Notícia

Claudia

Pés no chão e cabeça nas estrelas

Publicado em 01 agosto 2005

Por Rose Delfino

Quatro astrônomas falam sobre o fascínio da carreira, que deixou de ser clube do Bolinha e acolhe de braços abertos mulheres tão brilhantes quanto as estrelas que elas estudam

Enquanto pesa as fatias de peito de peru cortadas bem fininho, o atendente do balcão de frios do supermercado conversa com Silvia Rossi. Quer saber quando será o próximo eclipse, qual o risco de um asteróide se chocar com a Terra, se é verdade que pretendem mesmo desativar o telescópio espacial Hubble. Como conhece a astrônoma há tempos, não faz cerimônia e sempre tem novas perguntas. Aos 49 anos, com pós-doutorado, a professora não deixa por menos e esbanja entusiasmo quando o assunto é o universo, objeto de suas pesquisas e de sua paixão. Na fila, todos prestam atenção nas explicações, e esse momento corriqueiro do dia ganha nova dimensão, transcendendo a rotina. "A vida da gente é um fiapo de tempo perto de uma estrela, que fica se transformando durante milhões de anos", comenta a professora. Desde que os primeiros homens olharam para o céu, a curiosidade sobre o espaço não tem fim.

Da observação e do registro do que foi sendo descoberto nasceu a astronomia, ciência que estuda o universo e suas estrelas, cometas, galáxias, planetas, buracos negros... A análise leva à dedução de leis físicas, que são utilizadas em medidas práticas, como a previsão das marés e da queda de asteróides e o estudo do aquecimento da atmosfera pelo efeito estufa. Desde que, há 15 anos, o telescópio Hubble entrou em órbita e passou a coletar informações preciosas e imagens deslumbrantes sobre o cosmo, o assunto se popularizou. Há sempre alguém querendo saber mais. Silvia vibra com esse interesse. Seu trabalho é investigar do que são feitas as estrelas mais antigas. Em 2001 , era a única brasileira no grupo sediado na Austrália que descobriu a HE 0107—5240, a estrela mais velha que existe, com idade entre 12 e 13 milhões de anos — a mesma estimada para o Big Bang, explosão que deu origem ao universo. "E possível saber quando se formou pela quantidade e pelo tipo de elementos químicos que apresenta", explica Silvia. "Para chegar a isso, estudamos a luz captada por um detector instalado dentro de um telescópio." O que a emociona é saber que somos constituídos de elementos químicos que tiveram origem no interior das estrelas. "Somos filhas das estrelas", ela brinca.

Silvia optou pela carreira de astrônoma depois de fazer cursos livres no planetário de São Paulo, aos 16 anos. Formou-se em física pela Universidade de São Paulo, fez mestrado e doutorado no Instituto de Astronomia, Geofísica e Ciências Atmosféricas (IAG) da USP e pós-doutorado em Michigan, nos Estados Unidos. Dá aulas para a graduação e pós e ainda se dedica a pesquisas. Esse é basicamente o modo de atuação do astrônomo. Outra opção é trabalhar com divulgação científica em planetários e museus. Na verdade, um profissional dessa área só entra realmente no mercado depois de obter o doutorado. Nos últimos anos de faculdade ou durante a pós-graduação, a maioria dos estudantes recebe bolsas das agências financiadoras de pesquisas no Brasil, como CNPq, Capes e Fapesp. "O que fazemos é apaixonante. Não há nada melhor do que a magia da pesquisa. Mas é muito trabalho que exige estudo contínuo e oferece em troca salários baixos. Um doutor ganha 5 mil reais mensais, em valores brutos, com regime de dedicação exclusiva", conta Silvia. A premiação da astrônoma Beatriz Barbuy, 53 anos, professora titular IAG, concorda. "Nosso mercado é competitivo e exige atualização constante. Astrônomos não descansam nos finais de semana. É uma profissão que tende a isolar cada um no seu canto." Mas nunca pensou em mudar de carreira. "Lidar com a fronteira do conhecimento e buscar o que ninguém fez antes me fascina", diz.

Propor uma teoria e conseguir mostrar que ela é correta ou defender que algo deve estar num determinado lugar e em seguida comprovar são maneiras de fazer um gol de placa na carreira e se tornar assunto em revistas científicas, como a Nature, a mais festejada. Beatriz fez seu golaço ao determinar a quantidade de oxigênio presente nas estrelas velhas, o que ajuda a estipular a idade delas e a do nosso planeta. O achado lhe deu projeção internacional, porque pode levar a novas descobertas. Seu prestígio está em alta: em maio, ela recebeu uma comenda da Ordem do Mérito Científico, entregue em uma cerimônia com a presença do presidente Lula. Beatriz também é vice-presidente da União Astronômica Internacional.

