Notícia

Gazeta Mercantil

Permanente construir e reconstruir

Publicado em 20 março 2009

Moldar argila ensinou a professora aposentada Justina Harumi Nishigasako, 51 anos, a superar as limitações impostas pela síndrome do pânico. "Fazer uma escultura é parecido com viver. Eu quero esculpir uma coisa, não dá, tento outra e consigo. Queria viver de um jeito, não deu mais, me adaptei ao possível", diz a aluna da Oficina de Escultura do Programa Igual Diferente, do Museu de Arte Moderna (MAM) de São Paulo, um dos oito cursos mantidos pela instituição para portadores de necessidades especiais.

Ela chegou à atividade do museu por indicação da Casa de Saúde Nossa Senhora de Fátima, um dos 15 parceiros do MAM e onde Justina ficou internada várias vezes, desde 2000. "Quando estava fora do hospital, só saía de casa para ir ao médico, agora venho sozinha e até viajo de uma cidade para outra", completa.

Os demais frequentadores da aula contam histórias semelhantes. "Isso aqui contribui para me manter socialmente calmo", diz o dependente químico Edmur Borges das Dores, 44 anos e onze internações, enquanto dá o remate final na peça que "começou como um gavião, virou um frango e acabou ave mitológica com crista de calopsita". "Venho sozinho mesmo depois que sofri um acidente e ando de bengala. Aqui é um lugar onde se respeitam as diferenças", enfatiza Riclidomar Oliveira, 48 anos, em tratamento há 22 anos e o mais antigo aprendiz das oficinas do MAM. "Disseram que sou esquizofrênico, bipolar e até hipocondríaco. Como vou saber qual é o (diagnóstico) certo?", brinca, sem parar de trabalhar no "rosto deformado" inspirado na palavra Itanhaém, nome da cidade onde morou e, segundo ele, significa "cara de pedra".

Embora possam parecer ingênuas ou inócuas perante os psicotrópicos cada vez mais potentes no aprisionamento dos portadores de transtornos mentais em uma camisa-de-força química, ou de outros métodos antigos não totalmente abandonados ou até mesmo reativados - como os choques elétricos, ainda aplicados em casos de depressões graves -, essas atividades estão em expansão no Brasil.

No momento em que o País vive uma transição entre o antigo modelo de saúde mental - centrado nos manicômios que excluíam os doentes do convívio familiar e social - para um sistema com ênfase na atenção psicos-social, conforme preconiza a reforma psiquiátrica, os espaços de criação nos programas de saúde abrangem outros grupos, como deficientes intelectuais e até mesmo vítimas de acidente vascular cerebral (AVC).

Para a professora do Curso de Terapia Ocupacional da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo e autora da obra "Arte, Clínica e Loucura" (Summus e Fapesp), Elizabeth Araújo Lima, a proposta do filósofo francês Gilles Deleuze (1925-1995) para pensar a proximidade entre loucura e arte é das mais elucidativas.

"Segundo Deleuze, não se escreve ou pinta ou inventa com as próprias neuroses. A neurose e a psicose são estados em que se cai quando o processo é interrompido ou impedido. Podemos pensar que quando uma pessoa qualquer cria um texto, pinta um quadro, esculpe uma pedra, há uma produção cultural em gestação. E há também um processo sendo posto em marcha. Há uma saída da paralisia. Há uma saúde que se busca", explica ela. "Neste sentido, a literatura e, poderíamos dizer, a arte, podem ser pensadas como empreendimentos de saúde e o escritor, ou o criador em geral, como um médico de si mesmo e do mundo", acrescenta a especialista.

Se as esculturas, pinturas, fotografias e outras peças produzidas nessas condições podem ser consideradas arte ou apenas fruto de terapia ocupacional, isso parece ser uma questão bem menos relevante do que foi há meio século. Na década de 1950, quando a pioneira no Brasil na articulação arte-clínica, a psiquiatra Nise da Silveira (1905-1999), empreendeu uma das mais belas experiências no Centro Psiquiátrico Nacional, hoje Centro Psiquiátrico Pedro II, no Rio de Janeiro - que resultou na criação do Museu da Imagem do Inconsciente -, a polêmica foi suscitada.

Mas depois que as obras de alguns internos ganharam reconhecido valor estético no mundo artístico inclusive do exterior, o preconceito diminuiu em relação à eficácia dessas atividades como expressão de vivências não verbalizáveis daqueles que estão mergulhados no inconsciente.

Como lembra o artista plástico e psiquiatra Lula Wanderley, que se considera um "nisiano" convicto, o interesse de Nise da Silveira pela arte era decorrente da investigação clínica, buscando no ato criativo dos pacientes os símbolos estruturantes. "A arte é uma intermediária da comunicação que essas pessoas podem restabelecer com o mundo", enfatiza Wanderley, um dos curadores da 4ª Mostra de Artes Visuais "No Centro da Vida", recentemente realizada no Rio de Janeiro. A exposição, patrocinada pela Petrobras Cultural, reuniu trabalhos criados nas oficinas de artes visuais dos Centros de Atenção Psicossocial (Caps) conduzidas por cinco artistas.

