momento pelo financiamento dos trabalhos da equipe. O objetivo dos cientistas é concluir, em no máximo cinco anos, os testes que ainda são necessários em animais e selecionar as substâncias com melhores resultados para as próximas fases da pesquisa.

Essa notícia também repercutiu nos veículos:
LabNetwork Jornal da Ciência online