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Perigos subterrâneos

Publicado em 20 dezembro 2004

Por Eduardo Geraque, Agência FAPESP
O processo, cientificamente falando, está funcionando de modo errado. Devido à beleza das cavernas brasileiras, a cada ano aumenta o número de pessoas interessadas em visitá-las. A conseqüência imediata é o aumento do impacto ambiental, uma vez que os responsáveis pela exploração dessas áreas subterrâneas se apressam em arrumar maneiras de ganhar dinheiro com os visitantes. O problema pode ser dividido em partes, segundo Paulo Boggiani, espeleólogo e pesquisador do Instituto de Geociências da Universidade de SP. 'Existe, primeiro, a questão científica. Muitas cavernas, mesmo antes de serem estudadas, estavam abertas à visitação. E, além disso, não contam hoje com nenhum tipo de monitoramento científico', disse à 'Agência Fapesp'. A perda de informação geológica, biológica e ecológica está sendo grande, calcula Boggiani, que no mês passado participou de um simpósio em SP para discutir o assunto. Para o pesquisador, que coordenou estudos nas regiões de Bonito (MS), o problema do impacto cavernícola tem ainda mais duas partes: uma legal e outra de saúde pública. 'As cavernas são consideradas bens da União. A questão da cobrança, por exemplo, que já ocorre em vários lugares, deve ser melhor discutida, pois equivale a pagar para entrar em uma praia', acredita. Para Boggiani, a cobrança pelo serviço de guias, por exemplo, ou de alguma taxa para preservação local merece ser analisada. O cientista levanta outra questão jurídica. 'Não existe, até onde sei, licenciamento para cavernas turísticas no Brasil. Isso ainda está sendo feito pelo Ibama (Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis)', disse. O Centro Nacional de Estudo, Proteção e Manejo de Cavernas (Cecav), instituição ligada ao Ibama, está na fase final de análise de alguns processos. Esses serão os primeiros a terem uma licença ambiental para exploração espeleoturística no Brasil, emitida pelo centro. 'Esses documentos serão emitidos nos moldes que já existem para outros empreendimentos. Haverá a licença ambiental, a de instalação e a de operação', explica Ricardo Marra, gerente do Cecav. O processo, mesmo em fase final, ainda terá que passar por algumas instâncias antes de ser dado como concluído. Além da questão da perda de informação científica e do cumprimento das legislações em vigor, o turismo desregulamentado em caverna tem outro problema, que pode atingir o próprio turista. 'Visitas a áreas ainda pouco conhecidas, por exemplo, sem que tenham sido feitos estudos sobre os artrópodes existentes nos locais, podem oferecer riscos à saúde', afirma Eunice Galati, pesquisadora da Faculdade de Saúde Pública da USP. Entre os projetos de pesquisa desenvolvidos pelo grupo liderado por Eunice, foram reveladas diversas relações entre cavernas e doenças. 'Uma das alunas que oriento - a defesa de tese da aluna, Elisa San Martin Savani, será nesta sexta-feira (17/12) - identificou os parasitas que circulavam em cães e flebotomíneos (grupo de mosquito) na região da Serra da Bodoquena (MS). Ela identificou que a espécie Lutzomyia almerioi se infecta com agentes tanto da leishmaniose visceral como da leishmaniose tegumentar', disse. Essa espécie de mosquito estudada por Elisa havia sido descrita por Eunice em 1999. 'A Lutzomyia almerioi se mostrou dominante em praticamente todas as grutas e altamente atraída para picar o homem, tanto durante o dia como à noite', disse Eunice. (Agência Fapesp, 17/12)