O exercício das linguagens - auditiva, audiovisual, visual -, proporcionado por esses encontros, acaba se constituindo em ferramenta fundamental para o resgate de um cotidiano minimamente conectado à vida, uma vez que o sofrimento da vivência psicótica se revela como um corte na comunicação com o mundo. "As oficinas quebram a rigidez da psiquiatria conservadora. Um acontecimento clínico passa a ser um acontecimento artístico", ressalta Wanderley, fundador do Espaço Aberto ao Tempo (no Centro Psiquiátrico Pedro II), que deu continuidade ao trabalho de Nise.

Essas experiências também se multiplicam na música, motivando até projetos beneficentes em prol de instituições psiquiátricas, como o "Loucos por Música", apoiado pelo ministro da Saúde José Gomes Temporão e por Gilberto Gil. Idealizado e realizado pela produtora Lana Braga, o programa começa a capacitar pessoas com deficiências mentais a ingressar no mercado de trabalho.

"Se desde a Idade da Pedra o homem desenhava nas paredes das cavernas para se comunicar, por que crianças e jovens com Síndrome de Down não podem ‘desenhar palavras’ com pinceladas?", questiona o artista plástico Eduardo Iglesias, que inaugurou a série de oficinas "Pintou a Síndrome do Respeito", realizadas pelo Instituto Olga Kos de Inclusão Cultural, no âmbito do Programa Resgatando Cultura.

"Todo tipo de manifestação artística é uma tentativa de comunicação, seja por meio de imagens, sons, palavras ou gestos, que nos atingem de alguma maneira", afirma o pintor, gravador e escultor, que em troca da oficina ganhou a edição do "Livro Ilustrado de Arte: Vida e Obra de Eduardo Iglesias".

A forte presença de atividades artísticas em diferentes propostas de atenção em saúde mental tem despertado diversos tipos de interesse profissional. A psicanalista Isabel Oliveira decidiu aprender mosaico para auxiliá-la a estar atenta a outras estruturas de construção do pensamento, que não a sua própria, algo relevante para uma terapeuta de psicóticos e dependentes químicos. Antes de descobrir a técnica, há um ano, ela já havia constatado em alguns casos que a frequência em oficinas de arte ajudou pacientes não apenas a redescobrir o mundo, mas a adquirir, aos poucos, segurança para sair de casa e encontrar pessoas. Entretanto, ela chama a atenção para a necessidade de eliminar resquícios do lugar pejorativo reservado à terapia ocupacional. "Infelizmente, persiste ainda a ideia de que se trata de algo para ocupar o tempo dos coitadinhos", comenta, citando o que ouviu de um paciente.

Com ela concorda a professora do Curso de Terapia Ocupacional da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo: as atividades, por si só, não definem os efeitos ou a direção dessas práticas. Elas podem ser utilizadas para a manutenção de instituições asilares sem que se coloque em questão a exclusão que estas instituições operam, sua violência, observa Elizabeth Araújo Lima. "O interessante é quando esses instrumentos podem também ser importantes aliados na promoção da saúde, na afirmação dos direitos e na produção de uma vida digna", diz acreditar.

Na avaliação dela, nos últimos 25 anos, a maioria das experiências na rede pública de saúde com atividades expressivas, criativas e produtivas, está associada a abordagens psicodinâmicas, estéticas e sociais.

Mesmo quando as oficinas de arte são estratégias de enriquecimento dos sujeitos, de recomposição de universos existenciais, de ampliação das redes relacionais, de acesso ao universo cultural, até que ponto mexem na constituição do sujeito, operando mudanças importantes para a superação da doença? "Essas práticas se situam no campo da Terapia Ocupacional, com a ressalva de que isso não as desmerece. O terapeuta ocupacional participa de ações nas quais questões relacionadas ao campo da saúde e da cultura são incorporadas de forma transversal, produzindo um enfrentamento da exclusão social", afirma Elizabeth.

Portanto, é um trabalho muito sutil, delicado e artesanal. "E é um trabalho extremamente clínico, pois na interface arte e saúde atua-se também na organização do cotidiano, na construção de redes de suporte, na invenção de possibilidades de troca e circulação pelo campo social, na validação e valorização de diferentes modos de vida e das formas de expressão que eles criam", argumenta a especialista. Para ela, os processos subjetivos estão sempre em marcha.

"Os encontros, com pessoas, materiais, experimentações criativas, modos de fazer nos produzem cotidianamente. Com a parada deste processo um estado clínico se instaura, trazendo sofrimento. É neste momento que os terapeutas são chamados a intervir, no intuito de possibilitar novas conexões com a processualidade criativa da vida e para isso as oficinas podem ser poderosos aliados", explica.

Embora tudo isso não represente uma garantia de cura - assim como todos os demais caminhos terapêuticos disponíveis -, ou que a doença possa ser mais forte do que a arte pode dar, vale a pena experimentar. Trata-se de uma batalha diária contra a imobilidade e o isolamento, pela reabilitação psicológica e social. "É como escolher as cores, quebrar e colar as pedras para montar um mosaico, num constante construir e reconstruir", observa a psicanalista Isabel Oliveira. E os passos são dados de acordo com as condições específicas de cada um.

José Ricardo Perez, 30 anos, que desde 2002 é usuário do Caps Itapeva, em São Paulo, por causa de esquizofrenia, mostrou tantas habilidades nas oficinas do MAM que acabou sendo contratado pelo museu como produtor de ateliê. "Além de ser tratado com respeito, aqui tenho um trabalho e uma renda", diz José, que nunca mais conseguiu emprego no mercado convencional depois da doença, apesar da estabilidade adquirida com o tratamento.