Silvia é esfuziante; Beatriz, quase tímida. As duas têm estilos bem diferentes de expressar a paixão pelo estudo do universo, mas apresentam características fundamentais para uma astrônoma: são intensamente curiosas, detalhistas e minuciosas. Nas salas que ocupam no IAG, tudo é organizado para facilitar o trabalho. Durante a observação, obedecem a uma seqüência precisa de operações e anotam os detalhes que podem se tornar essenciais na hora de analisar os dados. São mulheres com a cabeça nas estrelas e os pés muito bem plantados no chão, que têm disciplina determinação para ir findo nos cálculos.

Às mulheres que estão pensando nessa carreira, Daniela Lazzaro, 49 anos, do Observatório Nacional, no Rio de Janeiro, recomenda dissipar a visão mais romântica que a profissão evoca. "Na vida real, o astrônomo tem contato com os telescópios mais poderosos uma ou duas vezes ao ano — se conseguir convencer os comitês de que seu projeto é bom - e passa o restante do tempo diante do computador analisando os dados que obteve", conta. Na maioria dos grandes observatórios, ele trabalha mais na cúpula, mas sim numa sala de controle, cheia de computadores. Em alguns deles, o profissional nem precisa comparecer: é possível realizar os estudos, na própria instituição, pelo computador. Claro que as observações ao vivo continuam sendo necessárias e muitas vezes resultam em experiências incríveis. Daniela se lembra especialmente de uma noite de julho de 1994 no observatório do Pico dos Dias, em Itajubá (MG), quando os pedaços do cometa Shoemaker-Levy 9 começaram a cair em Júpiter. Ela e alguns colegas iriam detectar o eleito do evento na superfície de alguns dos satélites desse planeta. "De repente, o astrônomo que estava no telescópio começou a berrar: 'Olhem, olhem!' Corri e vi — era como se fosse um jato de material brilhante saindo da borda de Júpiter. É uma imagem que nunca mais vou esquecer!"

Daniela se formou em astronomia pela Universidade Federal do Rio de Janeiro, a única no Brasil que tem curso de graduação. Depois fez mestrado e doutorado no AIG e pós-doutorado no Obserrvatoire de Paris. Nem aqui nem no exterior sofreu preconceito algum por ser uma mulher atuante nesse mundo de cálculos e hipóteses antes reservado aos homens. "Na área acadêmica, a competência é que prevalece. Embora sejamos apenas três mulheres trabalhando ao lado de 27 pesquisadores do sexo masculino, nunca fui discriminada", diz. Daniela estuda. como se formou e como evolui o sistema solar. Para comprovar suas teorias, são necessários dados sobre outros sistema planetários, que só começaram a aparecer há cerca de cinco anos. Hoje, inúmeros planetas extra-solares já descobertos, embora nenhum com as mesmas condições da Terra. "Talvez o maior desafio na minha área seja o de descobrir essas outras "terras" e conhecer os confins do nosso sistema solar."

Como se vê, não faltam desafios para seduzir jovens pesquisadores. A carioca Luciana Pompéia. 34 anos, decidiu encará-los. Formada pela Universidade Federal do Rio de Janeiro,  durante seis meses participou do planejamento e instalação do novo planetário que faz parte do fantástico Museu do Universo, no bairro carioca da Gávea. Mas sua meta era mesmo a pesquisa, tanto que se mudou para São Paulo, onde teria mais oportunidades para aprofundar seus estudos sobre as estrelas da Grande Nuvem de Magalhães, a galáxia mais próxima da nossa. Atualmente faz pós-doutorado no IAG. Por enquanto, sua maior alegria profissional foi observar o céu no telescópio VLT, aparelho superpoderoso instala do no deserto do Atacama, no Chile, em fevereiro. "A noite no deserto, região onde a vida é escassa e o silêncio profundo, provocou a melhor sensação que já experimentei, a de pertencer a alguma coisa muito maior."

A história da astronomia é construída principalmente pelo trabalho contínuo e incansável de pesquisadores, muitos dos quais acabam caindo no esquecimento. Por isso o físico lsaac Newton disse, certa vez, que tinha conseguido enxergar mais longe por estar em ombros de gigantes, referindo-se ao fato de que suas teorias se baseavam nos dados que outros antes dele tinham obtido. É uma carreira fascinante. Você pode ter a impressão de que a escolhe, mas na verdade é escolhida.